Governo admite ineficácia da cloroquina e outros medicamentos do "kit Covid"

·5 minuto de leitura
Brazil's President Jair Bolsonaro holds a box of chloroquine during an inauguration ceremony of the new Health Minister Eduardo Pazuello (not pictured) at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, September 16, 2020. REUTERS/Adriano Machado
Em outro trecho do relatório, o Ministério da Saúde afirma que os medicamentos também não devem ser utilizados em pacientes hospitalizados (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
  • O Ministério da Saúde admitiu que a cloroquina e sua derivada, a hidroxicloroquina, não funcionam contra o coronavírus

  • Em um parecer enviado à CPI da Covid, a pasta afirmou ainda que os outros medicamentos do chamado "kit Covid" também não têm eficácia contra a doença

  • A CPI apura se a existência de um gabinete paralelo ao Ministério da Saúde influenciou o atraso na compra das vacinas, o favorecimento de laboratórios e a compra de medicamentos do "kit Covid"

O Ministério da Saúde admitiu que a cloroquina e sua derivada, a hidroxicloroquina, não funcionam contra o coronavírus. Em um parecer enviado à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado a pasta afirmou ainda que os outros medicamentos do chamado "kit Covid" também não têm eficácia contra a doença. 

"Alguns medicamentos foram testados e não mostraram benefícios clínicos na população de pacientes hospitalizados, não devendo ser utilizados, sendo eles: hidroxicloroquina ou cloroquina, azitromicina, lopinavir/ritonavir, colchicina e plasma convalescente", diz trecho do documento enviado à CPI.

Leia também:

A nota técnica, datada do dia 8 de junho de 2021, foi divulgada inicialmente pelo jornal Metrópoles na manhã desta quarta-feira (14), e obtida também pela reportagem do Yahoo! Notícias.

Em outro trecho do documento, o Ministério da Saúde afirma que os medicamentos também não devem ser utilizados em pacientes hospitalizados. 

“A ivermectina e a associação de casirivimabe + imdevimabe não possuem evidência que justifiquem seu uso em pacientes hospitalizados, não devendo ser utilizados nessa população”, diz.

Duas notas técnicas foram enviadas à comissão a pedido de Humberto Costa (PT-PE), um dos senadores titulares da CPI, em ofício enviado à pasta no dia 18 de maio deste ano.

"Requer que sejam prestadas informações sobre solicitações à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do Sistema Única de Saúde (Conitec) para avaliação de incorporação de tecnologias ou elaboração de Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas relativas ao tratamento para Covid-19 e para o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina para a mesma doença".

A healthcare worker holds a packet of hydroxychloroquine sulfate, azitrophar and chloroquine diphosphate, which some doctors have been distributing to people who have tested positive for COVID-19, as part of a remedy kit for treatment, at the riverside community Santo Ezequiel Moreno, as healthcare workers travel to riverside communities during the coronavirus disease (COVID-19) outbreak, in the municipality of Portel, at Marajo island, Para state, Brazil, June 5, 2020. REUTERS/Ueslei Marcelino     SEARCH
Os profissionais de saúde também têm observado pacientes com hemorragias, insuficiência renal e arritmias decorrentes do uso dos medicamentos do “kit covid” (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

De acordo com a nota técnica, os autos foram encaminhados para avaliação do Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias e Inovação em Saúde (DGITIS/SCTIE/MS). O departamentem tem competência para atuar como Secretaria-Executiva da Conitec.

O documento foi assinado pela diretora do Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias e Inovação em Saúde, Vania Cristina Canuto Santos, e pela coordenadora da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do Sistema Única de Saúde, Andrea Brígida de Souza.

A CPI apura se a existência de um gabinete paralelo ao Ministério da Saúde influenciou o atraso na compra das vacinas, o favorecimento de laboratórios e a compra de medicamentos do "kit Covid" sem eficácia para o tratamento da doença.

Bolsonaro defende "tratamento precoce" com "kit Covid"

Embora o Ministério da Saúde tenha dito à CPI que das drogas não tem eficácia contra a Covid-19, conforme demonstram diversos estudos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vem defendendo fortemente, durante toda a pandemia, o "tratamento precoce" da doença.

Em 4 de fevereiro, durante uma live, Bolsonaro comentou o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. Segundo Bolsonaro, caso ficasse comprovado que o medicamento não funciona, ele pediria desculpas. “Pelo menos eu não matei ninguém”, completou.

No entanto, o uso de cloroquina, azitromicina e ivermectina, ineficazes contra a covid, tem gerado problemas em pacientes. Entre eles, pacientes esperam na fila de transplante de fígado pelo uso dos remédios que compõe o “kit covid”. Médicos relatam que três pessoas morreram com hepatite causada pelos medicamentos.

Os profissionais de saúde também têm observado pacientes com hemorragias, insuficiência renal e arritmias decorrentes do uso dos medicamentos do “kit covid”. 

Médicos relatam que, com o agravamento da pandemia de coronavírus no Brasil, a quantidade de pacientes que usam os remédios sem eficácia também aumentou.

Brazil's President Jair Bolsonaro holds a box of chloroquine outside the Alvorada Palace, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Brasilia, Brazil, July 23, 2020.REUTERS/Adriano Machado
Entre os principais remédios indicados para uso estão a cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina. Nenhum desses medicamentos teve eficácia comprovada contra a Covid (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Quais são os remédios do kit covid que não funcionam?

Entre os principais remédios indicados para uso estão a cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina. Nenhum desses medicamentos, no entanto, teve eficácia comprovada contra a Covid.

Além disso, quando usados incorretamente, podem trazer danos à saúde e até levar a morte por hepatite medicamentosa.

  • Cloroquina e hidroxicloroquina: são medicamentos utilizados no tratamento da malária, lúpus e artrite reumática e também foi cogitada para tratamento da Covid. Porém, estudos mostraram que não houve diferença entre pacientes que tomaram e aqueles que não tomaram esses fármacos e, portanto, descartaram o uso da droga;

  • Ivermectina: é um antiparasitário usado para combater vermes, piolhos e parasitas em geral. É um dos medicamentos mais utilizados com a intenção de prevenir a infecção pela covid, porém não há estudos que comprovem essa capacidade do medicamento;

  • Azitromicina: é frequentemente usada no tratamento de infecções respiratórias ou sexualmente transmissíveis e trata-se de um medicamento que faz parte do grupo dos antibióticos com efeito antibacteriano. Da mesma maneira que as outras drogas, seu uso foi descartado no combate à Covid.

Juíza proíbe Bolsonaro de fazer propaganda

Em abril deste ano, a Justiça Federal em São Paulo proibiu que a Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) do governo Bolsonaro faça campanhas publicitárias em prol do chamado "tratamento precoce" contra a Covid-19.

A decisão liminar foi expedida na noite desta quinta-feira (29) pela juíza Ana Lucia Petri Betto também obrigada que haja uma retratação pública dos quatro influenciadores contratados pelo governo Bolsonaro para defender o que foi chamado de "atendimento precoce" em redes sociais.

"Que] a SECOM se abstenha de patrocinar ações publicitárias, por qualquer meio que seja, que contenham referências, diretas ou indiretas, a medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, especialmente com expressões como 'tratamento precoce' ou 'kit-covid' ou congêneres", diz a magistrada em trecho da decisão.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos