Convocação de governadores para CPI pode ser tiro no pé do governo

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Rio de Janeiro's Governor Wilson Witzel (L) and Brazilian President Jair Bolsonaro attend a ceremony at the Federation of Industries of Rio de Janeiro (FIRJAN) headquarters in Rio de Janeiro on May 20, 2019. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP)        (Photo credit should read MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)
Os ex-parceiros Wilson Witzel e Jair Bolsonaro durante cerimônia no Rio e 2019. Foto: Mauro Pimentel/AFP (via Getty Images)

Posso estar enganado, mas a cartada bolsonarista para convocação de governadores para a CPI da Pandemia pode ser uma tática arriscada de quem não entendeu muito bem a regra do jogo. É como se alguém, diante de uma carta 3, os senadores governistas, seguindo a lógica da matemática, trucassem alto antes de morrer com um 4 nas mãos.

Acuados pela linha do tempo construída pelo G7, o grupo dedicado a emparedar o governo federal, os apoiadores de Jair Bolsonaro na comissão querem desde o começo expandir o escopo das investigações para tirar o presidente do centro da cena. A estratégia é pulverizar possíveis crimes por ação, omissão e (ir)responsabilidades.

Na primeira fase, aliados e dissidentes que passaram pelo governo enfrentaram apuros pelo corredor polonês do Senado.

Agora é a vez dos governadores, sempre citados pelos quatro parlamentares governistas como responsáveis diretos pela tragédia. Segundo essa versão, eram eles quem estavam na ponta da linha e poderiam salvar milhares de vidas enquanto o presidente, coitado, tinha as mãos amarradas pelo Congresso e o Supremo Tribunal Federal.

Foi essa narrativa que os levou a trazer para o centro da cena nove chefes dos executivos estaduais que já foram alvo de investigações e agora precisarão explicar o que fizeram dos repasses federais, um dos focos da CPI, para o combate à pandemia. Serão ouvidos, assim, os governadores do Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, Tocantins e Piauí, além do Distrito Federal. Foi convocado também o ex-governador do Rio Wilson Witzel (PSC), recém-removido do cargo.

Truco?

Veja bem. Dos dez (contando Witzel) convocados, pelo menos seis sequer sonhariam em chegar até onde chegaram se não fosse a onda bolsonarista que elegeu meio mundo que colou sua imagem à do candidato do PSL em 2018. Outro até chegaria, mas uma vez eleito se tornou o maior bajulador presidencial das unidades da federação.

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Entre os convocados está Antônio Denarium, governador de Roraima, atualmente sem partido, que em março do ano passado recebeu das mãos de Jair Bolsonaro uma medalha da Ordem do Mérito Militar por determinar a reabertura do comércio quando o coronavírus ainda começava a trucidar seus compatriotas. Seu estado está na mira desde que a Polícia Federal encontrou um caminhão de dinheiro na cueca do senador Chico Rodrigues (DEM-RR), integrante da tropa de choque de Bolsonaro na Casa. Ele é suspeito de ser o “gestor paralelo” da Saúde do estado.

O ex-radialista Wilson Lima (PSC), que hoje governa o Amazonas, é outra liderança que deve sua eleição à onda que levou Bolsonaro ao Planalto e na ressaca elegeu apoiadores alinhados à sua visão de mundo. Ele é suspeito de desviar recursos da União no momento em que a rede hospitalar amazonense entrava em colapso.

Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal, é da turma que poderia ser eleito com ou sem a ajuda do capitão. No posto, ele não perde a chance de bater no peito e dizer que é apoiador de primeira linha do governo federal. A conexão é tanta que o atual ministro da Justiça, Anderson Torres, atuava até outro dia como secretário da Justiça do governador aliado.

Na CPI, ele vai responder sobre supostas fraudes na compra de testes de Covid-19.

Nem todos os prepostos do bolsonarismo nos estados mantiveram a paixão dos primeiros meses de governo. Muitos perceberam que as fantasias bolsonaristas não eram assim tão úteis quando, longe do cercadinho do Planalto, precisavam tomar decisões a respeito de segurança pública, construção e administração de estradas, pontes, hospitais, etc.

Carlos Moisés, de Santa Catarina, se desencantou com o ídolo e, sem apoio do Planalto, escapou de um tortuoso processo de impeachment que por muito pouco não colocou uma bolsonarista versão hard em seu lugar. O ex-bombeiro foi absolvido da acusação de desvios na compra de respiradores.

Outro exemplo de bolsonarista arrependido até a espinha é Wilson Witzel, o truculento ex-governador do Rio que virou pivô de um escândalo na área da Saúde no auge da primeira onda. Ele jura ser vítima de perseguição política.

Indiretamente, a lupa sobre possíveis más gestões de tantos aliados e ex-aliados colocam em primeiro plano uma espécie de Midas às avessas que hoje ocupa a Presidência. A capacidade do presidente em ajudar a eleger gente boa e graduada Brasil afora estará sob escrutínio no momento em que o primeiro governador pisar no Senado.

Em 2020, a imensa maioria dos eleitores, ao menos os que tinham memória um pouco menos curta do que a do presidente, manifestou um sonoro “não” ao pedido de votos de Bolsonaro a aliados para prefeituras como as de São Paulo e Rio de Janeiro. Celso Russomanno e Marcelo Crivella, ambos do Republicanos, puxaram a fila.

Eventual tropeço em meio à exposição de novos e velhos aliados do presidente na CPI pode servir como principal argumento para o eleitor fugir do Midas às avessas em 2022. Isso ampliará ainda mais os custos e os riscos para quem topar entrar no barco da aliança presidencial. A imagem de aliados abandonados na estrada estará ainda fresca no retrovisor.

Fim da corrupção? Ainda pelo cálculo das urnas, nada impede o eleitor de questionar, desde já, quais eram os critérios e mecanismos de controle do presidente que prometeu acabar com a corrupção ao fazer jorrar dinheiro, como ele mesmo diz, entre parceiros hoje encrencados.

Se a curiosidade permitir, este mesmo eleitor poderá se perguntar o que levou à queda do superintendente do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro. Militar da reserva, George Divério teve a exoneração publicada na edição de quarta-feira 26 do Diário Oficial da União.

Nomeado na gestão de Eduardo Pazuello há quase um ano, ele autorizou em novembro, em apenas dois dias, contratações que somavam R$ 28,8 milhões aos cofres públicos, com dispensa de licitação, para a reforma dos prédios e um galpão do ministério na capital fluminense. As empresas já haviam sido alvo de investigação.

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