Gero Camilo: ‘Fazer Renato Aragão foi o papel mais difícil que já tive’

Nem sempre é lindo andar na cidade de São Paulo. Durante a pandemia, máscaras protetoras escondiam parte do rosto de Gero Camilo, e o cearense de 51 anos sentiu pela primeira vez a dor de ser indesejado em endereços que frequentava. “Como sumira a face identificável, me tornei mais um ‘paraíba’. Após 25 anos, revi a relação com a metrópole e os preconceitos contra nordestinos e gays”, diz ator.

A dificuldade em aceitar o diferente é ponto de partida de “Aldeotas”, que chega quinta-feira aos cinemas. O primeiro longa dirigido por Gero é uma adaptação de sua peça autobiográfica, vencedora dos prêmios Shell e Qualidade Brasil. A história gira em torno dos inseparáveis Levi (Gero) e Elias (Marat Descartes), desde a infância, em lugarejo imaginário do Ceará. E de suas ambições, descobertas e desejos, inclusive de um pelo outro.

O gestual, os elementos cênicos, a luz e os diálogos guiam o espectador em uma viagem repleta de compaixão, acolhimento e simbolismos. As fronteiras entre palco e tela desaparecem. “Um diretor de cinema uma vez me pediu pra ser ser menos teatral. Respondi que não acredito em cinema sem teatro”, conta.

Gero é considerado um dos maiores atores de sua geração por seus pares. Rodrigo Santoro, seu parceiro em “Bicho de sete cabeças” e “Carandiru”, o saúda como “poeta e autor de extrema sensibilidade e talento” e lembra até hoje do abraço "demorado" que o amigo o deu, no set do longa de Laís Bodansky, seu primeiro filme. "A partir deste momento nossa amizade e minha admiração por ele só cresceram". No ano que vem, ele viverá o que considera ser seu "papel mais difícil" no cinema, quando viverá Renato Aragão, o Didi Mocó, em “Mussum: o filmis”.

Diretor da cinebio de Mussum, protagonizada por Ailton Graça, Silvio Guindane pensou logo de início em Gero como seu Didi.

— Tivemos o cuidado de mostrar no filme que não há Mussum sem os “Trapalhões”. E Gero fez não só o Didi, mas o Renato também. Ver sua devoção pelo ofício é comovente. O Renato vai ficar muito feliz — crê Guindane.

'Não quis fazer uma bicha estereotipada'

Gero também pode ser visto no streaming na série “Manhãs de setembro”, da Amazon, em que vive Aristides, torcedor fanático do Santos, casado com o músico Décio, vivido por Paulo Miklos.

— Não quis fazer uma bicha velha estereotipada. Quando era jovem, tinha dois horizontes: ou a gente morria (de Aids) ou virava o gay solitário, esquecido, triste, murcho. O Aristides tem tesão no Décio, investe na carreira de artista solo do marido. É outro o mundo que a gente vive hoje, ainda bem — diz Gero.

Com o mesmo Miklos, o ator voltará ao universo de Adoniran Barbosa, tema do curta “Dá licença de contar”, de Pedro Serrano, adaptado para longa-metragem no ano que vem com os mesmos protagonistas. O ex-Titãs vive o compositor paulista e Gero, seu personagem Mato Grosso, aquele que na letra de “Saudosa maloca” “quis gritá”.

E após apresentar um show disputado com músicas de Belchior, ele prepara espetáculo com canções de outro conterrâneo, Ednardo, autor de pepitas como “Enquanto engoma a calça”, “Terral” e, claro, seu maior hit, “Pavão Mysterioso”, música-tema da novela “Saramandaia” (1976).

— “‘Pavão mysterioso’ é atualíssimo. Termina com os versos ‘nossa sorte nessa guerra/é que eles são muitos/mas não podem voar”. Parece trilha sonora para o momento pós-eleições que vivemos, nos convidam a pensar no Brasil que queremos recriar — diz.

Alguns dos melhores trechos da conversa com Gero Camilo seguem abaixo:

Dezoito anos após encená-la pela primeira vez, o que mudou em ‘Aldeotas’?

O texto mudou menos do que a sociedade. Atesto a evolução na reação do público às cenas de beijos dos atores. No começo, faziam sem pudor cara de repulsa, mas isso foi sendo condenado pela própria audiência, diminuindo, até desaparecer. Se algo se sofisticou de lá pra cá foi a discussão de gênero e sexualidades possíveis, apesar de preconceitos seguirem, como percebi durante a pandemia e novamente no dia das eleições.

O que aconteceu?

Estava com uma camisa do Lula em um boteco em São Paulo antes de votar, ao lado de um amigo que não é gay. Passou um casal que nos agrediu verbalmente com um “olha o que esses veadinhos vão fazer”. Meu amigo quis reagir. Ponderei que a reação viria naquela tarde, com nossos votos.

Você já viveu sentimentos como os de Levi por Elias?

Sim, já me apaixonei por meus Levis. A confusão da paixão é combustível fundamental. Mas “Aldeotas” também é, essencialmente, sobre amizade. E, como diz Caetano, quem há de negar que ela é superior ao amor romântico?

“Aldeotas”, o filme, me fez pensar tanto em “Dogville”, de Lars Von Trier, quanto em Beckett. Faz sentido?

Adoro o Dogma, e há uma cena, a final, da roda-gigante, que é puro “Esperando Godot”. Mas não podemos nos esquecer de Tony Scott (irmão de Ridlley Scott, diretor do primeiro “Top gun”, entre outros, e que morreu em 2012). Ele viu “Cidade de Deus” (2002) e me convidou para filmar um ano depois “Chamas da vingança” no México, mas achei que ele havia se enganado de ator.

Como assim?

Meu papel não era grande, achei que ele tinha me confundido com o Matheus (Nachtergaele), mas era eu mesmo (risos). No set, ele andava com o DVD de “Cidade de Deus” debaixo do braço. Fez todo o elenco, inclusive o protagonista, Denzel Washington, ver. Quando cheguei, todos me conheciam, me senti à vontade e, pela primeira vez, ganhando em dólar. Pude observar, sem me preocupar com o ganha-pão pro mês seguinte, cada decisão estética do Tony, os enquadramentos, o olhar do Denzel, como ele se movimentava. Fiquei lá, de butuca. E anotei um monte de coisas na cabeça que usei em “Aldeotas”. Com a grana, aliás, comprei minha primeira câmera digital. Depois dirigi curtas e médias experimentais na Fuleragem Filmes.

Você voltará ao cinemão vivendo o Didi. Conversou com Renato Aragão antes das filmagens?

Renato é um ícone e uma referência pra mim. Por isso, foi o papel mais difícil que já tive. Os primeiros filmes que vi na vida, no Cinema São Luiz, em Fortaleza, foram dos Trapalhões. E a primeira sessão de “Aldeotas” para o público foi lá. Dizem que me pareço com ele, mas não faço uma imitação. Se fosse uma cinebio iria grudar nele, acampar na frente da casa dele. Mas neste caso não achamos necessário, espero que ele fique feliz.