Gestão Covas suspende por 120 dias fiscal milionário suspeito de propina

ARTUR RODRIGUES
SÃO PAULO, SP - 18.09.2019: CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE PREFEITOS - São Paulo sedia conferência internacional para cidades sustentáveis, Catalisando Futuros Urbanos Sustentáveis reunindo prefeitos, gestores municipais e especialistas de todo o mundo, nesta quarta feira, (18) no Parque do Ibirapuera. Na foto Bruno Covas, (PSDB) Prefeito de São Paulo. (Foto: Roberto Casimiro /Fotoarena/Folhapress) ORG XMIT: 1795965

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um fiscal suspeito de cobrança de propina e que teve o patrimônio milionário revelado pelo jornal Folha de S.Paulo será suspenso por 120 dias pela Prefeitura de São Paulo. 

A gestão Bruno Covas (PSDB) informou que a CGM (Controladoria Geral do Município) determinou a medida "enquanto se conclui apuração de denúncia sobre hipótese de ato de corrupção". A nota diz que a medida é para "evitar possível reiteração de conduta funcional indevida".

Com salário de R$ 11 mil, o agente vistor Jorge Tupynambá Telles Ferreira, 53,  acumulou um patrimônio na casa de R$ 12 milhões, com quase 40 imóveis em seu nome ou no de uma empresa ligada a ele, segundo levantamento feito pela Folha de S.Paulo. Além disso, ele é suspeito de cobrar cerca de R$ 100 mil para não atrapalhar obras de um petshop na zona sul. 

"Também existe outra sindicância já concluída pela CGM, em processamento com vistas à demissão, a qual se encontra atualmente na Procuradoria Geral do Município", afirma a gestão Covas, em nota. 

De acordo com o comunicado, a Subprefeitura da Vila Mariana vai fiscalizar empreendimento comercial que, relacionado à situação em investigação, pode estar funcionando sem autorização municipal.  

A Folha de S.Paulo apurou que um homem procurou a prefeitura para denunciar estar sendo vítima de Tupynambá, que cobrava R$ 100 mil para não barrar um grande empreendimento na cidade.

O fiscal trabalhava na Subprefeitura da Vila Mariana, bairro nobre na zona sul, na época do episódio descrito. Um coordenador de obras da subprefeitura havia saído, e Tupynambá assumiu o posto de chefia.

Na ocasião, segundo o relato do denunciante, ele teria dito ao homem que "tudo mudou" após ter assumido o posto e insistido na cobrança do valor, pessoalmente e por telefone. 

Fiscal da prefeitura desde 1989, começou a adquirir bens a partir nos anos 1990 e decolou no mundo dos imóveis nos últimos dez anos, de acordo com registros de cartório analisados pela reportagem e processos judiciais.

Apenas entre 2008 e 2015, ele declarou ter pago R$ 4,4 milhões em 17 imóveis, o equivalente a 31 anos de seu salário líquido. Os valores declarados estão abaixo da cotação do mercado, hoje em torno de R$ 7 milhões.

A situação foi revelada há um mês pela Folha de S.Paulo. Apesar disso, o fiscal continuou trabalhando desde então na Subprefeitura do Jabaquara (zona sul de SP). 

Na ocasião, Covas afirmou que a prefeitura não "é pautada pela imprensa" e que já tinha tomado "medidas cabíveis" em relação ao assunto. 

"Não pode antecipar a penalização de ninguém porque é preciso percorrer todas as etapas que o processo administrativo requer", disse. "É preciso garantir às pessoas a defesa. Se ele tiver errado vai ser punido exemplarmente, mas, de repente, ele está certo e você já julgou ele de forma precipitada", afirmou, referindo-se a pergunta sobre se o agente continuaria no cargo.

OUTRO LADO

Tupynambá afirmou à Folha de S.Paulo que é alvo de processo de sindicância patrimonial em curso na prefeitura, "no qual foram prestados todos os esclarecimentos a quem de direito".

"Não tendo o processo finalizado, qualquer atribuição de ilícito é mera suposição", disse, em nota.

O fiscal afirmou que todo seu patrimônio está declarado na Receita Federal e também no sistema patrimonial da prefeitura.

A respeito da denúncia de recebimento de propina, afirmou desconhecer "qualquer denúncia, de qualquer tipo sobre a minha atuação profissional enquanto funcionário da Subprefeitura Jabaquara ou de qualquer outro departamento em que trabalhei".


SERVIDORES MILIONÁRIOS REVELADOS PELA FOLHA DE S.PAULO

Hussain Aref Saab

Acumulou pelo menos 106 imóveis de 2005 a 2012, sob suspeita de cobrar propinas no setor de aprovação de edificações da Secretaria Municipal de Habitação


José Rodrigo de Freitas

Conhecido como "rei dos fiscais", o ex-auditor fiscal acumulou 55 imóveis. Ele acabou condenado a 54 anos de prisão pela cobrança de propina em uma universidade


Hugo Berni

Então responsável por 28 unidades prisionais do governo de São Paulo, Hugo Berni Neto, construiu casas em condomínios de alto padrão de Sorocaba (interior) avaliadas em mais de R$ 7 milhões, equivalentes a 32 anos de seu salário


Roberto de Faria Torres

Suspeito de cobrar propina durante uma CPI, ele adquiriu 19 imóveis nos últimos cinco anos –entre eles, uma mansão com 23 cômodos