Artigo: Gilberto Chateaubriand era uma instituição

Gilberto Chateaubriand não era apenas um colecionador. Era uma instituição. Ao longo das últimas sete décadas, ele fez da sua relação com a arte brasileira o motor da sua vida. A primeira obra que adquiriu, creio que no começo dos anos 1950, foi uma “Marinha” do Pancetti. De lá para cá, não deve ter passado um dia sem pensar na coleção — como desdobrá-la, como fazer dela algo relevante para o meio de arte. Fazia isso sem o traço mesquinho de colecionar como negócio.

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Alguns anos depois do incêndio do MAM-Rio, museu com o qual manteve relação próxima desde sua criação, fez um acordo de comodato para levar para lá sua coleção. Controvérsias à parte sobre os termos deste acordo, o fato é que sem estas obras o MAM-Rio não teria como mostrar dignamente o que se passou na arte brasileira desde os anos 1920. Durante os sete anos em que fui curador do museu, fiz muitas exposições com a coleção e me beneficiei imenso da sua presença ali.

Quando entrei no museu, a mostra de suas aquisições recentes já era uma exposição tradicional da agenda. Não se tratava de fazer uma curadoria, mas de mostrar o conjunto. Às vezes, tinha uma ou outra obra que eu achava por bem “esquecer” na reserva técnica. Ele sempre vinha ao final da montagem, antes da abertura, e me perguntava, com muita educação, onde estava a obra de fulano. Depois aprendi que, para além do gosto pessoal, tratava-se de fazer uma cartografia do presente. Era este o espírito daquela exposição. Não dá para não falar dos almoços de fim de ano memoráreis que ele fazia no Centro da cidade convidando uma quantidade superlativa de artistas. Era um colecionador que celebrava este convívio amistoso.

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Numa ocasião, uma artista polonesa veio ao Brasil para realizar um vídeo sobre sua mãe, também artista, que havia participado da Bienal de São Paulo, bem no começo dos anos 1960. Na ocasião, vendiam-se obras na Bienal, e na sua pesquisa ela viu que o Gilberto havia comprado uma das pinturas. Pediu-me para intermediar uma visita, mais para saber como eram as bienais na época. Marcamos um dia de visitá-lo no Leblon. Depois de 15 minutos de papo, ao ouvir o nome da artista, ele saiu da sala e voltou em seguida com uma pintura — era um autorretrato da mãe, grávida dela. A artista quase deixou cair a câmera de vídeo.

Para muitos jovens artistas, ao longo de muitas décadas, entrar na sua coleção significava adquirir uma outra estatura. Lembro-me de ouvir o Jean Boghici dizer que a obra que ele mais se arrependera de ter vendido, em toda sua vida de marchand, foi o bólide “Cara de Cavalo”, de Hélio Oiticica, para o Gilberto Chateaubriand. A presença substantiva de obras de tantos artistas entre as décadas de 1960 e 2000 dá a esta coleção uma vocação pública. São ao todo mais de oito mil obras. Seria fundamental ela de algum modo continuar no MAM-Rio. O museu foi sua segunda casa. Enfim, todos que o conheciam sentirão falta da sua generosidade, da acuidade do seu olho, das conversas bem-humoradas e da sua memória prodigiosa, que fazia dele um arquivo vivo da história da arte brasileira.

*Professor da PUC-Rio, curador do Instituto Pipa e curador do MAM-Rio entre 2009 e 2015

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