Glamour Garcia fala sobre retorno aos palcos, feminismo e violência: 'Não quero ser mártir. Quero ser feliz'

Leda Antunes
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Glamour Garcia falou sobre sua paixão pelo teatro e sobre a dificuldade em lidar com a fama

RIO - Um ser humano teatral. É assim que Glamour Garcia se define, pois foi no teatro que ela se encontrou. O contato com a atuação foi fundamental para que ela, uma jovem trans vivendo no interior de São Paulo no início dos anos 2000, pudesse entender sua identidade.

O impacto é tamanho que basta perguntar como ela decidiu se tornar atriz que as lágrimas lhe enchem os olhos. As emoções fazem parte da expressão de Glamour. Sua presença e energia preenchem os espaços por onde ela passa. Em nossa conversa no terraço do Othon Palace, em Copacabana, ela riu, brincou, mas também se emocionou e não teve medo de demonstrar sua fragilidade. E a fragilidade não é um defeito, apenas uma das inúmeras características desta mulher múltipla.

Ainda na infância, Glamour, nome artístico de Daniela Garcia, já se entendia como menina. Muito nova ela experimentou o preconceito, especialmente no ambiente escolar.

— Eu era uma criança muito criativa. Essa criatividade sempre esteve muito relacionada à corporeidade, à gesticulação, ao contato humano. Então isso já era um choque. E eu não era só uma menina muito criativa, eu era literalmente a menina mais vaidosa, extrovertida e espevitada de todas — conta a atriz. — Mas a escola é ainda uma das instituições mais cruéis em relação ao processo de vida de uma pessoa trans — completa.

Mas foi também na escola que Glamour entrou para um grupo de teatro e, finalmente, encontrou seu caminho. Caminho este que a levou para a novela das nove, no ano passado. Antes de chegar ao horário nobre, já tinha se consolidado no teatro, estrelando o monólogo dramático "Salomé", e recebido um prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Paranoá, pelo curta "Nome provisório."

Em 2019, ela deu vida à Britney, personagem trans que ajudou a construir e interpretou na novela "A Dona do Pedaço", de Walcyr Carrasco. O papel lhe rendeu o prêmio de atriz revelação no Troféu Melhores do Ano, do Domingão do Faustão. A visibilidade e o reconhecimento foram imensos. Nunca antes uma atriz transexual tinha atingido este patamar na teledramaturgia brasileira, conta Glamour, orgulhosa.

— Eu sou pioneira sim. Falo isso com orgulho. Sou a primeira atriz trans de maior relevância construtiva artística na teledramaturgia brasileira — afirma.

Porém, com a fama, veio o status de celebridade, que Glamour ainda tem dificuldade para lidar, especialmente pela súbita perda de privacidade e pelo que chama de "fetichização" da sua figura pública e de sua vida privada.

No início deste ano, a atriz fez um desabafo em suas redes sociais, acusando o ex-marido de agressão. Em entrevista para CELINA, ela falou abertamente sobre o caso, no que definiu como sendo "sua fala de maior expressão" sobre a violência que afirma ter sofrido, e ainda sofre, do ex-companheiro. Embora tenha recebido relatos de outras mulheres quando compartilhou sua história, ela diz que ainda não se sente forte o suficiente para ser um exemplo.

— Não quero ser uma mártir. Eu quero conseguir ser feliz e resolver essa situação como um ser humano, como uma mulher. Não tenho pretensão de ser um exemplo de superação — afirma.

Depois de um ano no Rio de Janeiro, ela voltou a morar em São Paulo neste ano e planeja seu retorno aos palcos com os textos de duas autoras consagradas "Tigrela", de Lygia Fagundes Telles, e "A Obscena Senhora D", de Hilda Hilst. A estreia das peças está prevista para maio. Confira abaixo a entrevista com a atriz.

CELINA: Quando você decidiu que se tornaria uma atriz?

GLAMOUR GARCIA: A atuação chegou para mim no começo dos anos 2000. Era o começo da minha fase de adolescência e foi um momento muito difícil, porque eu era completamente impossibilitada de ser uma cidadã livre. Eu vivia um aprisionamento intelectual e pessoal muito cruel. Em 2003, eu conheci uma das pessoas mais importantes da história da minha vida, a atriz e bailarina Janaina Valente. Ela foi minha professora de educação artística. Quando soube que ela era formada pela Escola de Arte Dramática da USP, eu imediatamente pedi que nos desse aula de teatro.

Até aquele momento, eu vivia um momento muito triste da minha formação pessoal, porque eu não conseguia mais me sentir um ser humano. Eu pensava em suicídio a todo momento, mas isso não era externalizado de nenhuma forma. Eu já tinha passado por alguns processos terapêuticos, mas eles não eram suficientes. Eu não tinha nenhum espaço de vida para ponderar a minha transexualidade e a minha existência.

