Gloria Maria celebra um 2020 de cura e renascimento pessoal: ‘Mais do que coragem, eu tive fé’

Naiara Andrade
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Era 2 de dezembro de 2019, e Gloria Maria fazia a sua primeira aparição pública depois de passar por uma cirurgia de emergência para a retirada de um tumor no cérebro, descoberto repentinamente, após um desmaio. A jornalista havia se comprometido com o anfitrião da noite a comparecer ao lançamento de seu show, “Roberto Carlos em Jerusalém 3D”, no Cine Odeon, localizado no bairro carioca da Cinelândia, uma das 189 salas em que o musical seria exibido. Tratava-se de uma dívida de gratidão: 20 dias antes, quando Gloria ainda estava deitada na maca, saindo do Centro de Terapia Intensiva, o cantor fora a primeira pessoa a telefonar para saber notícias suas e lhe dar apoio incondicional.

— Ainda tonta, peguei o celular e, quando ouvi “Glorinha!”, sabia que era ele. Roberto disse: “Não se preocupe, você vai sair dessa, estou com você”. A gente tem uma conexão muito especial, desde os tempos da Jovem Guarda. Nossa relação é de alma. Tem algumas pessoas na vida que eu quero ter sempre por perto, e Roberto é uma delas, indiscutivelmente — conta ela, que assumiu a função de mestre de cerimônias do show do Rei na Terra Santa, a ser reexibido na próxima terça-feira, dia 22, na Globo, logo após “A força do querer”: — O fato de essa reapresentação (o show foi ao ar pela primeira vez na emissora em 2011) estar acontecendo exatamente um ano depois da minha cirurgia é algo mágico. Estou louca para rever!

Gloria viveu esse momento lindo ao lado de Roberto no imenso palco montado ao ar livre, no Sultan’s Pool, junto às muralhas da Cidade Velha de Jerusalém. A certa altura, foi surpreendida diante da plateia por um convite para bailar a dois.

— Eu vivi um sonho! De repente, no meio de “Unforgettable”, ele me chama para dançarmos juntos. Roberto estava radiante naquele show! Cantou de uma maneira emocionada, como não fazia há muito tempo. Naquela plateia, tinham judeus, muçulmanos, brasileiros... Foi um momento de confraternização e de espiritualidade fortíssimas, um dos mais bonitos da minha vida. Eu já fiz milhões de outras coisas, mas, desta noite, sei que jamais vou me esquecer — afirma ela, vista frequentemente ao lado do Rei na Globo: — Eu já apresentei uns quatro ou cinco especiais do Roberto, durante esses anos todos, e participei de uns 15 ou 20, entrevistando ou fazendo alguma outra coisa. Ele costuma dizer que gosta de me ter por perto, que sou um talismã dele. E ele é o meu!

Assim como o ídolo e amigo, que ela diz ter ficado “em estado de graça” na visita à cidade sagrada de Israel, Gloria ancorou-se na fé para superar o momento mais difícil de sua vida. Celebrada por sua bravura nas mais loucas aventuras para o “Globo repórter”, a jornalista afirma que, desta vez, nem houve tempo para sentir medo.

— Para falar a verdade, tudo o que vivi de excêntrico no trabalho sempre veio acompanhado de pânico, mas eu enfrentei. Agora, mais do que coragem, eu tive fé. Sou um conjunto de todas as religiões e filosofias de vida: catolicismo, budismo, cabala, umbanda... Talvez, tenha sido a união de todas essas crenças que me salvou — acredita ela, refletindo: — Não vou dizer que tive medo de morrer ou dúvida se iria sobreviver. Eu não pensei em nada. Entreguei aos céus e ao meu médico. Disse ao Paulo Niemeyer: “Eu confio em Deus e em você, se vira!”. Foi tudo tão rápido, tão de repente, tão surpreendente, que o medo não teve tempo de aparecer. Eu desmaiei, descobri o tumor, fiz a cirurgia, comecei o tratamento com a radioterapia, depois passei pela imunoterapia... Foi um turbilhão, entende? Saí do furacão e entrei no terremoto. A única sensação que eu tinha era: eu vou sair dessa. E assim foi.

Sensação que, Gloria relata, os próprios médicos que dela cuidaram não tinham. Tanto, que a apelidaram carinhosamente de E.T., por estar curada e sem sequelas em tempo recorde.

— Eles dizem que eu não sou fora da curva, mas fora da estrada — acha graça, deixando o ceticismo de lado diante do próprio testemunho de (sobre)vida: — A gente ouve falar em milagres, mas sempre guarda uma dúvida, né? No meu caso, por eu ter vivido tudo o que vivi e saído da forma como saí, hoje posso dizer, com toda certeza, que isso existe. Agora eu acredito em milagre, porque vivi um. Dia desses, diante dos bons resultados dos meus últimos exames, recebi uma mensagem do meu médico: “Um ano depois, você está zerada e melhor do que antes”. É isso. Estou inteirinha e pronta para encarar o mundo outra vez. Só estou dependendo desse vírus sair de cena.

Com mais de quatro décadas de carreira e vários passaportes carimbados mundo afora, parece até ironia dizer que, justamente no ano em que a repórter e apresentadora precisou parar tudo para focar na saúde, o planeta todo também tenha parado junto com ela, pelo mesmo motivo.

— Seria muito mais difícil para mim ficar em casa me recuperando se todo mundo continuasse indo e vindo, normalmente — confessa Gloria, que já tem em mente seus próximos destinos, assim que a vacina contra a Covid-19 permitir: — Eu queria ter um avião próprio para poder ir parando de aeroporto em aeroporto. Ficar dez dias em um lugar, uma semana em outro... Mas como isso é só um sonho, estou planejando ir para a Arábia Saudita. Queria ver pessoalmente como está a situação da abertura de direitos para as mulheres, que eu acho difícil de acontecer pra valer. Ir ao Taiti, um dos lugares mais maravilhosos do mundo, também seria ótimo! Depois de tudo o que passei, acho que mereço fazer um “Globo repórter” lá.

