Gestão Cláudio Castro chega a 15 menores executados pela PM

Na gestão de Cláudio Castro, moradores do Jacarezinho protestaram após chacina que matou pelo menos 25 moradores. REUTERS/Ricardo Moraes
Na gestão de Cláudio Castro, moradores do Jacarezinho protestaram após chacina que matou pelo menos 25 moradores. REUTERS/Ricardo Moraes
  • Adolescente foi morto por policiais militares nesta segunda (4), disseram parentes;

  • Castro já coleciona polêmicas ações na segurança pública desde agosto de 2020, quando assumiu a cadeira de Wilson Witzel;

  • Diretora do Instituto Fogo Cruzado diz que mortes não são importantes para o governo.

A 6 meses das Eleições 2022, o estado do Rio de Janeiro, sob gestão do governador Cláudio Castro (PL), teve mais uma morte sangrenta na noite de segunda-feira (4). Um adolescente de 17 anos foi baleado e morto quando saía de um evento para crianças na comunidade de Dourado, em Cordovil, na Zona Norte da capital. Cauã da Silva dos Santos foi assassinado por um policial militar, segundo disse seus familiares. Perto de completar 2 anos de governo, Castro já coleciona polêmicas ações na política de segurança pública: desde agosto de 2020, quando assumiu a cadeira de Wilson Witzel no Palácio Guanabara, a PM do Rio já feriu pelo menos 33 menores, entre crianças e adolescentes; destes, 15 foram mortos a tiros.

Foi pautando a segurança pública que o ex-governador impeachmado, Wilson Witzel, foi eleito. Seu sucessor para o cargo também assumiu parte desse discurso. Após três meses à frente oficialmente do estado do Rio, especialistas e dados já mostravam que Castro é ainda mais letal que Witzel.

"A morte de crianças e adolescentes não é pauta importante para este governo, mas não é exclusividade dele e nem só do governo estadual. É preciso ampliar as responsabilidades, especialmente quando envolvem agentes públicos de segurança", defende Cecilia Olliveira, diretora do Instituto Fogo Cruzado.

Segundo dados do Instituto, foram 11 adolescentes e 4 crianças assassinadas desde agosto de 2020; outras 4 crianças e mais 29 adolescentes foram feridos por forças de segurança no estado. No caso de Cauã, que era lutador de jiu-jitsu e luta livre há três anos e integrava um projeto social na região, o corpo do adolescente foi jogado em um valão por um policial.

Com forte nome nas pesquisas para a próxima gestão estadual, Castro pode querer retornar a sua pauta prioritária: a segurança pública. "Já estamos chegando no período eleitoral e o Rio de Janeiro não tem plano de segurança. A gestão Witzel/Castro foi marcada pela falta de planejamento e pelo desdém com a vida dos moradores", completou a diretora do Instituto. Para ela, é difícil esperar que a política do atual governador mude em uma possível próxima gestão.

Cecília pontuou que Witzel foi denunciado à ONU após participar de uma ação policial onde, do alto de um helicóptero, policiais atiraram contra uma tenda onde evangélicos faziam encontros religiosos. Uma denúncia semelhante foi feita à OEA. Ainda na gestão Witzel, o Supremo Tribunal Federal interferiu na segurança pública do Rio e determinou que as operações policiais só poderiam ser feitas em caso de urgência e com planejamento - a ADPF 635, conhecida como “ADPF das Favelas.

O Supremo determinou que fosse feito um plano de redução da letalidade policial. "O material entregue pelo Claudio Castro não pode ser considerado um plano, pois está incompleto: não estabelece metas específicas, nem cronograma, nem previsão de orçamento, e sequer inclui a participação da população, principal afetada pela violência" completou Cecilia.

A Comissão de Monitoramento e Gestão é formada apenas por pessoas indicadas pelo governo, incluindo o próprio governador e os representantes das polícias Civil e Militar. Não há membros do Ministério Público, que tem exatamente a função de investigar a má atividade policial.

Relembre casos

  • Em 4 de dezembro de 2020, uma bala perdida atingiu duas crianças que brincavam na porta de casa em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Naquele dia, Emilly Victoria dos Santos, de 4 anos, e a prima, Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, de 7, perderam o futuro em uma tragédia que segue, até hoje, sem desfecho.

  • Em agosto de 2021, dois jovens foram mortos em operação da PM. João Vitor de Oliveira Santiago, de 17 anos, morador do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, morreu depois de ser baleado. Durante o tiroteio entre policiais e traficantes da comunidade outro morador, Alexander Carvalho Ribeiro Motta, de 19 anos, também foi atingindo pelos tiros. 

  • Em outubro, um bebê de um ano e seis meses foi baleado no abdômen enquanto cortava o cabelo em Mesquita, na Baixada Fluminense. Mário Neto Ferreira Lourenço foi encaminhado em estado grave ao Hospital Geral de Nova Iguaçu, também na Baixada. Na época, Lucas Lourenço Silva, pai do menino, usou as redes sociais para lamentar a morte. "Hoje foi meu filho que perdeu a vida cortando cabelo no salão, vítima da violência do estado do Rio de Janeiro. Até quando vamos perder entes queridos? Muita dor na minha alma", publicou;

  • Em janeiro de 2022, as crianças Kevin Lucas, de 6 anos, Ludmila Teles, de 9 anos, e Gabriela Aristides, de 13 anos, foram baleados. Os três foram levados inicialmente para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Queimados. O garoto não resistiu. Ele estava em meio a um grupo de moradores, entre adultos e crianças, ajudando na mudança de uma vizinha. "Ele tinha o direito de viver", declarou a avó da criança.