Gilberto Gil: ‘A cultura é sempre o primeiro inimigo do reacionarismo’

Cantor, músico, compositor, imortal da Academia Brasileira de Letras e um grande conversador. Gilberto Gil gosta de usar um velho bordão para se definir: “É no papo que eu me safo.” O programa “Amigos, sons e palavras”, que chega à sua terceira temporada no próximo dia 23, no Canal Brasil, é feito na medida para valorizar esse dom. Sempre muito à vontade, o tropicalista baiano recebe convidados para trocar ideias sobre assuntos variados (foram mais de 30 desde a primeira temporada). O primeiro dos 13 novos episódios terá a amiga e colega de fardão Fernanda Montenegro, numa conversa sobre a finitude da vida e as diferenças entre as suas personas no palco e na vida.

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— Eu sou prolixo, e gosto de estimular a prolixidade das outras pessoas, mesmo as mais caladas, mais quietas — diz Gil.

A entrada quase simultânea na ABL em 2022 potencializou ainda mais a amizade já antiga de Gil e Fernandona. Ele fará 81 em junho; ela, 94, em outubro.

— Entramos juntos na Academia, com uma visão fora da ortodoxia dessa grande instituição — diz Gil. — Entramos de viés, por assim dizer. E ambos já na velhice, com noção do decorrer da vida. Todas essas coisas dão um terreno comum de interesses atuais, que é o que povoa a conversa que tivemos nessa estreia do programa.

O gosto de Gil para conversa abre uma oportunidade para abordar diversos assuntos na entrevista. Como, por exemplo, a política cultural do novo governo. Ministro da Cultura de Lula entre 2003 e 2008, ele revela que vem aconselhando a atual ocupante da pasta, Margareth Menezes. Durante a transição, Flora, com quem ele é casado, teve o nome ventilado para o cargo, mas não chegou a ser convidada.

— Margareth vem me pedindo conselhos e também tem falado muito com Flora, especialmente sobre a adaptação dela à vida no Planalto. Também conversamos muito sobre indicação de nomes que trabalharam conosco na minha época como ministro e que poderiam ser chamados novamente.

Gil conta que fez a ponte entre Margareth e Marco Lucchesi, que acaba de ser nomeado presidente da Biblioteca Nacional. Coube ao ex-ministro avisar à atual ministra de que seu colega de ABL gostaria de assumir a instituição, da qual sempre foi próximo. No fim, deu match.

— Sempre que formos solicitados para dar ideias ou indicar nomes de especialistas, iremos ajudar — diz Gil. — Nossa experiência pode contribuir muito nesse momento de restauração, reprogramação de políticas culturais.

Outro capítulo

Gil ainda acha muito cedo para fazer uma avaliação do Ministério da Cultura — e, de forma mais geral, do novo governo que tomou posse no dia 1. Ele vê “empecilhos iniciais” com a contestação da eleição presidencial de 2022 por parte de bolsonaristas radicais.

— O governo começa com movimentos muito cuidados porque tem mãos e pés atados — diz Gil. — A transição tem sido traumática porque tem que se substituir muita coisa que estava destrambelhada no governo anterior. Construir uma governança do ponto de vista operacional e uma governabilidade do ponto de vista político. E já com a oposição ali no pé de Lula e de seus ministros.

As cenas de depredação ao patrimônio público no último dia 8, quando terroristas invadiram o Congresso e o STF, impactaram o ex-ministro da Cultura. O vandalismo danificou obras de Portinari, Di Cavalcanti, Athos Bulcão e Victor Brecheret, entre outras.

— O que eu sinto? Ora, sou artista, opero e me exerço trabalhando com a arte! Todas essas coisas caracterizam um sentimento de pasmo e revolta em relação a essas atitudes talibânicas desse grupo bolsonarista. A cultura é sempre o primeiro inimigo do fascismo, do nazismo e do reacionarismo. E ainda tem muita gente que se identifica com essa forma de ver o mundo. Mas é natural porque essas pessoas concordavam com o grande estimulador desse processo, que é o ex-presidente.

Homenagem a Gal

No próximo dia 28, Gil se apresenta no Festival de Verão Salvador com um convidado emblemático. Será a primeira vez que ele e Caetano dividirão o palco como oitentões. Caetano deverá cantar quatro ou cinco músicas com o amigo.

— Agora que entramos na fase mais exigente da vida, que é a velhice, eu e Caetano temos diferenças muito grandes — diz Gil. — Somos diferentes no modo de encarar a vida no seu decurso, a vida na sua finitude, ou como diz aquele que é um dos versos mais importante de Caetano: “Existirmos a que será que se destina?” Mas também temos muitas afinações, que perduraram desde os nossos primeiros encontros. São alinhamentos naturais por força de nossas identificações, nossa compreensão sobre esse pedaço de civilização do Brasil, que é a Bahia.

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O show também terá homenagens a Gal Costa, morta em novembro. Ainda não está definido, mas em algum momento “os momentos comuns” dos 50 anos de carreira serão lembrados. Segundo Gil, os sentimentos de perda e de vazio ainda estão muito presentes. E devem ser um obstáculo para uma aguardada volta dos Doces Bárbaros, o grupo que reuniu Gil, Caetano, Gal e Maria Bethânia nos anos 1970.

— Gal era uma das pilastras do grupo, dessa entidade chamada Doces Bárbaros — diz Gil. — O ânimo dos outros (após a morte dela) fica muito menor. E Gal animava essa ideia, ela era uma partidária da re-reunião do grupo. Não estou dizendo que a volta não possa vir a acontecer, mas fica muito mais complicada.

'Preta está forte'

Gilberto Gil comemora o sucesso do programa “Em casa com os Gil”, o reality lançado em 2022, com uma segunda temporada este ano, que mostra a rotina com os filhos, netos e bisnetos. A grande família Gil ficou abalada com a notícia de que Preta, sua filha, foi diagnosticada com um adenocarcinoma, um tipo de câncer no intestino. Ela começa o tratamento esta semana.

— O câncer é uma doença agressiva e misteriosa — diz Gil. — Hoje a possibilidade de cura aumentou muito. Ao lado do choque e da aflição da notícia, existe a esperança natural de que a medicina tem condições claras. Preta está muito bem e tem noção disso. Falei com ela e ela está forte.

A família, diz, é para contar na alegria e na tristeza:

— A Preta sempre esteve no nosso colo e agora ainda mais.