Glamour Garcia diz ser mais fácil abordar transexualidade na TV, mas que faltam mudanças concretas

BEATRIZ VILANOVA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Depois do humor ácido e constante do personagem Marcos Paulo (Nany People) em "O Sétimo Guardião", a Globo emendou mais uma novela da faixa das nove com um transexual no elenco. A estrela da vez é Daniela Garcia Machado (ou Glamour Garcia, seu nome artístico), 30, que foi convidada para interpretar Britney em "A Dona do Pedaço".

Na trama, a personagem começa com o nome de Rarisson e, após deixar São Paulo para cursar contabilidade, reaparece como mulher para os pais Eusébio (Marco Nanini) e Dorotéia (Rosi Campos). "Agora podem me chamar de Britney", declarou no capítulo que foi transmitido no final de maio.

Desde então, a personagem enfrenta dilemas em relação ao emprego, família e amores. Glamour torce para que o romance da personagem com Abel, que já tem indícios na novela atualmente, floresça. 

Ainda com poucos capítulos escritos, focado no trabalho de Britney em uma fábrica, a atriz diz não saber qual será a grande reviravolta na vida da personagem, mas que provavelmente será uma "historinha do bem", já que ela "não apresenta desvios de caráter".

Nos bastidores, Glamour afirma que há uma preocupação por parte da direção e da criação artística em cima da personagem, mas que não tem medo de deixá-la caricata. "Acho que a Britney está na medida certa. Ela tem que ter uma leveza e ser divertida de vez em quando", diz.

"Tive liberdade para criar e foi uma das coisas mais legais que já fiz na minha carreira: ser valorizada e poder trabalhar. Há muitas coisas que podem ser construídas na fala, texto e expressão corporal da personagem. Gravamos poucos episódios, mas acho que ela já está firme e forte", completa.

Com o desenrolar da história, Glamour pretende alcançar um público ainda maior e, quem sabe, tratar do assunto de forma mais didática. "Essa discussão vai acabar se ampliando nas muitas interfaces que tem a personagem. O trabalho, a família, o romance... Só aí já tem muito pano pra manga [sic]. Não só para a personagem, mas para o público", adianta.

Para ela, o assunto é mais fácil de ser abordado na contemporaneidade por conta do progresso em relação à militância e à ação social e política. "Muita coisa mudou, e essa mudança é totalmente positiva. Essas novas gerações têm isso bem presente, e a gente sabe que no passado era bem diferente. Ainda bem que mudou um pouco. Mas não são mudanças concretas: as pessoas ainda precisam entender que cidadania é um direito de todos, não somente de alguns."

Nas redes sociais, Glamour diz que tem recebido bons feedbacks: "A repercussão que tenho visto é maravilhosa. Para mim, parece que está tudo sendo muito positivo. Eu sei que há críticas, mas me senti feliz em ver como as pessoas ficaram alegres, se sentindo representadas e se identificando; vendo na Britney uma possibilidade de personagem com uma história interessante".

Em sua opinião, o resultado também é positivo. Apesar de se achar diferente da personagem, que seria "mais calma, menos ansiosa e mais posicionada e emancipada", Glamour percebe a representação. "É uma personagem que está alcançando um público muito grande, então tem um lado representativo. Mas ela tem mais liberdade e é mais segura."