'A gente lamenta, mas a vida continua', diz Bolsonaro sobre 200 mil mortes por Covid-19

Gustavo Maia e André de Souza
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BRASÍLIA — O presidente Jair Bolsonaro lamentou a marca de 200 mil mortos por Covid-19 no Brasil, alcançada nesta quinta-feira, mas voltou a minimizar os números e disse que "a vida continua". Ele sugeriu que nem todos morreram em decorrência da doença. Segundo Bolsonaro, há mortes de Covid-19, e mortes com Covid-19, ou seja, pessoas que tinham o vírus, mas que faleceram em razão de outro motivo.

— A gente espera voltar à normalidade o mais rapidamente possível. No mais, a vida continua. Lamento as 200 mil mortes. Muitas dessas mortes com Covid, outras de Covid. Não temos uma linha de corte no tocante a isso daí. Mas a vida continua. A gente lamenta profundamente. Eu estou preocupado com minha mãe que tem 93 anos de idade. Se contrair o vírus, vai ter dificuldade pela sua idade. Mas temos que enfrentar isso aí — disse Bolsonaro em transmissão ao vivo na internet, acompanhado do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

O presidente criticou medidas que paralisem a economia:

— Não adianta apenas continuar, como alguns querem continuar, aquela velha história de fique em casa que a economia a gente vê depois. Isso não vai dar certo. Vai ser um caos no Brasil. Pode nos levar a condições mais dramáticas ainda do que as consequências do vírus. Não podemos virar um país de pobres, de desempregados, sem PIB, um país endividado.

Vacinas na rede privada

Questionado sobre a possibilidade de que laboratórios privados também ofereçam vacina contra a Covid-19, Bolsonaro disse que o governo "não vai criar problema", mas destacou que o imunizante precisa ser aprovado pela Anvisa. Pazuello, por sua vez, disse que a demanda do Sistema Único de Saúde (SUS) precisa ser atendida primeiro pelo Ministério da Saúde, mas que a iniciativa privada poderá importar principalmente vacinas de laboratórios estrangeiros.

— Eu acho que [a rede privada] deve comprar, mas lembro que, pelo outro lado, nós temos que ter muita capacidade de suprir o Sistema Único de Saúde e deixar a nossa população completamente com as vacinas disponíveis o mais rápido possível. São duas linhas — comentou Pazuello.

Quando o presidente aventou o caso hipotético de o ministério oferecer vacinas de três laboratórios e a iniciativa privada ter interesse em comprar de outro, o ministro disse não ver "problema nenhum". E Bolsonaro ratificou:

— Então a gente não vai criar problema no tocante a isso daí. Quem quiser... Se uma empresa quiser comprar lá fora a vacina e vender aqui, quem tiver recursos vai tomar vacina lá. Agora nós vamos oferecer de forma universal, e da nossa parte não obrigatória — declarou.

Novamente indagado sobre o papel da rede privada, em especial com relação à vacina da Pfizer, que exige condições especiais de armazenagem, Pazuello reforçou que o governo está no caminho para suprir todas as demandas do SUS e atender a população brasileira. E acrescentou:

— A gente necessita também que a iniciativa privada adquira as vacinas diretamente dos laboratórios internacionais, ou o excedente do produzido no Brasil, e disponibilize na rede privada também. Claro que as condicionantes logísticas precisam ser trabalhadas.

Nem contra, nem a favor das vacinas

Pazuello disse que o plano do Ministério da Saúde é vacinar 50% da população alvo até junho, e os outros 50% até dezembro, com uma margem de mais quatro meses se necessário. O presidente afirmou que é uma irresponsabilidade obrigar alguém a tomar vacina e disse que não está fazendo campanha nem a favor nem contra a vacina.

— Não estou fazendo campanha contra a vacina, nem a favor. Isso é uma questão de conscientização. Alguns acham que deve fazer uma campanha massiva de vacinação. A campanha de esclarecimento, e você na ponta decide se vai tomar a vacina ou não — disse Bolsonaro.

Pazuello defendeu a necessidade de a pessoa vacinada com um produto que obteve autorização emergencial, e não definitiva, na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), declarar que está consciente dos riscos. Bolsonaro chegou a dizer que a responsabilidade seria da pessoa vacinada, mas Pazuello o corrigiu.

— Não pode querer aplicar a vacina em um ser humano presumindo que ela compreenda. Ela tem que declarar que compreende os riscos que pode estar correndo. Isso está previsto na documentação da Anvisa, e está previsto na nossa Constituição — disse Pazuello.

— Seria um termo de responsabilidade? — indagou Bolsonaro.

— Não é um termo de responsabilidade, é de compreensão — esclareceu o ministro.

— Então não tem o termo de responsabilidade. Não tem que assinar nada. Mas quem for aplicar vai falar para aquela pessoa: seu João, dona Maria, o problema que pode acontecer, nós não nos responsabilizamos, vai correr esse risco? — disse Bolsonaro.

Pazuello, então, se viu obrigado a fazer uma correção:

— Preciso ajudar o senhor numa posição que é muita técnica, preciso colocar para não ficar a ideia atravessada. No momento em que nós, governo federal, comprarmos o imunizante, distribuirmos pelo PNI [Programa Nacional de Imunizações] e aplicarmos por meio de SUS, há um grau de responsabilidade nossa. Isso é intransferível. Por isso a Anvisa tem que fazer seu trabalho anterior, e tem que declarar a segurança e eficácia daquele trabalho. Quando a Anvisa não tem essa possibilidade de fazer o registro e autoriza o uso emergencial, aí, sim, temos que entrar com esclarecimento claro e, segundo os manuais da Anvisa, as pessoas se declaram conscientes. Em momento algum tentamos passar essa responsabilidade para a pessoa, ou nos eximir dessa responsabilidade.

Ataques à imprensa

Tanto Bolsonaro como Pazuello reclamaram da imprensa, dizendo que "boa parte" dela prega a desinformação sobre o tema. O presidente rechaçou o rótulo de genocida pelo trabalho de enfrentamento à pandemia e citou como exemplo o auxílio emergencial, com gastos de R$ 292 bilhões que ajudou a aquecer a economia.

— Quando vocês [imprensa] pregam mentira, pessoas morrem. Quando vocês tocam o terror, levam pânico, fecham o comércio, levam ao desemprego. E uma pessoa desempregada é levada à morte por outras causas também, depressão, suicídio, se alimenta mal — disse o presidente.

— Somos seres humanos normais, temos as nossas, digamos, fraquezas, e nossos pontos fortes, mas estamos focados no trabalho, na solução. A gente realmente às vezes se choca com a desinformação, com a forma como as coisas são distorcidas. Quando a gente fala disso, de uma pandemia, com desinformação, com intenção ou não de ser feita, causa consequências trágicas na população, medo, angústia, incerteza sobre o que está acontecendo no dia a dia — afirmou o ministro da Saúde.

Bolsonaro também voltou a defender o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, como a cloroquina e a hidroxicloroquina, dizendo que elas não vão fazer mal. Há estudos, porém, mostrando que esses remédios podem afetar o coração.