George Blake, último agente duplo britânico que espionava para a KGB, morre aos 98 anos

Max DELANY
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George Blake, o famoso ex-agente duplo britânico que atuava para a KGB soviética, em Moscou, em foto de junho de 2001

O britânico George Blake, um famoso agente duplo, que espionava para a KGB antes de se mudar para o leste da Europa, que faleceu neste sábado aos 98 anos na Rússia, era uma das últimas testemunhas do confronto entre a União Soviética e o Ocidente durante a Guerra Fria.

Blake apresentou os nomes de centenas de agentes de inteligência à KGB, braço armado da espionagem soviética. Ele era o último sobrevivente de uma geração de agentes duplos britânicos que provocaram uma grande marca em sua época.

Sua carreira, no entanto, não tem nada a ver com a de seus colegas de boa família, os "Cambridge Five", rede de ex-alunos da famosa universidade britânica recrutados na década de 1930 pela NKVD soviética, antecessora da KGB.

Nascido em 1922 com o nome George Behar na Holanda, de mãe holandesa e pai egípcio-britânico, o futuro espião se mudou para o Cairo na juventude.

Quando a Segunda Guerra Mundial explodiu, primeiro ele aderiu à resistência holandesa e depois passou a integrar o MI6, o serviço de inteligência externo britânico.

- Conversão ao comunismo -

Anos depois foi preso pela Coreia do Norte durante a guerra na península coreana.

George Blake afirmava que ofereceu os serviços aos soviéticos por decisão própria, depois de testemunhar os bombardeios americanos contra populações civis durante a Guerra da Coreia.

"Eu via o comunismo como uma tentativa de criar o reino de Deus neste mundo. Os comunistas estavam tentando fazer pela ação o que a Igreja tentava alcançar por meio da oração", disse Blake, um protestante calvinista, em uma entrevista.

"Eu cheguei à conclusão de que não estava mais lutando do lado certo".

Ao retornar para Londres, o já agente duplo concretizou sua primeira grande ação: revela à KGB a existência de um túnel secreto em Berlim Oriental, que era utilizado para espionar os soviéticos.

Aos poucos se tornou um manancial de informações para os superiores soviéticos. Na época, Blake se casou com Gillian e o casal teve três filhos. A esposa não sabia nada sobre sua vida dupla.

A família se mudou para Berlim, onde ele afirma que delatou todos os entre "500 e 600" agentes britânicos que operavam na Alemanha.

O destino dos agentes é desconhecido, mas Blake repetia que não foram assassinados pela KGB. "Eu afirmava que só daria as informações se eles garantissem que estas pessoas não seriam executadas", disse.

- Nova vida na URSS -

Após vários atos imprudentes, ele caiu em uma rede. Um agente duplo polonês denunciou Blake, que admitiu que era um espião para os soviéticos: após um julgamento a portas fechadas em 1961 ele foi condenado a 42 anos de prisão.

Porém, cinco anos depois, em 1966, ele fugiu da prisão graças a uma escada de corda e com a ajuda dos companheiros de cela: um ladrão irlandês e dois ativistas antinucleares.

Estes últimos o transportam escondido até a fronteira com a Alemanha Oriental. O agente duplo entra na área da Cortina de Ferro e nunca mais retorna ao Ocidente.

Em Moscou é aclamado como um herói. A KGB concede a patente de coronel e disponibiliza um apartamento no centro da capital russa.

Sua esposa britânica pede o divórcio. Ele casa com Ida e tem mais um filho.

O ex-espião perde o encanto rapidamente com a realidade do "ideal comunista".

"Uma das coisas mais decepcionantes foi que eu acreditava que aqui havia nascido um homem novo", afirmou ao jornal britânico The Times.

"Percebi rapidamente que não era assim. Eram apenas pessoas comuns, como todas as demais. Suas vidas eram administradas pelas mesmas paixões humanas, a mesma ganância e ambição, que administram as vidas da maioria das pessoas".

Em 1990, Blake publicou a autobiografia "No Other Choice" (Sem Outra Escolha).

Blake se mudou para uma datcha com a esposa na região de Moscou, de onde observou o colapso a URSS.

Quando o ex-agente completou 90 anos, o presidente russo Vladimir Putin afirmou que ele integrava uma "constelação de pessoas fortes e corajosas, brilhantes profissionais".

Neste sábado, após o anúncio da morte de Blake, Putin expressou "sinceras condolências".

"Blake era um profissional brilhante, com uma vitalidade e coragem particulares (...) Durante anos de difícil e árduo trabalho, ele deu uma contribuição realmente inestimável para garantir a paridade estratégica e manter a paz no planeta. A recordação brilhante deste homem lendário ficará para sempre em nossos corações", afirmou o Kremlin em um comunicado.

Apesar da queda da União Soviética, a qual dedicou quase toda sua vida, ele afirmava que não tinha arrependimentos.

"Acho que nunca é errado dedicar sua vida a um ideal nobre, e a um experimento nobre, mesmo que não tenha sucesso", afirmou em uma de suas entrevistas.

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