Governo Bolsonaro defendeu liberação mais dinheiro para "mídia aliada", diz jornal

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BRASILIA, BRAZIL - JUNE 21: The blogger Allan dos Santos smokes during the protest in support of Brazilian President Jair Bolsonaro amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Esplanada dos Minsitérios on June 21, 2020 in Brasilia. Brazil has over 1.000,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 50,000 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
BRASILIA, BRAZIL - JUNE 21: The blogger Allan dos Santos smokes during the protest in support of Brazilian President Jair Bolsonaro amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Esplanada dos Minsitérios on June 21, 2020 in Brasilia. Brazil has over 1.000,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 50,000 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
  • Relatório da Polícia Federal mostra que o governo Bolsonaro defendeu a liberação de mais verbas a veículos de comunicação considerados "mídia aliada"

  • O ex-chefe da Secom, Fabio Wajngarten, se aproximou do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, investigado por fake news

  • As mensagens foram obtidas pela PF no inquérito dos atos antidemocráticos

O governo Bolsonaro, por meio da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social), defendeu a liberação de verba publicitária da Caixa Econômica Federal para veículos de comunicação classificados como "mídia aliada", revelam mensagens de WhatsApp colhidas pela Polícia Federal ao longo do inquérito dos atos antidemocráticos e publicadas pelo jornal O Globo.

Segundo relatório da PF, em abril de 2019 Fabio Wajngarten assumiu o comando da Secom e se aproximou do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos. Naquela ocasião, Wajngarten se apresentou como um empresário de mídia "muito" próximo de executivos de emissoras de TV. Afirmou ainda que poderia aproximar o blogueiro desses veículos e que, naquela semana, já havia promovido encontros de parlamentares com a cúpula do SBT, da Band e que iria se encontrar com "bispos da Record".

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Em diálogo divulgado pelo jornal O Globo, Wagjngarten demonstrou preocupação com o atraso no pagamento de verbas de publicidade a quem classifica como "aliados". Ele diz ter sido informado que a "Caixa", em provável referência à Caixa Econômica Federal, estaria "devendo dinheiro" à Band e "RTV" (possível citação à RedeTV!).

Fabio Wajngarten: "Caixa devendo dinheiro pra BAND, RTV".

Allan dos Santos: "E como foi?".

Fabio Wanjgarten: "Os aliados estão furiosos".

Fabio Wajngarten: "General sentou em cima e não paga nenhuma nota passada".

Fabio Wajngarten "Provocando iminentes tumores".

Allan dos Santos: "Desnecessário".

Fabio Wajngarten: "Totalmente desnecessário".

O relatório da PF não identifica o "general" citado por Wajngarten, mas, à época das mensagens, a Secom era vinculada à Secretaria de Governo, chefiada pelo general Carlos Alberto Santos Cruz. O militar foi alvo de ataques de bolsonaristas e acabou sendo demitido pelo presidente.

Wajngarten relatou que tentou aproximar Bolsonaro da cúpula da Band e chegou até a fazer uma ligação por meio de videoconferência entre o presidente e Johnny Saad, dono do Grupo Bandeirantes, e Paulo Saad, vice-presidente da emissora.

Em seguida, Allan dos Santos avalia a Wajngarten que era preciso trazer "esses caras" para perto do governo, com o que o então chefe da Secom concordou.

Allan dos Santos: "É preciso trazer esses caras pra perto, não afastá-los".

Fabio Wajngarten: "Na hora convidei-os".

Fabio Wajngarten: "Óbvio".

Fabio Wajngarten: "Ninguém está vendo".

Fabio Wajngarten: "Uma barbaridade".

Fabio Wajngarten: "Mídia aliada".

Allan: "Excelente".

Em outro momento do diálogo, Allan dos Santos compartilhou um link de uma notícia sobre a decisão do Ministério Público que atua perante o Tribunal de Contas da União (TCU) de pedir à Corte que obrigue a Secom a distribuir verbas publicitárias do governo com base em critérios técnicos. Naquele momento, em janeiro de 2020, o jornal Folha de S. Paulo revelara que Wajngarten mantinha contratos, por meio de sua empresa FW Comunicação e Marketing, com as emissoras Record e Band, que recebiam recursos da Secom.

