Governo argentino e produtores travam disputa por restrição a exportações de carne

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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - O governo argentino decidiu proibir as exportações de carne durante um mês, em uma tentativa de conter a inflação que, no acumulado de 12 meses, já chega a 47,2%.

"Queremos garantir que o produto seja acessível ao consumidor argentino e combater práticas especulativas no setor da exportação", afirmou o ministro de Desenvolvimento do país, Matías Kulfas.

A decisão causou revolta entre produtores e exportadores. Em retaliação, eles anunciaram para esta quinta-feira (20) uma greve de, no mínimo, nove dias do abastecimento interno do produto.

Já há relatos desde a aduana de que as exportações começaram a ser bloqueadas, mesmo com a decisão do governo não tendo sido oficializada. Na tarde desta quarta-feira (19), os produtores debatiam a ameaça de greve.

Produtores dizem que, por enquanto, não há risco de desabastecimento. Mas um desentendimento entre o campo e o governo, se prolongado, poderia levar a isso. Na dúvida, muitos argentinos reservaram alguns momentos a mais neste dia para ficar na fila dos açougues.

"Eu vou me garantir, pelo menos para o fim de semana", diz Alejandra Bermúdez, que fazia compras na rede de supermercados Coto.

A decisão de interromper as exportações gerou apreensão no mercado e criou uma contradição com o próprio discurso do presidente Alberto Fernández, que já havia afirmado que a Argentina precisa das exportações para ter acesso a moeda estrangeira. Desde 2019, há diversas barreiras para a entrada de dólares no país.

Agora, Fernández diz que a situação é diferente, porque a pressão de compra por parte da China vinha aumentando os preços da carne no mercado interno, fazendo subir a inflação. O país asiático compra 75% da carne exportada pela Argentina.

O gesto corresponde também a uma ação política. A ala mais à esquerda da coalizão peronista que governa o país aplaude a proibição da exportação.

"É preciso garantir que o argentino tenha carne barata na mesa", disse o ativista Juan Grabois, líder de um dos movimentos sociais mais próximos ao governo, o Pátria Grande.

Já para Daniel Pelegrina, da Sociedade Rural Argentina, o fechamento das exportações é um passo atrás e um erro.

"Causará um dano irreparável a um setor produtivo que demonstrou que gera emprego e atividade em todo o território nacional. A decisão destrói a imagem da Argentina como provedor confiável e voltaremos a entregar o mercado a nossos principais competidores", disse.

Pelegrina também afirmou que a medida pode reduzir o preço da carne no curto prazo, mas não funciona no longo prazo -e que, no final, os preços continuarão subindo.

"Isso já fracassou no passado e vai continuar fracassando. Se for se manter no longo prazo, irá fazer com que os investimentos na área desapareçam, esvaziando-a", disse Horacio Salaverri, presidente da Confederação de Associações Rurais de Buenos Aires e La Pampa.

Para Fernando Canosa, consultor da área de produção de carne, a decisão irá beneficiar o Uruguai.

"São eles [os produtores uruguaios] que acabam absorvendo esse mercado da carne argentina, sobretudo no Brasil, porque se vende como algo de qualidade similar, ou mesmo superior."

Esta não é a primeira proibição à exportação para conter preços por parte da atual gestão. O mesmo foi feito com o milho, em janeiro, mas a medida foi logo derrubada por conta de pressão dos produtores.

Embora em queda nos últimos anos, a carne é um dos setores mais importantes das exportações argentinas, correspondendo a 10% do comércio exterior do país.

A tensão entre o campo e o governo traz uma recordação traumática aos argentinos. Em 2006, o então presidente Néstor Kirchner (1950-2010) também determinou interromper as vendas de carne ao exterior. A política se aprofundou nas duas gestões de sua sucessora, Cristina Kirchner (2007-2011).

Em 2008, houve um confronto de tom mais elevado, com a implementação de taxas por parte do governo às transações comerciais de produtos agrícolas e várias manifestações de rua.