Governadores aproveitam omissão de Bolsonaro e buscam recursos na COP26

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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 05.05.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia de abertura da Semana das Comunicações, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 05.05.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia de abertura da Semana das Comunicações, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

GLASGOW, ESCÓCIA (FOLHAPRESS) - Enquanto o governo federal é olhado com desconfiança pela diplomacia climática reunida na COP26, a coalizão Governadores pelo Clima, que reúne 24 estados brasileiros, aproveita a conferência para se reunir com países doadores e arrecadar recursos para projetos climáticos.

O grupo tem três governadores na conferência e já marcou agendas com doadores da França, do Reino Unido e da União Europeia.

Nesta quinta-feira (4), eles se reúnem com representantes da China e dos Estados Unidos e também devem ser recebidos, no final do dia, pelo príncipe Charles, herdeiro da coroa britânica, para discutir investimentos em clima.

No último mês, o grupo havia apresentado ao enviado especial de clima americano, John Kerry, um conjunto de projetos de energias renováveis, reflorestamento, restauração de bacias hidrográficas e bioeconomia nas cinco regiões do país. A estimativa é arrecadar cerca de US$ 300 milhões (R$ 1,6 bilhão) com o primeiro portfólio.

O grupo lançou, também nesta quinta (4), o consórcio Brasil Verde, que o habilita a receber dinheiro internacional com mais independência do governo federal.

O mecanismo ajuda a vencer parte da burocracia —que centraliza no governo federal o recebimento de recursos. Com o consórcio, doações podem chegar diretamente aos estados, mas recursos de financiamento ainda precisam ser aprovados pelo Tesouro Nacional.

O lançamento do consórcio na COP26 contou com a presença dos governadores Renato Casagrande (ES), Eduardo Leite (RS) e Mauro Mendes (MT), além do senador Jean-Paul Prates (PT-RN) e do secretário de meio ambiente e infraestrutura do estado de São Paulo, Marcos Penido.

"Tem algo de positivo na ausência do governo federal, que gera para nós a necessidade de mais mobilização", afirmou o governador gaúcho, Eduardo Leite (PSDB).

"Nós não nos arvoramos a substituir o governo federal. A união é feita da soma das partes. Se não há dedicação da União, federal, então as partes estão se juntando", disse Leite.

"Nós compensamos em parte a ausência do governo nesse tema. Nossa movimentação aqui também levou o governo a ver esse ambiente político em torno e assumir compromissos importantes", afirmou Casagrande (PSB), do Espírito Santo.

Para o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM), o anúncio de US$ 12 bilhões para florestas feito pelos países desenvolvidos no início da COP26 é insuficiente para a meta de zerar as emissões de carbono no mundo.

"Não é nada perto do que está em jogo neste momento. Vamos fazer nossos esforços, mas precisamos cobrar reciprocidade ambiental. Os países ricos devem reduzir a queima de combustíveis fósseis e comparecer financeiramente", disse Mendes.

Inspirada na articulação dos estados americanos feita durante a administração Trump, a coalizão Governadores pelo Clima foi criada pelo ambientalista Alfredo Sirkis logo após a eleição do presidente Jair Bolsonaro, em resposta às propostas antiambientais do governo federal —que chegou, a exemplo do ex-presidente americano, a cogitar a saída brasileira do Acordo de Paris.

Após o falecimento de Sirkis em julho do ano passado, seu filho, Guilherme Syrkis, deu continuidade à articulação, apelidada de paradiplomacia, pelo trabalho paralelo de representação do país nas relações internacionais.

"O surgimento de lideranças nacionais carismáticas que negam o aquecimento global abriu brechas para que governadores reafirmassem seus compromissos, fomentando o movimento paradiplomático em defesa do meio ambiente global", conclui Syrkis.

*A jornalista Ana Carolina Amaral viajou a convite do Instituto Clima e Sociedade.

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