Golpista preso no Planalto diz em depoimento que integrante do Exército tentou ajudar invasores a deixarem o prédio

Um dos golpistas presos durante a invasão do Palácio do Planalto, no domingo, disse que um integrante do Exército tentou ajudá-lo, e a outros invasores, para que eles deixassem o prédio antes de serem presos. A afirmação foi feita em depoimento à Polícia Civil do Distrito Federal, um dos 25 aos quais a TV Globo teve acesso — todos prestados por presos em flagrante pela tentativa de golpe de estado.

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O autor do relato afirmou ter saído de Santa Catarina em direção a Brasília com outras 48 pessoas para, de acordo com ele, "manifestar contra a corrupção no país e contra a falta de transparência das urnas". Ainda segundo o preso, ele não pagou pela excursão, financiada com doações da população.

Sobre a ajuda oferecida por um militar, o depoimento afirma que “um comandante do Exército falava para que os manifestantes fizessem uso de uma saída de emergência, convidando-os a sair”. De acordo com o relato, porém, “na sequência a tropa de choque da PMDF chegou e deu voz de prisão ao declarante e também a outros indivíduos."

Em nota ao G1, o Exército informou que "ainda não foi formalmente notificado e não há, até o momento, qualquer fato que indique a sua veracidade".

Em outro depoimento, um homem relata ter saído de Rondônia para o Distrito Federal, e diz que toda a manifestação foi “pacífica”, ao contrário do que mostram imagens produzidas pelos próprios manifestantes e divulgadas nas redes sociais. Os registros mostram vidraças e móveis quebrados, além de obras de arte e objetos históricos vandalizados, documentos rasgados e gabinetes invadidos e depredados.

No mesmo relato, o depoente também disse que, em dado momento da invasão, “"os manifestantes foram convidados a se retirar do local por um policial militar, mas um comandante deu outra ordem e determinou que o grupo que ali se encontrava fosse preso".

Dos 25 depoimentos aos quais a TV Globo teve acesso, apenas um dos depoentes disse residir em Brasília. Dentre os demais, quase todos disseram que não pagaram pela viagem e chegaram, em sua maioria, no dia das invasões, ou na véspera. Um dos depoentes, de Rondônia, disse acreditar "que foi o agro quem financiou o ônibus".

A maior parte dos depoentes também afirmou ter aguardado no acampamento em frente ao quartel-general do Exército, antes de partirem para a Praça dos Três Poderes, e também relataram que não tiveram custo com alimentação. Nenhum dos presos admitiu ter depredado ou participado de atos de vandalismo contra o patrimônio público, ou das agressões a policiais, e muitos disseram ter invadido os prédios para se proteger das bombas de efeito moral.

Ao menos três disseram ter participado dos atos golpistas pedindo uma intervenção militar das Forças Armadas, e um dos presos, de Minas Gerais, disse fazer parte da “Scuderie Detetive Le Cocq” do estado, grupo de extermínio, formado principalmente por policiais, que atuou na década de 60 no Rio de Janeiro.

Já no depoimento do coordenador de segurança de instalações dos palácios presidenciais, José Eduardo Natale, ele disse haver, no momento da invasão, “apenas 40 homens na tropa de choque” para conter os milhares de manifestantes, e disse que “acionou o pelotão de choque do Exército-BGP que se encontrava de prontidão", ao identificar a movimentação dos golpistas.

Natale também afirmou que os golpistas "utilizavam de violência e ameaça para conseguir acesso ao Palácio do Planalto, pois atiraram pedras do próprio chão do palácio nas tropas de segurança". E disse que foram roubados equipamentos da sala do encarregado de segurança das instalações, incluindo cassetetes, sprays de pimenta e 11 tasers, armas não-letais.