Governante de Dubai ordenou sequestro de filhas, decide juiz de Londres

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um juiz de família da Inglaterra decidiu nesta quinta (5) que o governante de Dubai, o xeque Mohammed bin Rashid al-Maktoum, ordenou o sequestro de duas de suas filhas e orquestrou uma campanha de intimidação contra sua ex-esposa, o que a obrigou a se exilar fora do país.

O caso veio à tona depois que a princesa jordaniana Haya bint al-Hussein, 45, fugiu para Londres no ano passado com as filhas do casal. Na Inglaterra, a sexta esposa do xeque iniciou um processo contra ele, de quem teria se divorciado secretamente no início de 2019, segundo contou.

Haya pediu ao juiz do Supremo Tribunal de Londres, Andrew McFarlane, proteção contra um casamento forçado que envolvia uma das filhas do casal. Segundo ela, o xeque queria casar uma das filhas do casal com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman (MBS).

MBS é acusado de envolvimento no assassinato do jornalista dissidente Jamal Khashoggi, além de receber críticas por violações de direitos humanos.

Haya também pediu ao júri proteção para ela e reivindicou a custódia das duas filhas que teve com o xeque -ele exige o retorno delas filhas aos Emirados Árabes.

No contexto deste caso, Haya também pediu ao tribunal que se pronunciasse sobre o destino de duas filhas que o xeque teve com outra de suas esposas, Shamsa e Latifa.

A princesa Shamsa desapareceu das ruas de Cambridge quando tinha 19 anos, em 2000. A princesa Latifa foi sequestrada por forças indianas do Oceano Índico em 2018, aos 32 anos, e retornada à força para Dubai.

Segundo o magistrado, o xeque "ordenou e orquestrou" o sequestro de ambas.

Em março de 2018, Latifa anunciou em uma transmissão de vídeo no YouTube que queria fugir do país. À beira das lágrimas, ela disse que seu pai a "torturou" e "a prendeu por três anos" após uma primeira tentativa de fuga, quando era adolescente em 2002.

Criticou um "pai que só pensa em sua própria imagem" e que "destruiu a vida de tantas pessoas". O vídeo foi publicado porque sua segunda tentativa de fuga, em 24 de fevereiro de 2018, falhou.

O governo de Dubai quebrou seu silêncio sobre o assunto em 17 de abril de 2018, confirmando que a princesa havia sido "devolvida" a sua família e estava "bem".

Shamsa tentou fugir do pai em 2000, quando passava férias na Inglaterra, aos 18 anos. Segundo o relato de Latifa, Shamsa foi encontrada após dois meses de fuga, dopada, devolvida em um jato particular e trancada.

A decisão do juiz londrino se baseou em probabilidades, ou seja, é mais provável que as alegações contra o xeque sejam verdadeiras do que não sejam.

As ações do xeque -que governa Dubai desde a morte do irmão, em 2006-, foram descritas pelo júri como um tipo de comportamento que pode desestabilizar as relações do Reino Unido e com os Emirados Árabes Unidos, um dos aliados do país no Oriente Médio.

Mohammed bin Rashid al-Maktoum se recusou a participar das audiências em Londres, às quais Haya comparecia com sua advogada especializada em divórcio, Fiiona Shackleton.

Após o pronunciamento do júri, ele disse via advogados que a decisão foi unilateral e que a decisão de tornar o processo público não protege as suas filhas da mesma com que outras crianças do Reino Unido são protegidas em casos de família semelhantes.

Mohammed bin Rashid al-Maktoum é também vice-presidente e premiê dos Emirados Árabes. Ele tem ao todo 25 filhos.