‘A gente ainda está longe do ideal’, diz o prefeito Eduardo Paes ao fazer um balanço do primeiro ano de sua nova gestão

·13 min de leitura

RIO — O prefeito Eduardo Paes diz que fecha o ano com R$ 7 bilhões em caixa e cita avanços no controle da pandemia de Covid-19 e até na prestação de alguns serviços, embora admita que eles estejam “aquém do desejado”. Em entrevista ao GLOBO, anuncia que, em 2022, o programa Asfalto Liso retoma com força. E garante que, em janeiro, deflagra o projeto para zerar em 18 meses a fila do Sisreg. Ele afirma ainda que poderá encampar a Linha Amarela para evitar reajuste de tarifa e que estuda a criação de uma secretaria para a população de rua.

Que avaliação o senhor faz do primeiro ano de sua nova gestão?

Teve uma coisa meio óbvia de controle da pandemia, de trabalhar principalmente voltado para a vacinação e para evitar mortes. Houve também uma necessidade óbvia, que era a de organizar as contas da prefeitura. Recebemos duas folhas de salário para pagar em 2021, além das 13 já previstas. E uma cidade que há quatro anos não apresentava equilíbrio nas suas contas. Houve ainda uma outra missão, que era de retomar e qualificar a prestação de serviços da prefeitura. Acho que a gente ainda está longe do ideal. Mas foi um esforço permanente ao longo deste ano. Então, naquilo que a gente se propôs, que foi controlar a epidemia, equilibrar as contas e melhorar a prestação de alguns serviços, acho que conseguimos avançar bastante.

Como analisa as ações adotadas na pandemia?

Criamos um centro de operações de emergência da Covid-19, que nos deu uma centralidade na questão da pandemia. Construímos um comitê científico de verdade, transparente, com pessoas de notório saber. Montamos uma super logística de vacinação. Acabamos com aquela palhaçada de hospital de campanha, uma desnecessidade. Promovemos a abertura de muitos leitos e implantamos um centro de referência, que foi o Ronaldo Gazolla. Mas continuamos trabalhando nisso. É um tema (a pandemia) que está presente, e vai permear 2022 também.

Em relação ao caixa, como a prefeitura fecha 2021?

Em relação às contas, pegamos restos a pagar em torno de R$ 6 bilhões. Em seis meses, equacionamos o deficit. Voltamos as contas para o azul. Já em julho, fechamos com R$ 4 bilhões em caixa. Vamos fechar 2021 com R$ 7 bilhões, R$ 7,5 bilhões em caixa. Cumprimos com nossas obrigações, pagamos as folhas e, hoje, temos uma situação financeira confortável.

Parte desse caixa é dinheiro da concessão da Cedae, não?

Diria que metade do caixa é dinheiro da concessão da Cedae. Mas a gente inicia o ano com um caixa bastante confortável.

São R$ 7 bilhões em caixa, mas a prefeitura vai negociar o pagamento de dívidas de fornecedores por dez anos ...

Temos ainda a dívida do município com fornecedores, que faremos parcelamento. Com o servidor, temos um residuozinho para o ano que vem (da gestão passada). As contas da prefeitura estão no azul. A razão de ser do equilíbrio fiscal foi uma série de medidas que tomamos: a alienação de imóveis, o plano da recuperação da Previdência do servidor, a reforma tributária, o novo regime fiscal aprovado, a gestão de caixa adequada. Fizemos isso sem aumentar imposto. Ao contrário, anunciamos, agora no fim do ano, uma redução de IPTU para cerca de 60 mil imóveis (nas Zonas Norte e Oeste).

Menos imposto:IPTU 2022: mais de 60 mil imóveis nas zonas Norte e Oeste terão redução média de 30%

A conservação da cidade tem deixado a desejar ....

