Gordofobia: laudo e desinformação viram obstáculos para vacinação contra a Covid-19 de pessoas com obesidade

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RIO — Ainda faltam algumas semanas para chegar a vez da estudante Amanda Amorim na fila de vacinação contra a Covid-19 em Campinas, São Paulo. Mas a jovem de 25 anos teme não conseguir comprovar sua comorbidade, que é a obesidade. Amanda não está só. Como ela, pessoas com obesidade têm enfrentado falta de informação e de empatia no acesso ao direito da imunização.

— Fui pegar o laudo sexta-feira (21) no Centro de Saúde Barão Geraldo, mas disseram que não precisa de laudo para obesidade, e que "na hora a gente vê e faz a pesagem se tiver alguma dúvida". O problema é que a vacinação será em outra unidade. E se pedirem o laudo lá? — questiona a estudante.

No Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, fazem parte do grupo de comorbidades pessoas com obesidade mórbida, ou seja, que têm o Índice de Massa Corporal (IMC) maior ou igual a 40. Para calcular a esse valor, basta dividir o peso (em quilos) pela altura (em metros) ao quadrado). Mas a falta de orientação por parte de alguns profissionais faz o caminho ser mais longo e doloroso.

Amanda conta que já viveu situações piores em unidades de saúde e consultórios médicos. Desde quando começou a engordar, há cinco anos, após uma depressão, tem percebido um tratamento diferente no atendimentos:

— Antes de engordar, eu recebia um tratamento adequado para o refluxo, por exemplo. Agora tudo gira em torno do meu peso. É difícil achar médicos que tratem do que eu preciso sem me mandar emagrecer. Fui a uma ginecologista para tratar da questão hormonal. Antes que eu me sentasse, ela questionou: "Qual é o seu problema, além da obesidade?"

Foi esse o motivo que quase levou a professora universitária X., de 36 anos, a desistir da imunização em Curitiba, no Paraná. Ela preferiu não se identificar, mas relatou que tentou por quase uma semana um laudo para comprovar a comorbidade:

— Desde a hora de tomar a decisão de me vacinar foi complicado porque existe todo um estigma em cima das pessoas obesas. O termo "obeso mórbido" já vem junto como uma sentença de morte. No dia 14, fui ao primeiro médico. Ele não me pesou nem me mediu. Disse que não daria o laudo porque eu não tinha nenhuma doença associada à obesidade — lembra a professora. — Faço acompanhamento com minha nutricionista, mas ela não podia emitir um laudo. Então resolvi abrir mão da vacinação e esperar outra oportunidade.

Em nova tentativa, X. passou por um novo constrangimento quando ligou para um hospital para pedir o laudo, e foi encaminhada para uma consulta com um cirurgião bariátrico:

— Ele me examinou, viu que eu tinha IMC acima de 40, fez o laudo, mas, quando terminou, disse que eu era candidata à (cirurgia) bariátrica. Mesmo eu dizendo que não tinha nenhuma doença e que estava em paz com meu corpo, ele listou várias doenças que eu teria no futuro. Foi uma exposição, uma violação.

X. relatou sua experiência às criadoras do perfil no Instagram Saúde Sem Gordofobia, que disponibiliza um cadastro com profissionais de saúde que atendem pacientes obesos sem o peso da "gordofobia".

A professora universitária conseguiu se vacinar no último dia 20 e destaca que o incentivo das profissionais do Saúde Sem Gordofobia foi fundamental para que permanecesse na peregrinação para conseguir o laudo.

O perfil no Instagram tem atualmente 11,6 mil seguidores. Depois que começou a postar informações sobre vacinação de pessoas com obesidade, teve um aumento de 4,5 mil seguidores em apenas dez dias.

Para a psicóloga e psicanalista Lais Oliveira Sellmer, uma das fundadoras do perfil, junto com a psicóloga Gabi Menezes, o objetivo é acolher:

— A gente acolhe as pessoas para que elas busquem o direito delas. Em tese, é só calcular o IMC, mas muitas UBSs (unidades básicas de saúde) pedem atestados e deixam as pessoas incomodadas porque são julgadas pela aparência física. Tem gente que conseguiu, mas foi humilhado.

O perfil encampou a campanha "Vacina Sim" e divulgou um vídeo com criadores de conteúdo falando sobre a importância da vacinação. Já são mais de 52 mil visualizações. A ideia da página começou com um grupo que reunia médicos, psicólogos, nutricionistas, professores de educação física, entre outros profissionais, para falar de gordofobia. Há pouco mais de um ano, virou um perfil na rede social.

Um cadastro com profissionais de saúde não gordofóbicos foi criado para que seguidores pudessem se consultar sem medo de passar por novos constrangimentos. Muitos deles são indicados pelos próprios usuários. São quase 600 profissionais credenciados de todo o país, e o cadastro segue aberto.

— Alguns profissionais se candidatam, e a gente faz avaliação. Inclusive, oferecemos um curso sobre como atender essas pessoas, como abordar e não ser gordofóbico — explica a psicóloga.

A presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Maria Edna de Melo, avalia que não há necessidade de um laudo para comprovar IMC.

— Em qualquer UBS tem balança com régua. É só pesar e medir o paciente, de forma respeitosa sempre, fazer o cálculo e colocar que (o IMC) foi verificado na própria unidade. Até porque quem tem comorbidades como hipertensão ou diabetes é cuidado na unidade. Os que têm obesidade não são. Então vão ter que correr para o médico e se expor? Vejo isso como muito desumano — ressalta a médica. — Estudos mostram que, quanto mais grave a obesidade, menos as pessoas procuram serviço de saúde porque vão ser estigmatizadas.

A Prefeitura de Campinas informou que, na cidade, estão sendo vacinadas pessoas com comorbidades a partir de 45 anos e que, em breve, serão abertas outras faixas etárias, de forma progressiva. Informou ainda que elas deverão apresentar declaração ou receita do médico com assinatura e CRM (registro), receitas de medicamentos para pressão, para diabetes ou remédios que “abaixam” a imunidade, ou resultados de exames que mostrem algumas dessas doenças, como eletrocardiograma, tomografia, ultrassom, ecocardiograma, entre outros. Outra opção, segundo a prefeitura, é o Formulário Médico Padrão para Indicação de Vacina Contra a COVID-19, que pode ser preenchido, assinado e carimbado pelo médico.

O estado de São Paulo está vacinando pessoas com comorbidades e com deficiência permanente (BPC) de 45 a 49 anos. A partir do dia 28, a faixa etária será de 40 a 44 anos.

Para comprovar a comorbidade, devem ser utilizados laudos, declarações, prescrições médicas ou relatórios médicos com descritivo ou CID da doença ou condição de saúde, CPF ou CNS do usuário, assinado e carimbado, constando o CRM do médico. Quem faz acompanhamento pelo SUS pode comprovar a condição utilizando o cadastro já existente na unidade onde é acompanhado.

A Prefeitura de São Paulo segue as diretrizes do estado.

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