Gestão de Azevedo na Defesa teve ganhos para militares e tensão institucional

IGOR GIELOW
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ministro da Defesa de um governo de forte identidade militar, Fernando Azevedo e Silva andou no fio da navalha durante boa parte de seus dois anos à frente do cargo. General de quatro estrelas, topo da hierarquia, ele havia deixado o Exército em agosto de 2018. Era o número 2 da Força e foi assessorar o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. Essa proximidade lhe garantiu uma interlocução privilegiada no Judiciário, onde tinha reputação de ser uma voz ponderada em meio aos arroubos dos militares mais próximos de Bolsonaro. Em particular, aquele que era o melhor amigo do presidente na ativa, Luiz Eduardo Ramos, general que virou ministro da Secretaria de Governo. Ao longo do primeiro ano do governo, Azevedo trabalhou para moderar os ímpetos do Itamaraty do hoje demissionário Ernesto Araújo, que buscava fechar o cerco à ditadura venezuelana. Até um primeiro escorregão público do presidente, a ideia de abrir uma base militar americana no Brasil, foi repreendido rapidamente pelo ministro. Mais importante para os militares, ele garantiu status privilegiados a ele sob as ordens do capitão reformado do Exército. Costurou a aprovação de uma reforma previdenciária e de uma plano de carreira próprios, após duas décadas de discussões, garantindo que os fardados sejam hoje a única categoria com aumentos garantidos no funcionalismo. Defensor do aumento do gasto militar brasileiro dos atuais 1,5% do Produto Interno Bruto para o padrão-ouro da Otan (aliança militar ocidental), 2%, Azevedo também consegui reverter a maior parte dos cortes e preservou a integridade orçamentária dos principais programas militares, como o do caça Gripen. Preservar as Forças como institutições de Estado, como ele diz ter conseguido em sua nota de demissão, já não foi uma tarefa tão óbvia devido ao caráter fardado do governo --que chegou a ter 10 de seus 23 ministros. Ele lidou com o fato de que Bolsonaro o arrastou pessoalmente para o ensaio de crise institucional ao longo do primeiro semestre do ano passado, quando o levou para sobrevoar atos golpistas. Também teve de apoiar uma nota a ameaça ao Supremo Tribunal Federal feita pelo general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional). Neste episódio, criticado, aliados de Azevedo afirmam que sua função foi baixar a temperatura da crise. Naquele período, emitiu duas notas dizendo que as Forças estavam comprometidas com a democracia e a Constituição --a mera existência dos textos mostra o grau de tensão em curso. Azevedo não era visto como a principal liderança do Exército quando virou ministro, mas sim como um articulador hábil que vinha com a carga de quem coordenara a segurança da Olimpíada de 2016. Incomodada com a óbvia associação com o governo, a ativa das Forças progressivamente buscou estabelecer limites na relação com Bolsonaro. A permanência de um general dela, Eduardo Pazuello, no desastre da condução do Ministério da Saúde foi um dos muitos pontos de divergência que Azevedo por fim não conseguiu tourear. A tensão de sua saída forçada mostra que, se trouxe avanços e ganhos para internos para os militares, a missão de equalizar as tensões estimuladas pelo chefe não foi exatamente bem sucedida.