Gordura trans, alvo de banimento, já foi considerada saudável

GABRIEL ALVES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A gordura trans, que hoje está sendo banida da produção de alimentos no Brasil e no mundo, já foi considerada um alternativa saudável para a saúde, em meados do século passado.

O processo de hidrogenação, pelo qual a gordura trans é formada a partir de óleos vegetais, havia ganhado o coração da indústria por preservar alimentos e ampliar o chamado tempo de prateleira. Em tempos de escassez, como na 2ª Guerra Mundial, a margarina ocupou o espaço da manteiga, item escasso.

Depois disso foram os biscoitos, bolos e diversos outros itens que passaram a incluir gordura vegetal hidrogenada.

Nas décadas de 1970 e 1980, havia cientistas que defendiam que a gordura saturada, especialmente a de origem animal, seria o vilão do aumento de problemas cardiovasculares como infartos e AVCs. 

Foi nessa época que estudos patrocinados por grandes indústrias alimentícias (enviesados, portanto) diziam que alimentos como carnes e queijos, deveriam ser reduzidos na dieta, abrindo espaço para aqueles baseados em carboidratos. 

Estudos recentes, com menos conflito de interesse e mais transparentes, mostram que a ingestão excessiva de carboidrato pode ser tão ou mais deletéria para a saúde.

Só na década de 1990 o acúmulo de evidências científicas começou a deixar claro que a gordura trans poderia ser mesmo uma vilã.

Os mecanismos pelos quais esse prejuízo se dá não estão completamente desvendados, mas uma das principais explicações é que, no organismo, a gordura trans aumenta a circulação de LDL e reduz a de HDL.

Essas duas siglas se referem a estruturas que transportam gorduras e colesterol pelo sangue. O aumento de LDL está associado ao surgimento de doenças cardiovasculares, assim como a redução de HDL.

Experimentos com animais mostram que a gordura trans também aumenta a quantidade de gordura depositada no fígado, o que agrava o risco de ter problemas como cirrose e piora a capacidade de o organismo se desintoxicar. 

Outra forma pela qual a molécula de gordura trans poderia trazer problemas para o organismo é desencadeando processos estressantes nas células, por exemplo, por meio da produção de radicais livres, moléculas altamente reativas que atacam estruturas celulares e prejudicam sua função -nem mesmo o DNA, que carrega a informação genética, escapa.

É possível também que o estímulo causado pela gordura trans aumente a produção de mensageiros moleculares como a interleucina-6, a interleucina-1B e o fator de necrose tumoral alfa, que promovem a inflamação. O ambiente inflamatório por si só aumenta a chance de problemas como aterosclerose, doenças autoimunes e até câncer.

Apesar de a principal fonte de gordura trans na dieta humana serem os óleos vegetais hidrogenados, existem versões dessas moléculas que ocorrem naturalmente na carne, no leite e em derivados.

Ainda não está claro qual seria o impacto dessa versão natural da gordura trans, há estudos que dizem que seria neutro ou até mesmo positivo -não dá para bater o martelo. 

De todo modo, está claro que uma política que restringe o uso de gordura trans pode trazer benefícios. Um estudo americano no estado de Nova York mostrou que onde já havia restrição teve redução de 7,8% nos casos de infarto e de 4,5% de mortalidade por doenças cardiovasculares, em relação a localidades onde a restrição não havia chegado. Nos EUA a ingestão de godura trans despencou de 8 gramas/dia na década de 1980 para cerca de 1 grama/dia nesta década.

A decisão da Anvisa na última quarta (17) de banir a gordura trans no Brasil até 2023 está em acordo com outras agências internacionais, como a americana FDA, que deve encerrar o uso até 2021. Na União Europeia, as restrições começaram em 2003, na Dinamarca. O bloco decidiu restringir o uso em 2015, com limite até abril de 2021 para adequação dos produtos.

A indústria de alimentos tem buscado substitutos para a gordura trans. Uma alternativa é o óleo de palma (ou de dendê), rico em gordura saturada, já usado para dar textura a alguns alimentos, como creme de avelã. 

Óleos interesterificados, outra alternativa, também estão em debate. Alguns estudos apontam que eles causam ganho de peso e aumento no estresse celular. A verdade é que faltam estudos para saber se existe alguma alternativa completamente segura.