Golpe no Sudão é perigo para democracia no mundo inteiro, diz manifestante

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Para os manifestantes que saem às ruas do Sudão desde a tomada do poder por militares, na última segunda-feira (25), o golpe de Estado no país no norte da África representa um perigo para a democracia no mundo todo. O movimento interrompeu um processo de quase três anos de transição para um poder civil.

"Temo que a comunidade internacional acabe aceitando os militares como representantes legítimos do povo sudanês. Isso passaria uma mensagem muito perigosa não só para o Sudão, mas para o mundo inteiro", diz ao jornal Folha de S.Paulo, por telefone, de Cartum, a farmacêutica Samahir Elmubarak, porta-voz da Associação de Profissionais Sudaneses (SPA, na sigla em inglês).

O órgão esteve à frente dos protestos que levaram à deposição do ditador Omar al-Bashir em abril de 2019 e, agora, vem organizando manifestações contra a recente tomada de poder pelas Forças Armadas. No próximo ato, convocado para este sábado (30), os manifestantes querem "mostrar para o mundo que rejeitam o regime militar de todas as maneiras", segundo Elmubarak.

Nas primeiras horas da madrugada de segunda-feira, forças lideradas pelo general Abdel Fattah al-Burhan detiveram o premiê Abdallah Hamdok e outros integrantes civis do gabinete. A farmacêutica relata que dirigentes da SPA entenderam imediatamente que se tratava de uma tentativa de golpe e fizeram um chamado nas redes sociais para que a população participasse de atos de desobediência civil.

Ao raiar do dia, manifestantes já haviam tomado as ruas e montado barricadas na capital e em outras partes do país. "Havia muita tensão política nas semanas que antecederam o golpe. Estava claro para nós que as Forças Armas estavam apenas aguardando o momento certo para tomar o poder", diz. "A reação popular é um indicativo muito forte de que há rejeição generalizada ao golpe."

Ainda na manhã de segunda, o Exército bloqueou as telecomunicações no Sudão por tempo indeterminado.

Ao menos 11 pessoas morreram em confrontos com as forças de segurança ao longo da semana e mais de 140 ficaram feridas. Segundo a porta-voz da SPA, "é difícil saber o número exato de vítimas, por causa do bloqueio das comunicações".

"Não é a primeira vez que derrubam o acesso à internet, mas desta vez bloquearam também chamadas telefônicas, SMS, canais de TV e emissoras de rádio. Apostam que com isso vão conseguir sufocar nossa mobilização, mas as pessoas encontram outras formas de se comunicar", afirma. Ela conta que organizadores dos protestos passaram a recorrer a comitês de bairros que vão de porta em porta, distribuem panfletos e escrevem mensagens nos muros para divulgar suas ações. "Tudo à moda antiga."

Burhan afirmou que o movimento desta semana, que pôs fim ao acordo de partilha de poder entre militares e civis firmado após a queda do regime de Bashir, visa evitar a eclosão de uma guerra civil no Sudão.

Elmubarak discorda. Para ela, a solução dos problemas do país é permitir que a população participe dos processos decisórios, não concentrar ainda mais poder nas mãos dos militares. "A guerra que levou à separação do Sudão do Sul em 2011, a crise humanitária em Darfur, tudo isso acontece por causa da distribuição desigual de riqueza e poder no Sudão", afirma.

"Existe um consenso de que queremos liberdade, paz, justiça e democracia. Essa convicção profundamente enraizada tem levado as pessoas a sair às ruas ao longo dos últimos três anos, enfrentando de peito aberto as balas do regime."

Segundo a farmacêutica, a ruptura desta semana repete um ciclo vicioso de "golpe, democracia, golpe, democracia" desde que o Sudão conquistou sua independência, em 1955. Mas, para ela, a sociedade civil do país evoluiu no período. "Antes desta revolução, minha geração não tinha a oportunidade de conversar abertamente. Mas, hoje, podemos compartilhar nossas ideias e nossos sonhos", diz.

Em entrevista à Folha de S.Paulo em 2019 Elmubarak já dissera que as Forças Armadas do Sudão não eram confiáveis. Agora, ela afirma acreditar que a população não irá aceitar um retorno à partilha de poder com os militares. "Queremos um governo inteiramente civil, queremos votar nas primeiras eleições livres das nossas vidas."