Admito que estamos muito aquém do que é desejado. Não estou satisfeito ainda com a qualidade da prestação de serviço temos hoje. Mas se olharem as paredes brancas de túneis, vão ver que estão voltando a ser recuperadas. Fizemos o Luz Maravilha, tapamos muito buracos. Houve um trabalho de manutenção da cidade, que é algo que, a partir do ano que, vai acontecer com mais força. Em relação ao cuidado com a cidade, voltamos com o reordenamento do espaço público, com dificuldade porque há ainda muita gente desempregada. O Ambulante em Harmonia foi implantado em Taquara, Ilha do Governador, Bonsucesso, Méier. Estamos atuando também em áreas do Centro, começando por parte da Avenida Rio Branco. Olhando para o futuro, para o orçamento de 2022, vamos retomar o padrão alto de investimento. A Saúde tem um volume de recursos enorme, a Conservação está quase triplicando o seu orçamento, a Comlurb aumentando o orçamento de forma significativa. A gente tem uma musculatura muito maior.

Pensa em voltar com o programa Asfalto Liso (

O Asfalto Liso volta com toda a força ano que vem. Serão R$ 600 milhões. Já licitamos AP1 (Centro e adjacências) e AP2 (Zona Sul, Tijuca e adjacências). Esta na rua a licitação das outras áreas. O serviço de conservação da cidade ainda está muito aquém, mas é porque a gente tem um orçamento muito modesto ainda para o grau de abandono que encontramos a cidade.

O que mais será feito em 2022 para melhorar a conservação?

A Fundação Parques e Jardins e a Comlurb vão anunciar uma série de iniciativas para a manutenção de praças e parques. São licitações que estão na rua. É banho de loja. Você pinta os Arcos da Lapa, ajeita os campos de futebol no Aterro do Flamengo, recupera a Quinta da Boa Vista. Vamos ter ainda uma fábrica de praças (contratos de revitalização de praças, contando com polo em Bangu, para a recuperação de brinquedos, bancos e outros equipamentos).

Na Saúde também há muitas reclamações .....

Acabamos concentrando muitos esforços na pandemia. Então, não houve uma plena recuperação da rede de atenção básica e dos hospitais. Estou botando mais R$ 2,5 bilhões na Saúde ano que vem. Vamos zerar a fila do Sisreg (Sistema de Regulação) em 18 meses, a partir de janeiro. Aí, passamos a ter de novo um atendimento, que será mantido num grau aceitável.

Como vai zerar a fila do Sisreg?

Vamos lançar um grande centro de especialidades na região de Benfica. Estamos comprando um prédio ali. Nele vai haver um hospital do olho e outras grandes especialidades. E a gente vai contratar muita coisa no privado. Essa fila do Sisreg é uma das maiores vergonhas do Rio. Infelizmente, não deu para avançar este ano por causa da pandemia e também por causa de recursos.

O Rio vai criar uma espécie de corujão da saúde, como o implantado em São Paulo para zerar as filas?

Não vamos chamar de corujinha, porque não se quer encarar como mutirão. Não gosto da expressão mutirão. O que vamos tentar fazer é dar uma solução a essas especialidades. Não faremos mutirão. Queremos resolver em 18 meses o passivo e manter estruturas permanentes que possam atender às pessoas daí para frente de maneira adequada.

A nova variante de Covid-19 pode adiar seus planos para a Saúde?

A nova variante me preocupa, temos que estar atentos permanentemente. Mas não dá mais para adiar esses planos. Estamos entrando em um momento que temos que conviver com a Covid. Isso significa que as pessoas vão ter que ir para o hospital para fazer outras cirurgias. Se a pessoa não morrer de Covid, vai morrer de outra doença. Temos que ter estrutura para a Covid e para outras coisas.

As equipes de Saúde da Família que acabaram serão reativadas?

Tem muita equipe de Saúde da Família para recuperar, contratar. A gente está avançando. Quero lembrar que a gente deixou com 70% (da população atendida), e o cara (o ex-prefeito Marcelo Crivella), com 40%. Vai ser gradual essa recuperação.

Nos transportes, o senhor não conseguiu licitar a bilhetagem digital...