Quem está torcendo contra, esperando que essa partida não aconteça tão cedo, são Laura, de 12 anos, e Maria, de 13.

— Tive a chance de ficar um ano inteiro na companhia das minhas filhas, grudadinha nelas. Elas sentiram a mamãe por perto o tempo todo, para o bem e para o mal, porque acaba havendo uma exigência, uma cobrança maior. Fato é que elas não querem que esse isolamento acabe de jeito nenhum. Desejam, sim, voltar a ter a vida delas, mas não que eu volte a trabalhar (risos). Elas são maravilhosas! E essa proximidade foi e está sendo fundamental pra gente — atesta Gloria, que, por outro lado, sofreu o baque da perda da mãe, Edna, aos 89 anos, na primeira quinzena de fevereiro: — A vida é isso, só dá aquilo que você pode carregar. Eu saí da cirurgia em novembro, estava me recuperando bem em dezembro, mas em janeiro peguei uma infecção que me deixou internada por mais 12 dias, e ninguém ficou sabendo. Em fevereiro, quando eu estava começando a respirar novamente, minha mãe se foi. Ela já estava cansada, velhinha. Acho que Deus a chamou para, lá de cima, ao lado Dele, me abençoar, me transmitir força. Se não fosse a luz que ela está emanando pra mim, com certeza eu não estaria aqui de pé.

Se para a maioria dos mortais 2020 foi um ano difícil, a carioca de Vila Isabel soube fazer do limão uma caipirinha para brindar à vida e às redescobertas. Dos cantos da própria casa, até então pouco frequentados, às lembranças trazidas das muitas expedições pelos continentes, que não tinha tempo de admirar. Da experiência da convivência diária com os funcionários ao resgate das boas amizades de longa data. E até de si mesma, tanto na aparência quanto no emocional.

— Com certeza, esse foi o período mais revelador da minha vida. Um ano em que renasci, em todos os sentidos. Eu mudei muito! Primeiro, fisicamente. Ninguém chegou a me ver, porque eu estava totalmente reclusa em casa, mas de janeiro a abril eu inchei num grau! Ganhei uns oito ou nove quilos por causa do corticoide do tratamento. Eu me olhava no espelho e não me reconhecia. Caramba! Eu que visto manequim 36 ou 38, estava usando 42. Mas aquilo não me preocupou. Afinal, eu estava viva! Psicologicamente, eu mudei 200%. Aprendi que a vida é agora, o segundo adiante não existe. E adquiri uma visão bem diferente das pessoas. Acabei descobrindo quem na minha vida é amigo de verdade, com quem eu posso contar em qualquer circunstância.

Como ela mesma define, “ao contrário da Covid, que obrigou todo mundo a usar máscaras, a minha recuperação fez com que as máscaras fossem caindo, uma a uma”:

— Não é que eu tenha me decepcionado. Passei a entender que cada ser humano é de um jeito, e que a gente não pode forçar que sejam da maneira que pensamos. Tem gente que não sabe lidar com a dor, com o sofrimento. E você não pode cobrar, não pode exigir. Por outro lado, há pessoas que me surpreenderam positivamente e se revelaram absolutamente espetaculares comigo. Houve uma seleção natural.

Até mesmo o relógio biológico influenciou nas relações de amizade, ela detalha:

— Nessa quarentena, me aconteceu uma coisa incrível: eu passei a acordar muito cedo, tipo 5h, 5h30 da manhã todos os dias. Eu brinco com o Niemeyer que ele fez tudo certo ao operar o meu cérebro, mas mexeu em alguma coisa que me faz despertar de madrugada. Ele ri muito. Antes, eu só acordava às 9h, 10h, ou era obrigada a me adaptar ao fuso horário do lugar onde eu estava. Enfim... O que acontece é que eu acabei descobrindo que Pedro Bial, meu amigo de tantos anos, também madruga. Nós sempre fomos muito parceiros, nos amamos, mas não interagíamos com frequência por causa da correria das nossas vidas. Então, cedinho assim, como não tínhamos com quem falar, passamos a conversar nós dois. E foi uma delícia passar as madrugadas de papo com ele, rindo. Se não tivesse acontecido essa pandemia, nós não teríamos nos reaproximado e nos redescoberto assim.

A contagem do tempo, mais do que nunca, pouco tem importado para a mulher cujo ano de nascimento já virou lenda entre os brasileiros. Em favor da glória de Gloria, a cada virada de folha do calendário, o “senhor da razão” parece dar um passo atrás.

— Se antes ninguém sabia a minha idade, agora é que não vão saber mesmo! Passei por esse susto e estou totalmente recuperada, numa boa, melhor do que sempre. As pessoas vão enlouquecer: eu estou mais jovem! (risos). A imunoterapia funcionou para mim como uma fonte da juventude. Então, preparem-se! Vocês vão me ver cada vez mais nova na TV. E digo mais: esses meses de descanso, de amor com as minhas filhas, me tiraram dos ombros pelo menos uns 20 anos, tranquilamente. Para você ver: minha documentação está em todos os hospitais por onde eu passei e ninguém foi atrás da minha verdadeira idade. No fundo, não querem saber, se descobrirem vai perder a graça. Nem na minha lápide vai ter escrito! — diverte-se a jornalista, finalizando: — No meu epitáfio estará somente: “Vivi como eu quis”. Eu sou a dona do meu destino.