'Quando alguém me vê de mochila, volta para trás': o relato de motoboys sobre preconceito após onda de assaltos

Luiz Henrique Santos Oliveira, de 22 anos, com sua moto
O entregador Luiz Henrique Santos Oliveira, de 22 anos, diz que pessoas se assustam ao vê-lo com mochila de entregador

Um motociclista se aproxima carregando uma mochila vermelha e quadrada de entrega nas costas.

O que era apenas sinal de trabalho, hoje virou motivo de apreensão em parte da população após uma onda de crimes cometidos por bandidos disfarçados de entregadores.

Moradores e líderes comunitários ouvidos pela reportagem da BBC News Brasil afirmaram que a maior parte da população passou a ter medo de pessoas com mochilas de delivery em motos. Isso porque nas últimas semanas esse foi o disfarce de criminosos para praticar diversos crimes violentos em São Paulo.

Uma dessas ocorrências terminou com a morte de Renan Silva Loureiro, de 20 anos, no dia 23 de abril, no bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo.

Após ser abordado por um criminoso, o jovem chegou a se ajoelhar e dizer que não tinha nada para entregar ao falso entregador, mas levou ao menos quatro tiros ao tentar defender a namorada quando o bandido foi abordá-la.

A repercussão desses crimes assustou parte da população. O entregador Luiz Henrique Santos Oliveira, de 22 anos, disse que as pessoas passaram a se assustar ao encontrá-lo de moto e com uma mochila de entregas na rua.

Luiz Henrique Santos Oliveira, de 22 anos, com sua moto
Luiz Henrique planeja mudar de profissão por conta de crise dos entregadores

"A população, de umas semanas para cá, está bastante assustada mesmo. Quando alguém me vê de mochila, volta para trás e desiste de sair de casa. Também acontece de você ir entregar uma refeição e a pessoa não sai. Pede para que você deixe o pedido na porta. Ou mesmo liga para o restaurante perguntando as suas características para saber se abre a porta ou não", relata à reportagem.

Em resposta à sensação de insegurança da população, o coronel Ronaldo Miguel Vieira, comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, disse que vai abordar todos os motociclistas com mochilas.

"A gente não pode criminalizar essa profissão. Eles estão tentando ganhar a vida. E, infelizmente, criminosos estão usando essa atividade como disfarce para cometer roubos. Estamos dando continuidade às operações com motociclistas. Só que a gente vai parando todos", afirmou.

Abandono da profissão

Loureiro concorda que a atuação da polícia é necessária e que inibe a atuação de criminosos. Mas relata que a grande frequência com que ele é parado dificulta, e muito, o trabalho.

"O policiamento ajuda, mas a polícia agora só foca nos motoboys. Toda hora é enquadrado. A burocracia faz a gente atrasar pelo menos meia hora, esfria o pedido, o cliente cancela. Você não ganha e ainda tem a conta bloqueada", conta à BBC News Brasil.

Ronaldo Vieira, que assumiu o comando da Polícia Militar na terça-feira (3/05) pediu paciência aos profissionais que prestam serviço para aplicativos de entrega.

Mas Loureiro disse que a baixa remuneração aliada à insegurança de trabalhar com uma moto fez com que ele parasse de trabalhar à noite. Hoje, ele só trabalha enquanto há luz natural e planeja mudar de área.

"Trabalho há seis anos como motoboy, mas agora estou procurando emprego para mudar de área. Quero ir para qualquer área que seja fechada e dê para sustentar minha família, minha casa. Além de perder dinheiro, estou correndo risco não só de roubo, mas também da maldade, de levar tiro."

Loureiro mora de aluguel com a mulher e os quatro filhos no Itaim Paulista, no extremo leste de São Paulo.

O entregador Luciano de Oliveira Rosa, de 44 anos, disse que, na segunda-feira (2/05), o dono de um restaurante pediu para que ele ficasse do lado de fora para não assustar os clientes.

"Eu entrei no restaurante para pegar um pedido usando um colete. Uma cliente se assustou e o dono pediu para eu sair, me maltratou", afirma.

