Giullia Buscacio se despede de 'Éramos seis' e compara: 'Ainda se repete o julgamento às mulheres'

Isabella Cardoso
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Vestido Power Look; jaqueta Boss; Gargantilha Listh

Após ver Clotilde (Simone Spoladore) sofrer durante anos por amar um homem desquitado, Isabel (Giullia Buscacio) acabou tendo a mesma sina em “Éramos seis”. A jovem, porém, resolveu quebrar o tabu e assumir a paixão por Felício (Paulo Rocha), diferentemente da tia. Se hoje é comum ver casais se separarem, na época era uma grande polêmica. No Brasil, o direito de se divorciar só foi garantido por lei em 1977. O medo do julgamento não impediu a filha de Lola (Gloria Pires) de viver o seu amor na trama que se passa nos anos 30. Giullia afirma que, assim como sua personagem, também se arrisca pelo que quer.

— Isabel tinha uma afinidade grande com a tia, nunca entendeu aquele sofrimento e quis fazer tudo ao contrário. Na história, Felício já era um homem desquitado, mas a questão era muito complicada. Zulmira (Luciana Braga) não queria essa mancha de estar separada — diz Giullia, de 23 anos, que agiria como a menina: — Eu corro atrás do que eu quero e, se for para errar, erro porque tentei. Tenho um pouco disso da Isabel, esse lado de me arriscar.

Se o desquite já não é mais um problema nos dias de hoje, outros pontos abordados na novela continuam sendo questões a serem ultrapassadas.

— Ainda se repete o julgamento em relação às mulheres. Somos muito mais julgadas do que os homens, infelizmente. Na novela, por exemplo, os irmãos de Isabel tiveram algumas atitudes questionáveis e não foram criticados como ela. Rola uma superproteção com o feminino. Lola ficava preocupada: “Minha filha, o que as pessoas vão falar de você na rua?”. Isso é algo que não há muito com os homens — avalia a atriz, que afirma não ter medo de ser malvista: — Acho que já deixei de fazer coisas para não magoar outras pessoas, mas não por isso. Nós vamos ser julgadas fazendo ou não fazendo.

 

Não é a primeira vez que a moça interpreta uma mulher à frente de seu tempo numa novela. Em “Novo mundo”, que volta às telinhas na segunda-feira da semana que vem, após o fim de “Éramos seis”, ela era a índia Jacira, que ficou marcada por seu empoderamento na tribo:

— Tenho a sorte de fazer personagens fortes, e Isabel foi mais uma delas. Ela é a única menina entre quatro filhos. Então, desde pequena já tinha que quebrar barreiras do feminino com o masculino. Ser mulher hoje em dia já é difícil, mas naquele período era um desafio muito maior. Em todas as épocas, há mulheres revolucionárias, fortes e empoderadas. Nos anos 30 ou agora, eu iria em busca do que acredito, sendo mais fácil ou mais complicado.

No mundo da moda, essa quebra de barreiras entre o feminino e o masculino, também conhecida como androginia, era um dos componentes fundamentais do estilo glam rock, que a atriz veste neste ensaio. Marcado por peças com couro, brilho, lantejoulas, paetês e metalizados, a tendência marcou os anos 70 e foi muito bem representada por artistas como David Bowie.

— Gosto de roupas metalizadas e essa brincadeira com o brilho dá um ar chique, mas confortável. Tem muito a ver comigo — declara Giullia, que sempre preza pelo bem-estar: — Não gosto de roupa em que eu fico presa. Sou uma pessoa expressiva, isso tem a ver com a maneira que eu gosto de ver o mundo. Quero estar à vontade.

A atriz conta que a vaidade só veio com o tempo, mas que sempre foi tranquila em relação à autoestima:

— Eu era mais “moleque”. Hoje em dia, eu me arrumo mais. Peguei o gosto pela coisa, mas demorei a curtir. De qualquer maneira, nunca seria vaidosa por pressão, só porque deveria ser. A gente passa por algumas questões, mas sempre fui bem resolvida e nunca tive problema com autoestima. Eu me aceito como sou.

Da mesma forma que aprendeu a lidar com o seu corpo, Giullia viu o desejo de ser atriz chegar com naturalidade. Filha do jogador de futebol Julinho, a artista encontrou sua vocação enquanto morava com a família na Coreia do Sul, onde ficou por quatro anos.

— Eu assistia muito a novelas coreanas, mas até então eu não sabia que isso poderia ser uma profissão. As coisas foram acontecendo normalmente. Meus pais nunca me pressionaram sobre o que eu queria ser ou fazer — relembra ela, que começou a estudar teatro aos 14 anos, no Brasil: — Quando vi, estava inserida no meio e trabalhando.

Giullia acredita que suas experiências fora do país foram as responsáveis pela escolha do caminho artístico, também trilhado por sua irmã Giovanna, de 20 anos. Nascida na Ilha da Madeira, em Portugal, quando o pai trabalhou por lá, a intérprete de Isabel, além de morar na Coreia, passou uma temporada na Hungria:

— Para mim, foi muito legal, e meu lado artístico tem muito a ver com isso. Eu tinha que me adaptar aos lugares, fazer amigos, aprender uma nova língua e uma nova cultura. Isso tudo influenciou a atriz que sou hoje, com uma cabeça mais aberta para o novo. Eu tenho muito a agradecer.

Depois de se estabelecer de vez no Brasil, Giullia não voltou mais aos lugares onde morou, mas ainda fala com amigas que fez na Coreia do Sul.

— Eu ainda tenho contato através do Instagram. Às vezes, algumas me ligam. Sempre que dá a gente se fala. Ainda não voltei lá, mas é um desejo — conta a atriz, que falava coreano fluentemente, mas se lamenta: — Eu deixei de praticar e acabei esquecendo...

Se ainda mantém amizades a distância, é fácil para ela encarar o namoro com Pedro Calais, vocalista da banda mineira Lagum. A morena e o cantor, que mora em Belo Horizonte, estão juntos há pouco mais de oito meses:

— Não é tão longe, não se tornou um problema pra gente, não. Nunca ficamos muito tempo sem nos ver. Conseguimos dosar isso bem.

Créditos

Texto: Isabella Cardoso

Styling: Alê Duprat

Produção de moda: Kadu Nunes[

Beleza: Walter Lobato

Fotos: Viinícius Mochizuki

Assistente de fotografia: Rodrigo Rodrigues