Golbery, ainda na ditadura, foi último militar na Casa Civil

DANIELA ARCANJO
***ARQUIVO***BRASILIA, DF, 12.02.2020: O ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil) conversa com assessor em seu gabinete no 4º andar do Palácio do Planalto, em Brasília (DF). O presidente Jair Bolsonaro estuda fazer uma reforma em seu ministério e é provável que Onyx deixe o posto de Chefe da Casa Civil. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com a confirmação do general Walter Souza Braga Netto para o cargo de chefe na Casa Civil, o país volta a ter um militar na liderança do ministério após 39 anos.

O último chefe da pasta oriundo da caserna foi o general Golbery do Couto e Silva, que saiu do cargo em 1981. Ele ocupou a cadeira no final do governo Ernesto Geisel e início do governo João Figueiredo, último presidente da ditadura militar (1964-1985).

Golbery assumiu o ministério em março de 1974, na posse de Geisel, e foi controverso. Figurou entre os principais atores políticos do regime desde o primeiro presidente da ditadura, Castello Branco.

A ele foi dada, em 1964, a chefia do Serviço Nacional de Informações (SNI), principal órgão do aparato de inteligência da ditadura. Golbery se debruçava sobre a doutrina de segurança nacional pelo menos desde 1952, quando tornou-se adjunto do Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra.

O general negava a relação do órgão que chefiava com governos totalitários e chegou a nomeá-lo "Ministério do Silêncio" por conta da recusa de dar entrevistas aos jornais.

É atribuída a ele, então chefe da Casa Civil de Geisel, a articulação que extinguiu o AI-5 (Ato Institucional nº 5), símbolo do período mais repressor da ditadura. 

Golbery foi um dos articuladores da chegada de Geisel ao Planalto, em 1974, e manteve um nível de influência no governo que não condizia com a discrição que reservava.

Geisel e seu ministro eram vistos como traidores dos ideais de 1964 e criticados duramente em panfletos anônimos que circulavam nos quartéis. Os papéis atacavam a "vaidade cega" de Geisel e a "ganância insaciável" de Golbery, em geral retratado pendurado numa forca.

O pedido de demissão do general da Casa Civil, em agosto de 1981, causou alvoroço. O momento de reabertura "segura, lenta e gradual" de Figueiredo pareceu ameaçado.

A alegação era de "divergências políticas inconciliáveis", e foi combustível para as incertezas quanto a continuação do processo de redemocratização.

A tese era de que o grupo mais radical no Planalto -à frente o general Otávio Aguiar Medeiros- tenderia a ganhar força e minar as pretensões de abertura para a democracia.

A ida de Braga Netto para a Casa Civil foi enxergada como uma retomada do prestígio da ala militar no governo. Ele é o nono militar no primeiro escalão da gestão e se junta a outros dois generais que despacham no Planalto: Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional).


OS MINISTROS DA CASA CIVIL DESDE GOLBERY

Golbery do Couto e Silva (1974-1981)

João de Carvalho Oliveira (interino, 1981)

João Leitão de de Abreu (1981-1985)

José Hugo Castelo Branco (1985-1986)

Marco Maciel (1986-1987)

Ronaldo Costa Couto (1987-1989)

Luís Roberto Andrade Ponta (1989-1990)

Marcos Antônio de Salvo Coimbra (1990-1992)

Henrique Hargreaves (1992-1993)

Tarcísio Carlos de Almeida Cunha ​(1993-1994)

Henrique Hargreaves (1994-1995)

Clóvis Carvalho ​(1995-1999)

Pedro Parente (1999-2003)

José Dirceu (2003-2005)

Dilma Rousseff (2005-2010)

Erenice Guerra (2010)

Carlos Eduardo Esteves Lima (2010-2011)

Antonio Palocci (2011)

Gleisi Hoffmann (2011-2014)

Aloizio Mercadante (2014-2015)

Jaques Wagner (2015-2016)

Luiz Inácio Lula da Silva (2016)

Eva Chiavon (2016)

Eliseu Padilha ​(2016-2019)

Onyx Lorenzoni (2019-2020)

Walter Souza Braga Netto (2020)