Conseguimos avançar nos transportes, mas será um processo mais lento. Gostaria de ter terminado tudo este ano. Mas, desde o início digo, que é impossível terminar em um ano. Também não é simples terminar em dois. Fizemos a intervenção no BRT. Dia 24, entregaremos a última estação fechada: a 46ª. Iniciamos o processo licitatório da mudança de modelagem do sistema de transportes. Infelizmente, a licitação da bilhetagem não foi bem sucedida. Estamos botando na rua a contratação de 600 BRTs novos, e, depois, a nova concessão do sistema de BRT. Retomamos as obras do Transbrasil e passamos a fazer um monitoramento de forma mais inteligente do transporte público, usando GPS.

O senhor vai lançar um novo edital da bilhetagem digital? O que vai mudar?

A minha ideia é manter o processo licitatório. É uma licitação totalmente inovadora no Brasil. Quero acreditar que não tem jogo ali, com a Riocard (operadora dos cartões, ligada à Fetranspor), por exemplo. O que a gente precisa fazer é uma nova rodada de conversas com os privados, com os atores que possam participar de uma licitação dessas. A secretária (de Transportes, Maína Celidonio) vai verificar o que eles entendem como ruim. Ouvi empresas estrangeiras dizerem que o prazo era muito curto para constituir proposta, conseguir os documentos, as garantias. Pode ser que a gente tenha que dar mais prazo.

Por que é tão difícil dar uma solução para o problema dos transportes?

Por que o problema dos transportes é o mais desafiador? Não é uma questão só de dinheiro. Você tem questões habitacional e institucional e há um desequilíbrio no sistema. Mesmo que as empresas de ônibus presentes aqui fossem a Madre Teresa de Calcutá, há um desequilíbrio. Você tem uma diminuição brutal do número de passageiros, o congelamento da tarifa, o aumento do óleo diesel, o aumento de salário dos funcionários. Escolhemos começar a solução do novo modelo pelo BRT. No BRT, vamos pagar por quilômetro rodado, vamos passar a subsidiar. É uma nova experiência.

Quando a prefeitura conclui o Transbrasil?

Terminamos ano que vem. Segurei um pouco a conclusão do Transbrasil, por mais louco que isso possa parecer, para avançarmos com o Terminal Gentileza, em frente à Rodoviária, onde vai haver a integração com o VLT.

E a Linha Amarela? O que fará se a perícia judicial concluir pelo aumento da tarifa?

Se for essa a decisão final, vou encampar a Linha Amarela, com a diferença que vou fazer o pagamento devido à Lamsa. A gente quer respeitar contratos. Encampo, pago e licito no dia seguinte. É inaceitável aumentar o pedágio da Linha Amarela. Pelas nossas contas, a tarifa atual mantém a Linha Amarela, inclusive com a taxa de retorno.

O que o senhor gostaria de ter feito e não fez em 2021?

Não ter as clínicas da família funcionando adequadamente, os hospitais do jeito que eu deixei em 2016, é uma angústia diária. Eu gostaria de ter resolvido também a questão dos transportes. Ter o sistema de transporte no estado em que se encontra hoje é uma angústia diária. São as duas áreas. Manter a cidade limpa, asfaltada, me incomoda. Mas se me perguntar o que mais me angustia é resolver o problema dos transportes e da saúde. Tem ainda a questão do desemprego. Estou pedindo a todas as secretarias. É preciso ter muito foco no emprego. A gente tem um problema de pobreza, de miséria, de desemprego.

Em 2022 haverá alguma ação nova para conter as ocupações irregulares, e a expansão das favelas?

Voltamos a agir de maneira muito forte contra a ocupação irregular. Foi algo que eu sempre fiz e me atacavam. Agora, grileiros são chamados de milícia e ninguém da esquerda reclama mais. Nessas operações de ocupação desordenada do uso do solo, há o efeito pedagógico, contamos com o apoio da PM e da Polícia Civil e temos uma força tarefa com o Ministério Público. Quase diariamente há uma operação da prefeitura demolindo alguma coisa. Mas foi muito tempo de desmando. Mudar essa cultura leva um tempo. Mas tenho certeza que as pessoas hoje, ao iniciar um empreendimento, pensam duas vezes.

