Morre George Shultz, braço direito de Reagan que ajudou a acabar com a Guerra Fria

Shaun TANDON
·4 minuto de leitura
George Shultz em foto do ano 2000

George Shultz, secretário de Estado do presidente Ronald Reagan e grande arquiteto da diplomacia americana no final da Guerra Fria, faleceu no sábado aos 100 anos, anunciou neste domingo (7) o Hoover Institute.

Professor de Economia, que via a si mesmo mais como um especialista de dados do que como um ideólogo, Shultz contou com a rara distinção de ocupar quatro cargos diferentes no gabinete.

"Um dos mais importantes estrategistas políticos de todos os tempos, que serviu a três presidentes americanos, George P. Shultz faleceu em 6 de fevereiro aos 100 anos", informou a instituição vinculada à Universidade de Stanford em um comunicado publicado em seu site.

O presidente Joe Biden disse que "poucas pessoas fizeram tanto para moldar a trajetória da diplomacia americana e a influência americana no século XX como Shultz".

"Lamento que, como presidente, não possa beneficiar-me de sua sabedoria como muitos de meus antecessores", completou Biden em um comunicado.

O atual secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, descreveu Shultz como uma "lenda" e um "visionário". "Ele ajudou a alcançar o maior feito geopolítico da época: um fim pacífico para a Guerra Fria", disse Blinken em um comunicado.

Na Casa Branca presidida por Ronald Reagan, famosa por suas disputas internas, Shultz era uma das personalidades menos controversas. Ele cultivou vínculos cordiais com o Congresso e a imprensa e, de forma mais crucial, contou com o sólido apoio do próprio presidente, que o manteve como chefe da diplomacia por seis anos e meio.

No começo de 1983, apenas meio ano depois de chegar ao posto, Shultz voltou da China e foi convidado por Nancy Reagan a um jantar informal na Casa Branca, onde lhe pareceu que o famoso presidente anticomunista se mostrava ansioso para se encontrar com os soviéticos.

"Nunca tinha tido uma sessão extensa com um líder importante de um país comunista e pude sentir que desfrutaria de uma oportunidade assim", escreveu Shultz em suas memórias, intituladas 'Turmoil and Triumph'.

Dias depois, levou o embaixador soviético à Casa Branca em um carro sem identificação para um encontro secreto com Reagan, que pressionou Moscou para que permitisse a emigração de cristãos pentecostais que tinham pedido refúgio na embaixada dos Estados Unidos.

Os soviéticos atenderam discretamente. O inesperado papel de Reagan como negociador como a superpotência que ele mesmo tinha qualificado de "império do mal" havia começado.

- Contato com Gorbachov -

Em 1985, Mikhail Gorbachov assumiu as rédeas do Partido Comunista e Shultz, unindo-se ao vice-presidente George H.W. Bush, voou para Moscou e uniu a ele no funeral do seu antecessor, Konstantin Chernenko.

Shultz detectou imediatamente chances com Gorbachov.

"É totalmente diferente de qualquer líder soviético que conheci", descreveu Shultz a jornalistas.

A aproximação de Shultz com Gorbachov enfrentou o profundo ceticismo do secretário da Defesa, Caspar Weinberger, e do chefe da CIA, Bill Casey, mas Reagan passou por cima.

Em 1987, Reagan e Gorbachov assinaram o histórico Tratado de forças nucleares de categoria intermediária. A União Soviética começou logo a se desmantelar depois que Gorbachov iniciou as reforças liberais e a dissidência cresceu.

Shultz reduziria depois importância ao papel de Gorbachov, destacando as fragilidades subjacentes do sistema soviético e ressaltando os gastos maciços na defesa, realizados pelos líderes americanos.

Também elogiou os aliados europeus, especialmente à então Alemanha Ocidental, que desafiaram os protestos públicos contra a mobilização de mísseis da Otan nos anos 1980.

"Os soviéticos deviam ver isso e se dar conta de que éramos fortes e que nossa diplomacia estava baseada na nossa fortaleza", explicou Shultz na Hoover Institution da Universidade de Stanford, onde desenvolveu sua carreira após passar pelo governo.

- Ofensiva contra o terrorismo -

Shultz se tornou secretário de Estado semanas depois de Israel invadir o Líbano, um país que seria central em um tema que definiu seu mandato: o terrorismo.

Em 1983, um atacante suicida suspeito de ser um militante muçulmano xiita detonou o quartel dos soldados americanos que agiam como forças de paz no Líbano, matando 241 pessoas, com um segundo ataque dirigido às forças francesas que deixou 59 mortos.

Com os sequestros e os atentados crescendo em todo o mundo, Shultz prometeu em 1984 em uma sinagoga de Nova York que os Estados Unidos iriam "além da defesa passiva para considerar meios de prevenção ativa, antecipação e represália".

"Não podemos nos permitir nos tornarmos o Hamlet das nações, preocupando-nos sem cessar sobre se responder ou como", disse Shultz, que recomendou os ataques à Líbia em 1986 depois que um soldado americano morreu em um incidente em um clube noturno de Berlim.

A doutrina de Shultz foi citada duas décadas depois quando George W. Bush invadiu o Iraque, alegando erroneamente que buscava armas de destruição de massa.

Shultz apoiou a invasão, que junto com as guerras derivadas acabaria custando centenas de milhares de vidas.

Como secretário de Estado, as políticas de Shultz no Oriente Médio foram mais moderadas. Ele entrou em choque reiteradas vezes com o aliado israelense, especialmente sobre o Líbano, e abriu contatos com a Organização para a Libertação da Palestina.

Shultz já tinha sido secretário de Trabalho com Nixon e também chefiou seu Gabinete de Gestão e Orçamento, cargo no nível de gabinete.

jm/bbk/rs/gm/fp/mvv/ic