Quando fundamos o grupo de teatro na escola, comecei a viver de novo. O teatro, mais especificamente a arte da atuação, me encheu de vida pela primeira vez depois de mais de 10 anos. Eu me senti um ser humano de novo. Eu era muito inteligente, mas não tinha apego aos estudos. Não tinha vontade de estudar porque o processo escolar era muito cruel. O teatro me deu essa vida. O teatro me contemplou como pessoa.

Foi a partir dessa experiência que você iniciou o seu processo de transição e entendeu o que estava vivendo?

Sim. Foram a arte da atuação e o teatro que me trouxeram meu primeiro entendimento real e concreto de mim como ser humano, como pessoa. Sou grata ao teatro de forma filosófica, ontológica e social. Eu só sou quem eu sou graças ao teatro. Então, por isso, agradeço a toda a classe teatral do Brasil e a toda a história do teatro do mundo. Para mim, esse é o maior presente de Deus, da vida e do universo: estar no mundo e ser um ser humano teatral.

Como foi o processo de trazer a questão da sua transexualidade para a sua família?

Foi um processo muito natural. Eu saí do armário muito cedo. E ainda, quando saí, a gente passava por um processo de se assumir gay. Ou seja, eu não assumi a cidadã que eu era, mas o desejo que eu tinha por homens. Hoje, eu entendo que isso era uma etapa dentro de um processo que era possível de se viver no começo dos anos 2000. Não era simples. Eu fui conquistando aos poucos a minha cidadania como mulher brasileira, mas isso foi muito natural para minha família.

A transição é um processo de vida. Eu acredito na palavra transição, mas sou contra esse discurso, que vem de um lugar conservador, de dizer que a transição é de gênero ou biológica de sexo. Isso é apenas uma particularidade da vida das pessoas transexuais, que difere do processo de vida das pessoas cis. Mas é uma especificidade.

São questões e convenções sociais que fazem com que a gente marginalize a transexualidade. Ela existe na humanidade desde os seus primórdios. Com tudo isso eu quero dizer o quê? Quero dizer que tive um processo de transição tranquilo em relação a minha família, mas obviamente transgressor em relação à sociedade. A gente acha que não, mas toda pessoa é resistente ao nosso direito de cidadania trans, porque isso está imbuído no que é ser um cidadão. Ser um cidadão é não aceitar a transexualidade, é hierarquizar as pessoas.

Eu usufrui de um privilégio muito grande, mas o espaço que a pessoa trans ocupa na sociedade ainda é extremamente marginal. E não porque nós somos incapazes, ou não temos possibilidades sociais e profissionais. Ele é marginalizado porque é de interesse da sociedade que nós fiquemos à margem. Se não existe desigualdade, não existe concentração de renda.

Você já tinha uma carreira consolidada quando fez a novela, já tinha prêmios. Mas a novela te alçou a um outro patamar de fama. Como foi essa experiência?

Foi uma experiência muito complexa. Estava sentimentalmente desestruturada, em função de relacionamentos pessoais que eu vivia naquele momento. Então eu vivi uma insegurança muito grande. A novela trouxe uma projeção gigantesca para o meu trabalho. Eu ainda colho os frutos disso, que foi maravilhoso. Mas esse processo foi complexo, muito rápido e mesclado. Eu perdi a privacidade do dia para noite e isso me deprimiu muito, fiquei muito assustada.

Nesse processo, você sofreu transfobia ou machismo? Tem como dizer o que é mais pesado?

Nesse processo não sofri nem transfobia e nem machismo. O que mais me incomodou foi o processo midiático. Eu sinto que essa invasão de privacidade é muito violenta. Aí, eu não sinto que eu fui vítima de transfobia ou misoginia, mas sinto que, pelo fato de eu ser uma mulher trans, e talvez eu seja polêmica dizendo isso, mas uma mulher trans muito bonita, sensual, vaidosa, houve um processo de fetiche em cima da minha figura pública e da minha vida privada.

Por isso decidiu voltar ao teatro neste ano?

Sim, porque todo processo de atuação é um processo terapêutico. Acho que o teatro tem um poder de renovação humano gigantesco.

Você disse que se considera feminista...

Eu sempre fui muito feminista. O feminismo sempre existiu de forma muito natural em mim, porque eu sempre contestei. Esse foi um dos meus primeiros posicionamentos como pessoa. Vou te dar exemplos que talvez pareçam frívolos, mas quando criança eu já questionava: porque as meninas tinham que fazer balé e os meninos, futebol? Por que eu não podia fazer balé? Porque os meninos podiam isso e as meninas não podiam aquilo? Por isso eu arranjei muitas problemáticas no meu processo de ensino.

Acha que o movimento de mulheres ainda falha, tem resistência ou até mesmo preconceito em acolher as mulheres trans?

