Governo Bolsonaro chega ao milésimo dia vivendo três crises por mês

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·5 minuto de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images
Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images
  • Bolsonaro completa mil dias no Planalto com recordes de reprovação da sua gestão

  • Pesquisas eleitorais têm mostrado domínio de Lula nas intenções de voto para ano que vem

  • Gestão do presidente tem sido marcada por constantes crises

No dia 8 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro abriu a reunião no terceiro andar do Palácio do Planalto pedindo a opinião de seus ministros sobre qual caminho deveria seguir: dar continuidade ao discurso radical dos atos de 7 de setembro ou serenar os ânimos exaltados. Com uma caneta nas mãos e uma folha de papel em branco, Bolsonaro disse que traçaria duas colunas com os votos de cada um dos auxiliares sobre o rumo que deveria tomar diante do ápice da tensão institucional que ele próprio criou com a cúpula do Judiciário. 

Alguns auxiliares defenderam que era hora de pacificar; outros argumentaram que o presidente deveria ouvir o “apelo das ruas”e não recuar. O diálogo simboliza um movimento frequente ao longo dos mil dias de governo, completados hoje: levantamento do EXTRA mapeou cem crises no período, uma média de três por mês.

Leia também:

Bolsonaro estava prestes a esticar a corda mais uma vez quando foi convencido pelo ex-presidente Michel Temer a escrever uma carta pública apaziguando a relação com a Corte, em geral, e com o ministro Alexandre de Moraes, em particular, já que o magistrado foi o destinatário do xingamento mais pesado (“canalha”) e da ameaça mais robusta — não cumprir decisões judiciais. Apesar desse gesto, a harmonia entre os Poderes foi abalada, e os limites das instituições, testados mais uma vez. 

Pressionado pela queda de popularidade — 53% avaliam a gestão como ruim ou péssima, segundo os institutos Ipec e Datafolha —, por quase 600 mil mortes na pandemia, por 132 pedidos de impeachment e por investigações no STF e na CPI da Covid, o presidente tentou reagir elevando o tom de seus ataques em diversos momentos no curso do governo.

Nessa estratégia, voltou sua ira contra governadores, integrantes do Congresso, membros do Supremo, a imprensa, o vice, Hamilton Mourão, e até mesmo contra auxiliares que o incomodavam, casos dos ex-ministros Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Sergio Moro (Justiça), que se demitiu acusando Bolsonaro de interferir na Polícia Federal. 

Ao todo, 19 ministros deixaram o governo, o que representou uma mudança a cada 52 dias. Durante a pandemia, por exemplo, antes da entrada de Marcelo Queiroga, a Saúde foi comandada por outros três gestores.

Ausência de ‘projeto de futuro’

Um dos reflexos das interrupções no Ministério da Saúde é o atraso da vacinação da população brasileira — por outro lado, Bolsonaro insiste em defender medicamentos ineficazes, como fez durante o discurso na Assembleia-Geral da ONU, provocando nova crise.

— A experiência do governo Bolsonaro é inédita na história do Brasil. Estamos usando para avaliar este governo a medida e os parâmetros que usamos para avaliar o gestor público. Só que esses parâmetros não são adequados, porque o governo Bolsonaro não se propõe nem a gerir a coisa pública nem a criar um projeto de futuro para o país — diz a historiadora Heloísa Starling, autora, junto com Lilia Moritz Schwarcz, de “Brasil, uma biografia” (Companhia das Letras), e professora da UFMG.

Boa parte das crises foi induzida por Bolsonaro, que chegou a participar de atos que pediam o fechamento do Congresso e do STF. Em um deles, em abril de 2020, discursou diante do Quartel-General do Exército, em Brasília, com militantes pedindo a intervenção militar. Em busca de demonstrar o apoio irrestrito das Forças Armadas, o presidente demitiu o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, e trocou os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, um movimento inédito no período democrático. 

A outra parte da crise foi gerada pelo próprio entorno de Bolsonaro e teve a participação do presidente. A demissão de Moro, até então estrela do time, virou um inquérito no STF e culminou em outras crises com a divulgação de um vídeo de uma outra reunião ministerial que entrou para a história, a do dia 22 de abril de 2020.

Os desafios do desemprego e da inflação 

Foto: REUTERS/Adriano Machado
Foto: REUTERS/Adriano Machado

Em meio às crises vividas pelo governo Bolsonaro, a situação econômica do país foi se deteriorando. Se, nos dois primeiros anos, o Brasil conseguiu manter a inflação dentro das faixas da meta do Banco Central, em 2021 ela será mais que o dobro. O IPCA-15 já passa de 10% em doze meses, e a previsão é que feche o ano em 8,35%, quando o centro da meta é de 3,75%, com tolerância até 5,25%. O preço médio do litro da gasolina registrou alta de 40,3% desde o início do governo, passando de R$ 4,33 para R$ 6,076. 

Considerado um dos “desafios urgentes” do país , a fila de desemprego passou de 13 milhões de pessoas para as atuais 14,4 milhões.

A expectativa para os próximos 375 dias de governo, a contar de hoje até o primeiro turno das eleições de 2022, é que as tensões sejam amplificadas, avalia o cientista político Humberto Dantas, da Universidade de São Paulo.

— Ele vai radicalizar muito ainda, porque não consegue ir para o segundo turno sem radicalizar, a não ser que a economia melhore muito. Não vejo Bolsonaro atenuar para absolutamente nada. Ele precisa manter viva essa chama do radicalismo.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos