Gestora suspende aulas da Escola de Música do Auditório Ibirapuera

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Escola de Música do Auditório Ibirapuera, um centro de formação musical que funciona desde 2006 no subsolo do auditório desenhado por Oscar Niemeyer, teve as atividades interrompidas pela Urbia, atual gestora do parque Ibirapuera, em São Paulo.

Em junho passado, a empresa informou que ofereceria "atividades online até que o combate à epidemia da Covid-19 permita a volta das aulas presenciais com segurança".

Agora, quando estudantes de todo o estado retomam as aulas presenciais, a Urbia informa, por meio de nota, ter suspendido temporariamente as atividades, inclusive online, "em decorrência da inviabilidade para a retomada das aulas presenciais devido à pandemia da Covid-19".

A empresa cita ainda como entraves a "impossibilidade de empréstimo de instrumentos musicais, bem como baixa adesão às aulas online". E avisa: "outros possíveis questionamentos serão respondidos na esfera judicial".

Segundo professores, coordenadores e pais de alunos ouvidos pela Folha, não há impedimento objetivo para o empréstimo de instrumentos e a adesão às aulas online foi de mais de 80%. A alta participação dos alunos, de acordo com eles, permitiu inclusive o ensaio de novo repertório e a gravação de vídeos que registram o progresso da turma.

Em um deles, os alunos tocam a canção "Vera Cruz", de Milton Nascimento e Marcos Borges.

"Tivemos abstenção dos alunos em apenas 17,8% das aulas, muitas vezes por dificuldades de alguns alunos com o acesso à internet. A Urbia não nos forneceu sequer uma plataforma de trabalho virtual, que providenciamos por nossa conta", afirma Amador Longhini Jr., pianista e um dos coordenadores pedagógicos do centro de formação musical.

De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura (SMC), a manutenção da escola faz parte do contrato de concessão assinado pela Urbia.

A SMC informa ter enviado um "ofício contundente à Urbia Gestão de Parques SPE S.A. reiterando nossa insatisfação pela interrupção unilateral das atividades da escola" e avalia que, neste caso, existe quebra de acordo com o poder público.

A Escola de Música do Auditório Ibirapuera, por onde já passaram mais de 600 jovens e da qual derivam três orquestras e um coro, tem hoje pouco mais de 120 alunos oriundos de escolas públicas da capital paulista e enfrenta instabilidade de suas atividades desde que a administração passou para a nova gestora do Ibirapuera, a Urbia Parques.

O parque foi concedido à iniciativa privada em dezembro de 2019, mas a Urbia passou a administrar de fato o parque e seus equipamentos, entre eles o Auditório Ibirapuera, apenas em outubro de 2020.

Antes disso, as atividades da escola foram mantidas ao longo de nove anos pelo Itaú Cultural, responsável pela administração do auditório, pela criação de um projeto curatorial para seu palco e pela gestão do centro de formação musical. Antes do Itaú, o auditório foi gerido pela empresa de telefonia celular Tim.

"O auditório é um complexo com três patrimônios: o edifício de Oscar Niemeyer, o palco para as artes brasileiras em São Paulo e o centro de formação musical. Esse complexo precisa ser entendido como um só equipamento. Não dá para dissociar uma coisa das outras duas", afirma Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

Foi durante a gestão do Itaú Cultural que foi consolidado um programa de ensino voltado para a música brasileira, com duração de cinco anos e que atendia a adolescentes a partir de 12 anos, sem a necessidade de formação musical prévia.

O programa inclui o pagamento de bolsas-auxílio de R$ 200 aos alunos e contava, até o final de julho, com equipe docente, artística e pedagógica formada por nomes importantes da música instrumental brasileira, como o clarinetista e regente Nailor Proveta, o trompetista Walmir Gil, a pianista Camila Lordy e o acordeonista Toninho Ferragutti.

Na nota da Urbia, a empresa afirma que manterá as bolsas-auxílio de R$ 200 para os alunos e que os professores receberão por aula ministrada. Nenhum dos docentes da escola, no entanto, recebeu essa proposta ou tem conhecimento de um cronograma de aulas para o semestre.

Segundo Longhini Jr., no início de julho, em reunião com a Urbia, os professores foram informados de que seus contratos seriam encerrados no último dia 30.

"Como é possível manter uma escola funcionando sem seus professores?", questiona a educadora Clarissa Hervé, mãe de Giulia, 15, estudante que descobriu o clarinete na Escola do Auditório a partir de 2018.

"Desde que a Urbia assumiu, a empresa diz que faltam recursos para a manutenção das atividades. Houve suspensão, houve cortes de 50% em bolsas e salários e, agora, em reunião com os pais, informaram sobre o congelamento das atividades", diz Clarissa.

Ela ajudou a articular alunos que queriam se manifestar pela retomada das atividades e hoje participa de um perfil em rede social no qual se manifestaram em prol da escola políticos como Eduardo Suplicy (PT) e artistas como Fabiana Cozza, Mônica Salmaso, Paulo Tatit e Antônio Nóbrega.

Saron, do Itaú Cultural, diz confiar na modelagem de parceria público-privada. "Foram duas parcerias seguidas no auditório que ocorreram de maneira muito exitosa", diz. Para ele, "de fato a pandemia impõe restrições e exige criatividade nos encontros dos alunos e nas soluções para sua formação".

"Isso passa, a meu ver, pelo empréstimo de instrumentos para que alunos os tenham em casa, pelo diálogo com os professores e até mesmo pela ocupação de outras partes do parque para aulas presenciais", afirma. "Neste momento em que as questões relacionadas à saúde mental gritam tanto a todos nós, precisamos de mais arte e de mais música. E os alunos do centro de formação musical do Auditório Ibirapuera Oscar Niemeyer precisam estar juntos, com os devidos protocolos, para termos mais arte e mais música."

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