Golpistas presos no Rio salvaram o contato de alvo da quadrilha como 'próxima vítima'

Os golpistas presos por extorsão mediante sequestro, na manhã de sexta-feira, salvaram o nome de um dos alvos do esquema como "próxima vítima" no aparelho telefônico. André de Souza da Silva, o BB Sheik, de 28 anos, Thiago Emiliano Marcos Peçanha, o Balloteli, também de 28, e Francisco Iago Oliveira, de 26, são integrantes de uma quadrilha especializada em fraudes bancárias. Até o momento, houve 37 registros de ocorrência na polícia do Rio feitos por pessoas lesadas pelo grupo. Apenas nesses casos, os criminosos desviaram R$ 8 milhões de contas bancárias. A Polícia Civil estima, porém, que centenas de pessoas foram alvo do bando em todo o país.

As investigações contra o grupo estão em andamento há dois anos. André — apontado como o chefe da organização criminosa no Rio de Janeiro —, Thiago e Francisco atuam como um braço no Rio de uma quadrilha com base em São Paulo. Ao todo, 92 pessoas são suspeitas de envolvimento com o golpe no país.

Para o sucesso do esquema, a polícia suspeita, ainda, que o grupo conta com a ajuda de funcionários dos bancos. Em conversas obtidas pela 16ª DP (Barra da Tijuca), entre um dos integrantes da quadrilha e um funcionário de uma agência bancária, dados de contas correntes, agências e, até mesmo, as senhas dos clientes são fornecidos. Com isso, o bando faz movimentações financeiras para a conta de pessoas usadas como laranjas sem que a vítima saiba ou tenha tempo hábil para recuperar o montante.

— Na verdade, eu dei uma grande sorte, porque meu problema se solucionou muito rápido graças a agilidade do banco. Eu recebi uma notificação no celular de que havia feito uma transferência via pix de aproximadamente R$ 15 mil, no mesmo instante eu acionei o banco e informei que essa transferência não havia sido feita por mim e prontamente o meu gerente e o pessoal da agência cancelou a transação. Em um prazo de 5 dias o valor foi estornado completamente, mas é claro que no momento a gente leva um susto danado... — afirmou.

O advogado ressaltou ainda que, devido à resposta rápida que teve do banco, sequer chegou a registrar a ocorrência em delegacia e que só depois foi procurado pelos agentes para contribuir com a investigação.

— O trabalho feito pela investigação realmente me pegou de surpresa pela maneira que tudo foi conduzido. Como eu tinha resolvido as coisas de maneira fácil até, acabei não fazendo o registro do caso. Uma segunda vítima procurou a polícia civil e fez registro, como parte da investigação a Civil chegou até mim e foi aí que prestei o depoimento, etc. — lembrou.

O trio foi preso na manhã de sexta-feira, pelo crime de extorsão mediante sequestro. Segundo a Polícia Civil, o grupo é acusado de sequestrar e manter em cárcere privado quatro parentes de um homem que foi aliciado pela organização criminosa. Ele foi usado como laranja para uma movimentação financeira de R$ 100 mil, mas não repassou o montante para o grupo criminoso e sofreu retaliações.

A movimentação de R$ 100 mil para a conta de uma empresa de fachada, em dezembro de 2021, chamou a atenção das autoridades. O destinatário do montante era um homem aliciado pelo grupo. Ele receberia o valor furtado e, em troca, ficaria com 10% do valor.

Ao receber o dinheiro em sua conta, porém, o homem optou por não repassar a quantia para a quadrilha, o que levou a uma retaliação por parte dos criminosos. Bandidos foram ao endereço do homem, que é morador da Baixada Fluminense, e sequestraram sua mãe, seu padrasto, seu irmão e um primo. Todos foram levados para a comunidade de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio, onde o grupo manteve os quatro em cárcere privado sob ameaça de morte.

— Eles ficaram um dia sob ameaças do grupo. Prenderam os quatro em um carro e fizeram diversas chamadas de vídeo mostrando que a família do homem era refém e que iriam matá-los se não tivessem o valor devolvido — explica o delegado titular da 16ª DP, Ângelo Lages.

O dinheiro foi devolvido no fim do dia, mas a quadrilha ainda exigiu juros de 10% sobre o valor inicial, totalizando R$ 110 mil.

Com roupas de grife — como Burberry, Gucci, Prada e Balenciaga —, além de carros da marca Porsche, BB Sheik, apontado como o chefe da quadrilha no estado, levava uma vida luxuosa. O apelido "Sheik" vem da ostentação dos bens obtidos com o esquema. Segundo a Polícia Civil, tudo que o criminoso tem foi comprado com valores vindos das fraudes. Não há registro de que André tenha tido algum dia emprego ou qualquer forma legal de obtenção de dinheiro.

Ainda de acordo com as investigações, ele possuía um veículo do modelo Macan, avaliado em mais de R$ 400 mil.