Contrariado, Wajngarten respondeu: "Eles querem o retorno de 80% para a Globo. Vergonhoso". Na sequência, o blogueiro bolsonarista sugeriu: "Bora bater sem parar". O então chefe da Secom agradeceu.

Segundo as mensagens analisadas pela PF, Wajngarten criou um grupo de WhatsApp chamado "Mídia Pensante — SECOM" e adicionou Allan dos Santos. Um dos integrantes chegou a sugerir em uma mensagem: "Fabio (Wajngarten), aquela ideia de comunicação estratégica e contrainformação. Na minha opinião, você deve criar um departamento para isso. Você já até concordou com a ideia. Vamos implementá-la?". Wajngarten, sem titubear, respondeu: "Vamos implementar".

Em outra mensagem, enviada por Allan dos Santos a um contato chamado por ele de "Eduardo", em provável referência ao deputado federal Eduardo Bolsonaro, ele diz: "Precisamos da Secom para implementar uma ação que desenhamos aqui", afirma o blogueiro, que sugeriu a indicação de uma pessoa para assumir a Secretaria de Radiodifusão. "Seu pai disse que sim", alertou Allan dos Santos.

Nessa mesma mensagem, Eduardo diz que tem o contato de Douglas Tavolaro, ex-executivo das emissoras Record e CNN. "O Douglas diz que a linha será da Record, que o que vem dos EUA é só o nome CNN", afirma o filho do presidente.

Questionado pelo jornal O Globo sobre o teor das mensagens, Fabio Wajngarten disse, por e-mail, que sua gestão foi "técnica e profissional". Ele foi questionado sobre se era comum a sua atuação para liberar verbas atrasadas de estatais para veículos considerados "aliados". Sem mencionar o assunto, Wajngarten respondeu que "se alguma repartição resolveu não pagar por qualquer serviço prestado, cabe ao bom gestor resolver a falta de pagamento".

"Minha gestão sempre foi técnica e profissional. Cabe à Secom atender a todos os veículos de maneira equânime. Se alguma repartição resolveu não pagar por qualquer serviço prestado, cabe ao bom gestor resolver a falta de pagamento. A redução de verbas condiz com uma política de mídia técnica. Vale esclarecer ainda que não faço parte desse inquérito", disse o ex-secretário.

Em nota, a Caixa diz que sua publicidade é feita por agências contratadas por licitação e que divulga as despesas com propaganda na internet. No endereço, no entanto, não é possível saber qual o total de verbas destinadas a cada veículo. Em pedidos abertos via Lei de Acesso a Informação, a Caixa alega que a divulgação poderia prejudicar sua estratégia mercadológica.

Em nota, a RedeTV! informou que não fornece dados dos seus contratos comerciais. "O único relacionamento com o senhor Fabio Wajngarten era como chefe da Secom, nos processos diários", disse em comunicado. "O jornalismo da emissora é reconhecidamente imparcial, plural e independente" e afirmou que o seu share de participação é "muito inferior do que seria o justo pela mídia técnica". "Nesse sentido, o faturamento da RedeTV! é extremamente menor do que, por exemplo, o da TV Globo", informou.

A CNN Brasil, também por meio de nota, disse que "não tem nenhuma relação com o Sr. Fabio Wajngarten" e que "desconhece qualquer contato que o Sr. Fabio Wajngarten possa ter feito com a emissora fora de suas atribuições enquanto era Secretário de Governo". A emissora também informou que Douglas Tavolaro não faz parte dos quadros da CNN Brasil desde março.

Em nota, o Grupo Bandeirantes afirma que é "reconhecido pela qualidade e imparcialidade de seu jornalismo" e que as suas "relações com chefes do Secom são institucionais como as de qualquer grupo jornalístico —inclusive O Globo". "Entra governo e sai governo, somos acusados ora de ser de oposição, ora de ser de situação. Nada mais natural para uma emissora que pratica um jornalismo sempre — e apenas — ao lado do cidadão".

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