Ele disse ainda que percebeu o medo que as pessoas sentem da aproximação dos entregadores, inclusive no trânsito.

"Quando você para do lado de qualquer carro, as pessoas fecham os vidros. Elas ficam todas em choque. E eu me sinto constrangido", conta à reportagem.

Edgar Francisco da Silva, o Gringo, ao lado da sua moto
'A gente passou de heróis da pandemia para suspeitos e vilões', diz presidente de associação

De heróis a vilões

O presidente da Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil (AMABR), Edgar Francisco da Silva, o Gringo, disse que os crimes recentes levaram a uma descredibilidade da população.

"Realmente, o pessoal está bem inseguro e com medo. A gente passou de heróis da pandemia para suspeitos e vilões. Você consegue ver o pessoal na rua receoso. As pessoas inseguras ao atender a porta. Está claro que a população está com medo por não conseguir diferenciar o ladrão do trabalhador."

Ele sugeriu algumas mudanças que dariam mais segurança para as pessoas que contratam o serviço, para quem anda nas ruas e para o policiamento ostensivo.

"É necessário aplicar a Lei do Motofrete. Nela, o trabalhador usa um baú identificado com um número, não mochila. A moto tem uma placa vermelha e o trabalhador passa por um curso, o que torna muito mais fácil para o cliente identificar. Se ela fosse aplicada, não seria tão fácil um bandido se passar por entregador e o Renan não teria morrido", afirma.

No ponto de vista dele, todas as ações implantadas pelos aplicativos para reforçar a segurança falharam, inclusive um reconhecimento facial solicitado para verificar a identidade do entregador. A reportagem não descreve como o sistema pode ser burlado, por motivos de segurança.

Procurado, o iFood informou por meio de nota que "é inaceitável que criminosos se aproveitem de uma atividade honesta para praticar brutalidades". A empresa disse ainda que "está atuando de forma proativa com as autoridades policiais fornecendo informações para as investigações dentro dos limites legais para preservar o trabalho do real entregador que atua em nossa plataforma e dar mais segurança para clientes e parceiros."

O iFood informou ainda que "não há exigência de uso da bag (mochila) com o logo da empresa para fazer entregas pela plataforma. Portanto, o fato de uma pessoa estar utilizando uma bag com a marca do iFood não significa que esteja fazendo uma entrega pela empresa ou ainda que possua cadastro nesta."

Luciano de Oliveira Rosa, de 44 anos, com a sua moto
'Quando você para do lado de qualquer carro, as pessoas fecham os vidros. Elas ficam todas em choque', diz entregador

A Rappi informou que "condena os criminosos que se passam por entregadores para cometer delitos. A empresa vem se reunindo com a Secretaria Estadual de Segurança Pública para cooperar na busca por soluções desse grave problema de segurança pública."

A empresa disse ainda que "possui um processo formal e rigoroso de cadastramento para que todas as partes - o usuário, o próprio entregador e o Rappi - façam parte de um ecossistema seguro."

Hoje, o presidente da AMABR diz que há cerca de 9 mil motofretistas aptos para trabalhar em São Paulo, enquanto a capital paulista possui cerca de 70 mil entregadores. As duas maiores empresas que atuam no Brasil, iFood e Rappi, foram questionadas sobre os números, mas não responderam.

"O poder público precisa incentivar o cumprimento dessa lei, que já está em vigor. Chegaram a falar em identificar a mochila, mas o uso dela é proibido por lei. O que precisa fazer é exigir um curso para eles. O Detran disponibiliza hoje 25 mil vagas de curso de motofrete", explica.

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública informou que "mantém um diálogo permanente com representantes do setor e empresas de entregas por aplicativos a fim de aprimorar a segurança dos usuários dos sistemas. Uma reunião com representantes das empresas será realizada nos próximos dias para tratar do tema".

A pasta disse ainda que faz operações para prender os falsos entregadores. Em um mês, foram presas mais de 100 pessoas e apreendidos 45 veículos, informou a Secretaria da Segurança Pública.

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