'As gerações mais jovens glamourizam a vida na estrada', diz autora de 'Nomadland', livro que agora chega ao Brasil

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A jornalista e escritora Jessica Bruder passou a tarde do dia 25 de abril numa suíte de um hotel cinco estrelas em Los Angeles com Linda May e Charlene Swankie, as duas convidadas para a festa do Oscar. O cenário era opulento se comparado com a aridez e a pobreza dos minúsculos trailers a que as amigas idosas, na casa dos 70 anos, estavam acostumadas. Parte de uma extensa comunidade nômade que dirige pelos Estados Unidos pulando de subemprego em subemprego, elas interpretavam a si mesmas no filme “Nomadland”, que sairia como o grande vencedor da noite. A obra foi adaptada do livro de mesmo nome, escrito por Jessica. A edição em português, “Nomadland — Sobrevivendo na América no século XXI”, chega às livrarias, pela editora Rocco, no dia 30. Oscar 2022: Premiação promete disputa mais acirrada com estreias adiadas pela pandemia

— Eu ajudei as duas a se arrumarem, tirei várias fotos, coloquei-as na limusine. Senti como se estivesse mandando-as para o baile de formatura da escola. Foi lindo e surreal — diz Jessica, em entrevista por telefone. A autora, que vendeu os direitos da obra para a atriz Frances McDormand,protagonista do longa, não foi à cerimônia. A Academia restringiu o número de convidados em função da pandemia.

Da reportagem à amizade

Jessica tem essa relação íntima com Linda e Charlene há mais de sete anos, quando saiu com a van “Halen” (esse é o nome do seu veículo) para escrever uma reportagem sobre a comunidade nômade que, desde a crise de 2008, não parava de crescer nos Estados Unidos. Sem meios para pagar hipotecas de moradias, com investimentos que lhes garantiriam o descanso futuro reduzidos a pó, muitos americanos viram seus sonhos desmoronarem. Restou a pessoas como Linda e Charlene pegarem os últimos dólares e investirem num carro para chamar de lar. A jornalista ficou dois meses na van Halen, assistindo a como os seres humanos se adaptam a novas realidades (“Nós nos habituamos a tudo”, diz Linda May, no livro). Foi aí que fez amizade com “as meninas” e outros tantos nômades. O espaço da reportagem para o que viu foi pouco.

— As seis mil palavras do artigo (publicado na revista “Harper”, em agosto de 2014, com o título “O fim da aposentadoria”) não eram suficientes. Aquela subcultura que eu tinha acabado de conhecer era tão vasta que eu continuava intrigada. Tive sorte em poder estender a história para um livro — diz ela.

As críticas ao capitalismo selvagem das grandes corporações é escancarada e tem um alvo prioritário nas páginas de Jessica: a Amazon. No livro, ela dá detalhes do programa de trabalho temporário nos depósitos da empresa, chamado CamperForce, que atrai maciçamente a comunidade nômade. As tarefas são extenuantes, repetitivas e inglórias.

— Espero que haja uma outra possibilidade econômica. Temos que olhar para outros países com tradição em rede de proteção social — diz ela. — Essa experiência do livro me fez sentir ainda mais a urgência de que a América precisa cuidar de pessoas vulneráveis, incluindo os mais velhos. Se você olhar para os CEOs de grandes empresas, eles ganham 320 vezes mais do que a média dos trabalhadores. Nos anos 1960, era por volta de 20 vezes. Então, a separação entre ricos e todo o resto cresceu um bocado. Isso não está criando uma sociedade uniforme.

Apesar dos muitos prêmios que a adaptação cinematográfica de “Nomadland” recebeu, vários críticos sentiram falta justamente dessa veia mais combativa no roteiro da diretora Chloé Zhao. Das dezenas de páginas em que os meandros da Amazon são expostos, sobraram poucas cenas:

— Se você faz um projeto como esse e deixa alguém adaptá-lo como ficção, espera que criem personagens. Fiquei aliviada por muito do filme ser fiel ao livro. Quando assisti tive a experiência de déjà vu. Mas nunca achei que ele fosse seguir o caminho exato da publicação, por isso não me frustei. Obviamente, tenho sentimentos muitos fortes sobre a empresa que não mudaram.

A #vanlife como ela é

O relato de Jessica não só expõe um sistema de exploração de uma parcela sem alternativa da sociedade, como também derruba o mito da liberdade e do minimalismo da vida na estrada. A hashtag #vanlife (vida na van), no Instagram, tem dez milhões de posts, a maioria em cenários paradisíacos, com veículos invejáveis e jovens saltitantes. O que se vê tem um polimento bem distante dos relatos de fome, frio, más condições de higiene e falta de acesso à saúde.

— As gerações mais jovens glamourizam a vida na estrada. Muitas pessoas sonham: “Posso ser livre, vivendo numa van e ganhando dinheiro como influenciador, blogueiro”. Para cada pessoa que faz isso, há milhares que não fazem. Millennials e as gerações mais jovens estão sujeitas a serem forças sociais e econômicas (exploradas) também. Eles estão herdando um legado cruel. Só que é mais divertido e fotogênico falar sobre modismo e minimalismo do que sobre pobreza e economia.

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