Governança para combater a desigualdade

Faz certo tempo que li uma obra sobre a Segunda Guerra Mundial, em que havia uma carta escrita por uma menina ucraniana em 1941. Em meio a todo o horror daquele período dominado pelo nazismo, uma frase na correspondência ficou cravada na memória e ainda me causa calafrios. A criança, nascida em meio às agruras do ódio, da violência e da intolerância, dizia: “Mamãe, o mundo é um grande matadouro”. Essa passagem nunca envelheceu. E o mundo, tampouco, deixou de guerrear.

Empobrecimento: Mal-estar com miséria é o maior em dez anos

Em 2020, com a pandemia, nos vimos frente a frente com as ameaças do coronavírus, que intensificaram o desemprego e a fome em meio a uma crise climática sem precedentes. Agora, numa conjuntura ainda mais ameaçadora, a guerra entre Rússia e Ucrânia pode se transformar em verdadeiro ecocídio.

Eleições: Veja a quem os pré-candidatos nos estados apoiam

Nesse cenário, o Brasil irá às urnas. É chegada a hora de assumir compromissos políticos capazes de transformar o acrônimo ESG (Environmental, Social e Governance) em efetivo propósito estratégico que envolve práticas ambientais, sociais e de governança. Sim, são temas cada vez mais enraizados no espaço corporativo e — por que não? — transferir sua essência para o setor público, em especial, o Executivo Federal.

Higiene: Entenda por que tomar menos banhos faz bem à saúde

Na prática, isso significa tratarmos debates, disputas e planos de ação de forma gerenciada e em clima de paz.

Vamos por partes. Na seara ambiental, o Brasil tem várias vantagens e cito uma emblemática: o sol. Esse sol que abraçou o país e nos deu todas as ferramentas para liderar a transição energética via geração solar. Sem contar os ventos, sobretudo na Região Nordeste, onde a eólica ganha terreno.

Mas a pergunta aqui é: até quando jogaremos esse protagonismo fora? Ainda mais diante de um quadro de confronto bélico, continuar tomando decisões equivocadas poderá custar muito caro.

É aí que chegamos à questão social. Nunca foram tão graves no mundo as distâncias sociais geradas pela pandemia e pela guerra que jogou na pobreza quase 200 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, são mais de 50 milhões vivendo esse drama. Enquanto isso, bilionários ganharam US$ 1 trilhão durante a pandemia, e um grupo de pouco mais de 2 mil pessoas tem o equivalente ao que 6,4 bilhões têm. É um amontoado de desigualdades.

A governança, entendida como conjunto de ações estratégicas pensadas e executadas dentro de práticas legais e morais, serve para coroar os outros segmentos. Ela tem de ser eficaz e produtiva e nos levar para exercer uma ecopolítica que nada mais é do que esse exercício capaz de enxergar o planeta na sua fragilidade mas, ao mesmo tempo, na sua sustentabilidade.

Estou falando de um tratado de consciência política, uma comunhão homem-natureza que gera a verdadeira paz duradoura. Faz tempo que a frase “meio ambiente não dá voto” virou pó. Se há mais de dez anos existia a ideia de que o futuro não fala e não vota, hoje basta olhar em volta: ele bate às nossas portas e grita. A palavra? Socorro. O instrumento? Está em nossas mãos: o voto.

*Gustavo Krause, signatário da iniciativa por uma economia de baixo carbono Convergência pelo Brasil, foi ministro da Fazenda e do Desenvolvimento Urbano e do Meio Ambiente

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos