Geração de editores sai de cena nos EUA com ocaso de Trump

NELSON DE SÁ
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Martin Baron, 66, editor do Washington Post, anunciou há duas semanas que vai deixar o cargo no próximo dia 28, disparando uma dança das cadeiras nos principais veículos de imprensa americanos. Além dele, é esperada a saída dos editores de New York Times, Los Angeles Times, CNN e Reuters, além de veículos menores, como Vox. Várias das mudanças são esperadas há tempos, mas foram represadas por Donald Trump, que manteve por cinco anos, entre campanha e governo, uma postura de embate intermitente com a imprensa. A troca de guarda acompanhada com mais atenção é aquela do NYT, jornal que encerrou estes cinco anos com 7,5 milhões de assinantes, parte deles trazidos pela resistência ao ex-presidente. O crescimento da audiência ficou conhecido como "Trump bump". Há três meses, desde a derrota de Trump na eleição americana, Dean Baquet já edita o jornal nova-iorquino de Los Angeles, onde até comprou uma casa, como revelou a revista de celebridades Ok!. Ele diz que vai voltar para Nova York quando o jornal encerrar a rotina de trabalho à distância, mas precisa sair do cargo até o ano que vem, quando faz 66, a idade máxima permitida internamente. Com Baron e Norman Pearlstine, 78, do LA Times, é toda uma geração de comandantes de Redação que sai de cena. Baron já havia chefiado o Miami Herald e o Boston Globe, inclusive na cobertura jornalística que resultou no filme "Spotlight", em que é representado pelo ator Liev Schreiber. Pearlstine chefiou Wall Street Journal, Time, Forbes, Bloomberg Businessweek e outras. Baquet já havia sido editor do LA Times e agora se especula que poderia voltar para o posto, morando lá, mas ele nega. O que se projeta, inclusive nos próprios jornais que ainda dirigem, é que os três e os demais devem dar lugar a uma geração de mulheres e, eventualmente, minorias étnicas. No jornal de Los Angeles, são nomes como Kimi Yoshino e Julia Turner, ambas da própria Redação, Janice Min, do Hollywood Reporter, e Anne Kornblut, hoje no Facebook. Tanto para o LA Times como para o Washington Post, outro nome citado repetidamente é o do jornalista negro Kevin Merida, editor na ESPN. No NYT, pode-se dizer que a mudança começou há cerca de uma década e agora está apenas se ampliando. Baquet, que é negro, foi precedido por uma mulher, Jill Abramson. E no último ano duas mulheres assumiram funções de direção: Meredith Kopit Levien, presidente da NYT Company, e Kathleen Kingsbury, editora de Opinião, de posição hierárquica equivalente à de Baquet, que dirige o noticiário. A pressão por mulheres e negros em posição de poder, nos três jornais e por toda a imprensa americana, vem no rastro de movimentos como #MeToo e #BlackLivesMatter, que vêm levando a rebeliões dentro das próprias Redações. Mas a decisão final é dos controladores, bilionários de tecnologia como Jeff Bezos, do Washington Post, e Patrick Soon-Shiong, do LA Times, ou a família Sulzberger, do NYT. Bezos acaba de deixar a presidência executiva da Amazon para, segundo relatos, se dedicar a projetos espaciais e ao jornal que comprou há sete anos, a começar da escolha do novo editor. Baron já estava no cargo, quando da aquisição. A. G. Sulzberger, 40, publisher do NYT, também herdou Baquet, ao assumir o jornal em 2018, e deverá fazer agora sua primeira escolha, de fato. Na agência de notícias Reuters, que enfrenta menos pressão de opinião externa, a decisão sobre o substituto do editor Stephen Adler será da corporação canadense Thomson Reuters, anunciada até abril. Adler, 65, é outro da geração que começa a sair de cena. Ele editou a Businessweek antes de chegar à agência, onde há dez anos comanda 2.500 jornalistas espalhados pelo mundo, a partir de Nova York. Jeff Zucker, 55, presidente da CNN, é caso à parte pela idade e por não ser propriamente jornalista, mas um executivo de televisão, tendo presidido a NBC quando Trump se tornou apresentador do reality show The Apprentice. Há sete anos no canal de notícias, priorizou a cobertura de Trump já na campanha e depois tornou a CNN um veículo marcadamente de oposição, com audiência crescente, a ponto de superar a TV concorrente Fox news. Mas a aquisição da CNN pelo grupo de telecomunicações AT&T há dois anos gerou conflitos corporativos, com um projeto para streaming como modelo de negócio, não mais TV paga, e Zucker anunciou que sai antes do fim do ano. Baron, o mais emblemático do grupo de editores, fez um breve balanço da cobertura da era Trump, falando à revista alemã Der Spiegel, com uma conclusão central: "Devíamos ter sido muito mais diretos sobre a falsidade de Trump, suas mentiras, desde o início. Ele era o presidente, devidamente eleito, mas ele estava explorando isso, explorando nossos princípios", afirmou Baron. Ele deixou um alerta, para a imprensa como um todo: "Nunca havíamos enfrentado esse nível de pensamento conspiratório. O jornalismo, como profissão, não está preparado para cobrir isso".