Gorbatchov se formou comunista e morreu social-democrata, diz pesquisador

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O último líder da União Soviética, Mikhail Gorbatchov, se formou comunista, incorporou ideologias liberais e morreu, nesta terça-feira (30), como um social-democrata, na avaliação de César Albuquerque, pesquisador da USP e autor de um estudo —ainda em andamento— sobre a carreira do político.

Segundo ele, Gorbatchov teve a personalidade política e as ações econômicas menos calculadas do que costuma se analisar no Ocidente.

Suas ideias mais liberais já eram difundidas quando ele passou a ganhar protagonismo no Partido Comunista, nos anos 1970, em um momento em que os bastidores começavam a discutir a necessidade de um grau maior de dinamismo econômico. Gorbatchov foi convidado para o Politburo em 1978 e, sete anos depois, após mortes de outros líderes, foi nomeado secretário-geral e, portanto, líder da URSS.

"Quando assumiu, Gorbatchov não tinha um afastamento profundo em relação à ideologia oficial do regime. Ele defendia a aceleração e a abertura econômica, mas para ele mais democracia significava mais socialismo", diz Albuquerque.

O problema é que faltava ao novo líder um plano de governo. "Ele sabia que era necessário dinamizar a economia e reduzir a censura, mas suas propostas eram vagas. As medidas foram sendo tomadas com base no contexto de cada momento."

Ainda assim, o líder soviético tentou avançar mais do que talvez seu apoio político permitisse. Ao tentar abrir a economia, diminuir o poder do Estado em licitações e criar mecanismos de autogestão, incomodou figuras importantes da burocracia soviética.

Gorbatchov tentou se cercar de figuras mais liberais —entre eles, Boris Ieltsin, que em pouco tempo viria a se tornar um de seus maiores adversários— enquanto tentava satisfazer a velha guarda do partido. Em 1991, foi alvo de uma tentativa de golpe quando passava férias às margens do mar Negro. Sob a liderança de Ieltsin e em meio a uma sucessão de vaivéns, o movimento acabou frustrado. "Mas a autoridade de Gorbatchov foi reduzida praticamente a zero", diz Albuquerque.

Quatro meses depois, ao renunciar o líder soviético decretou o fim da URSS e abriu espaço para a posse de Ieltsin como primeiro presidente da Rússia. Em 1996 ele tentaria voltar à cena como candidato à Presidência, mas a campanha terminou com só 0,5% dos votos.

"Ao longo da perestroika Gorbatchov se aproximou da social-democracia europeia, já rompido com a perspectiva revolucionária de reconstrução de um regime comunista. Foi com essa ideologia que ele se candidatou em 1996."

Daí se explica o fato de o histórico líder ter um reconhecimento no Ocidente bem distinto daquele em seu país. Nos últimos anos, depois de ter apoiado a eleição de Vladimir Putin, Gorbatchov se tornou mais crítico à política interna do presidente —mas seus argumentos tinham pouco espaço na mídia local, ligada ao Kremlin.

"O Rússia Unida [legenda de Putin] é um partido de burocratas, a pior versão do PCUS [Partido Comunista Soviético]. Não posso dizer que nosso Parlamento é independente e que nosso Judiciário cumpre integralmente as disposições da Constituição", afirmou, em entrevista à agência americana Associated Press ainda em 2009.

Mas aspectos da política externa do atual mandatário contavam com certo apoio, ainda que dúbio, de Gorbatchov. "Ele não defendia uma postura hostil, mas acreditava que a Rússia deveria ser responsiva. Foi assim na intervenção na Geórgia, na anexação da Crimeia e na atuação das tropas russas na Síria", diz Albuquerque.

Em 2020, ele sinalizou apoio a atos pró-democracia na Belarus e pediu uma solução interna, sem ingerência estrangeira. Na sequência, já com problemas de saúde e 91 anos, o ex-líder soviético pouco comentaria as tensões que levaram à Guerra da Ucrânia. Em fevereiro, dois dias após a invasão russa, a fundação que leva seu nome pediu por um cessar-fogo.