Após pressão de deputado bolsonarista, livros didáticos em SP voltam a usar a.C/d.C

Matheus Pichonelli
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(L-R) Brazilian President Jair Bolsonaro, Sao Paulo's state deputy Gil Diniz and Sao Paulo's senator Major Olimpio listen to the national anthem before the start of the Copa America football tournament group match between Brazil and Boliva at the Cicero Pompeu de Toledo Stadium, also known as Morumbi, in Sao Paulo, Brazil, on June 14, 2019. (Photo by Pedro UGARTE / AFP)        (Photo credit should read PEDRO UGARTE/AFP via Getty Images)
O deputado estadual Gil Diniz, ao centro, canta hino nacional ao lado de Jair Bolsonaro antes de uma partida da Copa América em 2019. Foto: Pedro Ugarte/ AFP)

Após pressão nas redes sociais do deputado estadual Gil Diniz (PSL-SP), que no começo da semana acusou o governo Dória de “preconceito religioso contra cristãos”, materiais didáticos distribuídos aos estudantes da rede estadual de ensino em São Paulo foram alterados em sua versão online, de onde foram suprimidas as nomenclaturas a.E.C/E.C.

Os termos designam a passagem histórica “Antes da Era Comum” e “Era Comum”, em substituição aos antigos a.C/d.C (“Antes de Cristo” e “Depois de Cristo”).

O frisson começou quando uma professora explicou, durante uma aula online no Centro de Mídias São Paulo, mantido pela própria Secretaria Estadual de Educação, as razões para a atualização dos termos, considerados mais neutros.

Conhecido como “Carteiro Reaça”, Diniz compartilhou um trecho do vídeo dizendo que a Secretaria Estadual da Educação “só pode estar de brincadeira”. “A verdade é que não suportam ouvir o nome de Cristo e usam veladamente do seu preconceito religioso contra cristãos!”

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A publicação teve menos de 700 compartilhamentos, o suficiente para provocar uma situação incomum, já que os termos a.E.C/E.C constam nos livros impressos já entregues aos estudantes, mas estranhamente, após saírem do ar por algumas horas, aparecem agora no material online com a antiga nomenclatura.

No dia 1º de agosto, o secretário estadual da Educação, Rossieli Soares da Silva, assinou uma nota explicando que os termos a.C. e d.C. (depois de Cristo) são o padrão para construção dos materiais didáticos, assim como nos livros paradidáticos e de literatura. Na verdade, são considerados uma terminologia defasada já há alguns anos, e não só em São Paulo. São usados, por exemplo, pela rede de TV britânica BBC.

A mudança de nomenclatura para a.E.C/E.C, segundo uma especialista ouvida pelo blog, caminha na direção estabelecida na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), segundo o qual é necessário valorizar as diferenças, respeitando as manifestações culturais de cada comunidade. Os termos a.E.C/E.C são considerados mais inclusivos porque abarcam a diversidade religiosa brasileira.

Rosieli disse na nota que a explicação feita pela professora sobre a mudança durante a aula online “não representa uma diretriz da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo”.

Ele prometeu ainda reforçar a posição com a equipe da secretaria. O vídeo, em todo caso, saiu do ar.

O recuo acontece cerca de um ano depois de o governador João Doria (PSDB) mandar recolher materiais em que aparecia a expressão “identidade de gênero” em um box explicativo no caderno do aluno.

A mudança após pressão de um deputado mais conhecido pelas polêmicas produzidas nas redes do que pela excelência parlamentar causou espanto.

“Um deputadozinho de quinta categoria conseguiu mudar o currículo”, resumiu uma pessoa ao blog.

Sob a condição de anonimato, um professor conversou com o blog sobre por que considera mais apropriado o uso a.E.C./D.C. Para ele, a.C/d.C são convenções estabelecidas há tempos, com o caráter eurocêntrico e peso enorme da religião católica cristã.

“Me parece que entramos numa seara não do entendimento dos alunos, mas político religioso do governo do estado de São Paulo. O secretário não quer criar rusgas num momento político, econômico e social tão delicado, principalmente dos setores religiosos conservadores.”

Ele lembra ainda que o "novo termo" não é tão novo assim, mas é utilizado desde o século XIX e ajuda a desconstruir uma visão do tempo histórico limitado ao ponto de vista eurocêntrico.

Isso acontece em um momento em que muitos alunos, conforme lembrou o docente, acreditam em Adão e Eva, mas duvidam da evolução das espécies e de toda explicação sobre o desenvolvimento humano, anterior à escrita bíblica.

Para ele, é preciso entender que a ciência e o método científico ocidental se tornaram classistas e racistas porque separam o período da Pré-História e da História após a escrita, excluindo todos os outros povos ágrafos e as comunidades indígenas classificadas como “primitivas”.