Haverá alguma outra iniciativa, como muros, marcos, cercas, para inibir o crescimento das favelas?

O IPP (Instituto Pereira Passos) faz hoje levantamento aerofotogramétrico, usa a tecnologia. Esses levantamentos somados a ações efetivas permitem um melhor controle e evitam o avanço das comunidades.

O programa Lixo Zero vai voltar?

O Lixo Zero continua, não acabou. Mas a gente vive um processo de degradação do espaço público na cidade muito grande: excesso de população de rua, comércio ambulante totalmente desorganizado. Então, essa herança leva um tempo para a gente recuperar.

Outro problema da cidade é a população de rua, que cresce. O senhor pensa, mesmo, em criar uma secretaria para a população de rua?

Estou estudando essa possibilidade. É você ter foco na população de rua. Mas não decidi ainda.

A Secretaria de Assistência Social não faz isso?

A Assistência Social pode fazer isso. Mas eu quero um secretário focado só nisso. Era um problema grande que virou um problemaço. A gente tem que dar alternativa para as pessoas, mas é preciso organizar minimamente isso também. Não dá para as pessoas ficarem com barracas acampadas no Centro da cidade.

O número de ambulantes crescente nas ruas também tem aumentado a desordem. Vai voltar com o chamado choque de ordem?

A gente vive uma crise de emprego, um problema social profundo. Não tem como fazer choque de ordem, sair arrancando. O processo vai ser mais lento Já resolvemos em áreas como Taquara e Méier, que eram complexas. Estamos fazendo com diálogo, com um olhar mais carinhoso. Desenvolvemos o programa Ambulante em Harmonia, dando licença, organizando. Só que essa necessidade não pode significar uma esculhambação completa. Não precisa ser zoneado para ter ambulante.

O senhor não conseguiu licitar os estacionamentos públicos na sua gestão anterior. Fará isso agora?

Esse não é um tema na área de transportes que eu esteja perdendo muito tempo.

O senhor continua apoiando a candidatura de Felipe Santa Cruz (PSD) ao governo do estado?

Vou falar até o último dia: o meu candidato é Felipe Santa Cruz, a não ser que ele não queira. Ele é o melhor nome para disputar o governo do estado. A gente tem um problema grave no estado que tem a ver com a segurança pública, que é a grande deseconomia externa do Rio de Janeiro. Precisamos colocar alguém ali que tenha uma coluna ereta, capacidade de articulação com o Ministério Público e o Poder Judiciário para enfrentar os desafios enormes da segurança pública, Não há ninguém melhor que o ex-presidente da OAB Nacional para tal.

Com essa decisão, não pode desandar a sua relação com o governador Cláudio Castro?

Comigo a relação nunca desandou. O Cláudio é um político responsável, correto e maduro. E eu sou um político responsável, correto e maduro. Jamais usarei minha posição de prefeito para fazer oposição a ele. Ao contrário. Dialogo muito bem, tenho carinho por ele e respeito. E terei até o fim da eleição

Incluiria o presidente Jair Bolsonaro como responsável, correto e maduro?

(pausa) Eu não acho que o presidente Bolsonaro seja um presidente que estabeleça relações institucionais com os demais níveis do governo. Não consegue diferenciar a atividade política eleitoral e partidária do convívio administrativo e institucional. E não é só comigo. Desde o início do ano não nos falamos, quando o encontrei em um evento. Acho que não é um privilégio meu. Ou o sujeito é um aliado dele, bate palma e continência para tudo que diz ou não dialoga. Isso eu acho um absurdo. Cláudio Castro não é assim. Sabe diferenciar o que é disputa eleitoral. O governo federal do presidente não é federativo. Não existe diálogo entre estados e municípios. Há coisas que ele tem que cumprir mesmo. Como mandar vacinas e fazer os repasses constitucionais. Não é algo que faça com prazer, é obrigado. Mas eu não tenho também qualquer gesto de hostilidade.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos