Gestoras já recomendam venda de ações da Petrobras

Renato Andrade
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SÃO PAULO — Gestoras de investimentos já começam a recomendar para seus clientes a venda de ações da Petrobras, após o presidente Jair Bolsonaro anunciar, numa rede social na última sexta-feira, que irá trocar o comando da maior empresa do país.

A corretora XP, em relatório divulgado neste domingo, informou para seus clientes que a partir de agora passa a recomendar a venda dos papéis da estatal.

"Neste relatório estamos rebaixando a recomendação das ações da Petrobras de Neutro para VENDA, com preço-alvo revisado de R$ 24 / ação para PETR4 / PETR3 (de R$ 32/ação anteriormente). Nossa mudança de recomendação reflete o recente anúncio de que o Governo Federal decidiu substituir o CEO da companhia, Sr. Roberto Castello Branco, pelo General Joaquim de Silva e Luna", afirmou a XP no documento.

No relatório, assinado pelos analistas Gabriel Francisco e Maira Maldonado, que acompanham os setores de Energia e Petróleo & Gás, a XP argumenta que a mudança de recomendação reflete a sinalização negativa que o anúncio feito pelo presidente Bolsonaro terá sobre os papéis da estatal.

"Vemos esse anúncio como uma sinalização negativa, tanto de uma perspectiva de governança, dados os riscos para a independência de gestão da Petrobras, como também por implicar riscos de que a companhia continue a praticar uma política de preços de combustíveis em linha com referências internacionais de preços, ou seja, que reflitam as variações dos preços de petróleo e câmbio", explicam os analistas.

"Em nossa opinião, existem muitas incertezas para justificar uma tese de investimento na Petrobras, e acreditamos que as ações deverão daqui em diante negociar com um desconto mais alto em relação ao histórico e a outras petroleiras globais", ponderam os analistas da XP

O Bradesco BBI também divulgou relatório, neste domingo, rebaixando a recomendação dos papéis da Petrobras.

Mudança surpresa

Na sexta-feira, após o fechamento do mercado financeiro, o presidente Jair Bolsonaro usou uma rede social para anunciar que iria indicar o general Joaquim Silva e Luna, atual diretor-geral da Itaipu Binacional e ex-ministro da Defesa no governo Michel Temer (MDB), para substituir Roberto Castello Branco no coamndo da Petrobras. A estatal não tinha um presidente militar desde 1988.

O anúncio pegou o mercado de supresa. Os papéis da estatal negociados no exterior chegaram a cair 15% depois da divulgação da nota do presidente, que havia ameaçado na véspera fazer mudanças na estatal.

Bolsonaro pediu a saída de Roberto Castello Branco do comando da Petrobras numa reunião na última quinta-feira no Palácio do Planalto, após o quarto aumento no preço dos combustíveis anunciado pela empresa, o que irritou o presidente.

A reunião ocorreu pouco antes da transmissão ao vivo nas redes sociais em que Bolsonaro criticou a estatal e disse que “alguma coisa” iria acontecer na Petrobras, posição reforçada na manhã de sexta-feira.

O presidente da estatal vinha irritando Bolsonaro por conta do aumento dos combustíveis, especialmente o diesel. A situação se agravou depois que Castello Branco, em janeiro, ainda sob a pressão da ameaça de greve dos caminhoneiros, afirmou que a insatisfação da categoria é “um problema que não é da Petrobras”.

O presidente vinha dizendo a interlocutores que Castello Branco é “insensível”, tem uma gestão voltada exclusivamente a dar lucros para os acionistas privados, além de lembrar que a estatal é monopolista no segmento de refino. O presidente também tem dito que a estatal não está sendo transparente na sua política de preços.

Efeito no mercado de juros

O economista André Perfeito, sócio da gestora Necton Investimentos, destacou em seu relatório para clientes que a decisão do presidente Jair Bolsonaro vai aumentar o nervosismo nos mercados financeiros, o que deverá fazer com que o Banco Central inicie, já em março, um ciclo de aumento da taxa básica de juro, a Selic, que atualmente está e m2% ao ano.

"Objetivamente podemos supor que a elevação do risco irá pavimentar o início do ciclo de alta da Selic na reunião de março. Já víamos bons motivos para o início do movimento de correção da Slic; o que aconteceu na sexta apenas reforça as tendências observadas", afirmou o economista no documento divulgado neste domingo.

"Podemos imagimar que o real irá sofrer com o aumento da volatlidade, mas não acreditamos que saia do controle. Iremos apenas revisar levemente para cima nossa projeção de fim de 2021, saindo de R$ 5,30 para R$ 5,50", acrescentou André Perfeito, que mantém a estimativa de que a taxa básica de juro brasileira encerrará 2021 em 4% ao ano.