Nesta quinta (28), o Conselho de Segurança da ONU emitiu comunicado em que expressou "séria preocupação sobre uma tomada militar no Sudão" e pediu a restauração do governo de transição. Antes disso, diferentes governos --incluindo o dos Estados Unidos e o do Brasil-- e entidades como a União Africana haviam pedido a libertação dos membros civis do gabinete.

Mas potências regionais, como o Egito e a Arábia Saudita, sinalizaram que manterão apoio às Forças Armadas sudanesas, o que pode ajudar a dar sobrevida ao regime do general Burhan.

Sob pressão, Burhan prometeu anunciar um novo governo em até uma semana e disse que tentaria convencer Hamdok, o premiê deposto, a reassumir o cargo, segundo informou a agência russa Sputnik nesta sexta (29). "Não iremos interferir na escolha dos ministros", afirmou.

Elmubarak pede que a comunidade internacional não vire as costas para o Sudão. "Há apenas duas maneiras de este golpe ser bem-sucedido: reconhecimento local ou reconhecimento externo. Nós, sudaneses, estamos fazendo a nossa parte para rejeitar o regime. Mas fracassaremos se outros países não fizerem nada para reverter este golpe."

CRONOLOGIA DA HISTÓRIA POLÍTICA DO SUDÃO

1956: Sudão se torna independente do domínio da Inglaterra e do Egito, que comandavam o país desde o fim do século 19

1958: General Ibrahim Abbud dá o primeiro golpe da República do Sudão, dissolvendo partidos políticos e fechando jornais

1962: Estouram conflitos entre o norte do país, mais simpático ao governo, e o sul, liderado pela guerrilha Anya Nya

1964: Abbud renuncia em meio à pressão crescente

1969: Coronel Gaafar el-Nimeiri lidera novo golpe militar e assume comando do país

1971: Tentativa frustrada de golpe comunista fortalece El-Nimeiri

1972: Tratado de Adis Abeba garante autonomia ao sul do país, governado pelo Anya Nya, e põe fim à primeira guerra civil sudanesa

1983: Em meio ao crescente fundamentalismo, Nimeiri impõe a sharia (lei islâmica estrita); coronel revoga termos do tratado e volta a dividir o sul em províncias, dando início a nova guerra civil

1985: Nimeiri é deposto por conselho militar, que realiza eleições no ano seguinte

1989: Em novo golpe militar, general Omar al-Bashir assume o poder, lidera país com mão de ferro e reintroduz a sharia, que prevê castigos físicos

1996: Bashir é eleito presidente; em 2000, é reeleito

1998: EUA disparam mísseis contra farmacêutica na capital Cartum, afirmando que local fabricava armas químicas

1999: Bashir dissolve Assembleia Nacional em meio a disputa de poder com presidente do Legislativo

2003: Milícias rebeldes se insurgem em Darfur, região de população não árabe no oeste do país

2004: Regime reage em Darfur e Exército ataca população, provocando crise humanitária e onda de refugiados; Colin Powell, então secretário de Estado dos EUA, descreve mortes como genocídio

2005: Novo acordo de paz restabelece autonomia no sul do país, e ex-líder rebelde, Salva Kiir assume Vice-Presidência

2007: Conselho de Segurança da ONU aprova missão de paz em Darfur; crise abre conflito diplomático com o Chade

2009: Tribunal Penal Internacional (TPI) pede prisão de Bashir por crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Darfur

2010: Bashir é eleito novamente presidente, em votação contestada; TPI expede segundo mandado de prisão, agora por genocídio

2011: Sudão do Sul ganha independência após votação popular; Salva Kiir torna-se presidente do novo país

2015: Bashir vence, com 95% dos votos, eleição novamente contestada

2018: Em dezembro, manifestações têm início na cidade de Atbara, bastião oposicionista no nordeste do país, e se espalham para outros locais

2019: Bashir decreta estado de emergência e suspende governadores após protestos em massa; em abril, militares depõem ditador após 30 anos no poder e preparam governo de transição. Em julho, governo e líderes da oposição chegam a um acordo que prevê transição completa para governo civil em até três anos

2020: Rebeldes remanescentes de Darfur assinam acordo de paz com governo

2021: Em meio a disputas por poder, militares prendem primeiro-ministro, declaram estado de emergência e afirmam que vão governar até eleições de 2023

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