Gerald Thomas reestreia, 15 anos depois, peça sobre atriz trancada no camarim

Edward Pimenta
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Neste sábado de confinamento, assistir ao remake de “Terra em trânsito”, espetáculo teatral que o diretor Gerald Thomas remontou para exibição on-line, é um bom programa tanto para os que viram a obra encenada pela primeira vez, há 15 anos, quanto para os que desconhecem o trabalho do dramaturgo. A apresentação, pré-gravada, é transmitida de graça a partir de hoje, até o fim de maio, por meio do YouTube.

As ideias contidas na versão original, de 2006, foram adaptadas para comentar os tempos sombrios da pandemia, uma época marcada pelo terror de viver em um mundo distópico, e a indignação diante de discursos mentirosos de figuras como Donald Trump e assemelhados. Na primeira montagem, criticava-se, por exemplo, a invasão do governo de George W. Bush ao Iraque. E, se antes a protagonista se drogava com cocaína, agora é com pílulas de prescrição médica.

Em “Terra em trânsito”, uma estrela do canto lírico está fechada no camarim junto com um cisne, para o qual desfia uma torrente de memórias durante uma delirante crise de ansiedade nos minutos que antecedem sua encenação da ária “Liebestod”, da ópera “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner.

Em 40 minutos, Fabiana Gugli — que foi indicada ao Prêmio Shell de melhor atriz na montagem original — entrega um texto repleto de referências culturais que traduz o melhor do humor e das obsessões de Thomas, ideias recorrentes sobre política internacional, teatro, sexo, drogas e contracultura.

— O “Terra em trânsito” de 2021 dialoga com o momento que vivemos. Há 15 anos, estava no palco, com plateia, luz e cenário. Agora, tudo foi adaptado para o espaço íntimo da minha casa, com memorabilia e objetos de minha trajetória teatral. Estou exposta, sem truques ou artifícios, e o texto para mim nunca fez tanto sentido — diz Fabiana.

A genialidade do texto está no fato de que funciona mesmo para quem não identifica todos os símbolos — da menção ao clássico filme de Glauber Rocha à rememoração proustiana, passando pela nota atonal da obra wagneriana que influenciou Schöenberg e os famosos silêncios das peças do dramaturgo americano Harold Pinter.

— Quando a peça foi encenada em Nova York, ao final eu perguntava às pessoas que vinham falar comigo se elas sabiam quem foi o Pinter. Muita gente dizia que não e, no fim, isso não tinha a menor importância — comenta o autor.

Com as restrições à encenação de espetáculos teatrais e o espantoso aumento do consumo de conteúdo via streaming, há quem enxergue o surgimento de uma nova linguagem artística, o teatro filmado. Gerald Thomas não compra a ideia.

— Teatro é experimentação coletiva, requer contato humano, é um ritual em que os atores e a plateia desempenham papeis. O teatro não foi substituído pelo cinema. Não acredito que novas formas de expressão substituam as anteriores, pelo contrário, o teatro passou a usar o cinema como referência e vice-versa. A solução de filmar uma peça é provisória e não substitui a experiência completa do teatro — argumenta diretor.

Não é de hoje, aliás,que seu teatro se vale dos recursos da linguagem cinematográfica. Na filmagem deste “Terra em trânsito”, o autor posiciona uma câmera estática atrás do espelho do camarim, o que contribui para a intensa sensação de claustrofobia e intimidade — a protagonista se vê refletida e, ao mesmo tempo, encara o espectador. O resultado é poderoso. Fica a impressão de que quando toda a tragédia se dissipar, a essência do teatro ressurgirá com muita força.

Serviço: Sáb e dom, às 20h. Gratuito, com transmissão via YouTube. 40 minutos. 14 anos. Até 25 de abril. A partir de 1º de maio, uma gravação da peça ficará disponível por 24h por dia, todos os dias, até 31 de maio.