Tem. Acho que esse preconceito é um dos mais horrorosos que existe: quando a mulher não reconhece a outra mulher. E esse processo não acontece só com as mulheres trans. A gente vê muitas “células” de feminismo mostrando o quão preconceituosas são, tolhendo e dimerizando quais são os espaços e as possibilidades de fala de uma mulher.

O verdadeiro feminismo acontece todos os dias, na nossa capacidade de mudança de atitude. Isso não é simples. Não é fácil. E por mais que a gente mude de atitude, é difícil conseguir mudar a sociedade a nossa volta. Mas o feminismo tá aí no dia a dia.

A gente não empodera uma pessoa a julgando. Não adianta falar: "você é feminista, que legal, se liberta, se empodera." Depois, amanhã, quando a pessoa passa por complicações no seu dia a dia e na sua vida privada como mulher, você ir lá julgá-la. Isso não é feminismo.

Muitas mulheres passam por muitas situações extremamente complexas que envolvem violência e tolhimento de sua liberdade. Eu falo isso por mim mesma. Empoderar uma mulher não é apontar o dedo na cara dela para dizer que ela foi frágil diante do machismo da sociedade.

No início do ano você falou abertamente sobre uma situação de violência que viveu. Foi importante falar?

Eu não falei abertamente sobre isso na mídia. Falei no meu espaço pessoal dentro das minhas redes sociais. Num primeiro momento, aquilo não foi uma fala exatamente, foi um grito de desespero. Era a única forma que eu senti que eu poderia começar a me emancipar. Eu ainda não me emancipei totalmente dessa situação. Eu ainda a vivo. Eu ainda sou vítima. Sou vítima de perseguição e de consecutivas agressões do meu ex-marido. Tento não repercuti-las porque eu não quero repercuti-las. Eu sinto que a minha trajetória como artista é muito mais importante que isso.

Confesso que durante esse curto espaço de tempo que esse assunto veio à tona, tentei me resolver de forma pacífica com meu ex-marido. Muitas pessoas me julgam por eu ter tentado. Eu tentei não foi uma, não foram duas, não foram três vezes. Mas ele continua sendo uma pessoa abusiva, agressiva e violenta comigo. Graças a Deus não mais fisicamente, porque nós não convivemos mais.

É muito complicado. Eu não me sinto feliz como pessoa, mas não posso me tornar cada vez mais indefesa. O processo midiático já me torna indefesa. É imensurável a dor que eu passo. Não vou mentir, ainda sou apaixonada pelo marido que eu tive. Mas essa paixão me é nociva. Então tenho tentado trabalhar esse espaço de paixão de muitas formas. É muito doloroso para mim.

Você se sentiu julgada por outras mulheres?

Sim, fui julgada por outras mulheres e por outras pessoas do movimento LGBT, que se sentem no direito, no alto do seu privilégio machista e racista, de apontar o dedo na sua cara por ser uma mulher frágil. Com todo respeito à comunidade LGBT, mas do meu direito como ser humano LGBT, eu digo que existe um processo machista e hierarquizado dentro da comunidade que é muito triste. Nesse sentido, eu me sinto muito feliz de ser a mulher que eu sou, de ser a artista que eu sou, porque eu consigo, dentro do meu trabalho, unir a comunidade. Sinto que meu trabalho tem um grande poder construtivo. Essa é minha maior alegria.

Mas eu ainda não consigo lidar com essa história. Tento não conversar sobre isso não para abafar, mas para preservar os meus sentimentos, que estão completamente esfacelados nesse momento. A dor que eu sinto de ter amado uma pessoa que hoje se tornou meu maior algoz é imensa. De todas as experiências que eu tive, eu sinto que essa é a mais dolorida e a mais violenta que vivi. Isso me destrói.

Mas essa demolição interna está se transformando num processo de renovação. Eu fui uma vítima silenciada durante muito tempo, e a partir do momento em que eu comecei a minha emancipação, tenho seguido passo a passo. Eu ainda tenho muito a lutar pela minha liberdade.

Quando você falou sobre isso nas suas redes sociais, recebeu relatos de mulheres que se identificaram com a sua situação?

Recebi muitos relatos de mulheres, e também de homens, que se identificavam com essa situação. Eu tento não repercutir isso, não porque eu não acho que seja necessário, mas porque eu ainda me sinto muito frágil como vítima. Não me sinto forte o suficiente para ser um exemplo. Essa aqui é a minha fala de maior expressão em relação a isso. Mas eu não quero ser uma mártir. Eu quero conseguir ser feliz e resolver essa situação como um ser humano, como uma mulher. Não tenho pretensão de ser um exemplo de superação.

Confesso ainda não ter superado essa situação. Sinto muito medo, ainda me sinto muito frágil. Ele ainda consegue ser um agressor presente na minha vida. Consegue tolher a minha liberdade. Tem dias que eu não tenho vontade de viver, porque o processo de violência é muito grande. Mas estou me reconstruindo. Sinto que esse processo de reconstrução está sendo extremamente importante para mim.