Para entender Bolsonaro, é preciso ouvir quem já foi (ou será) alvejado em seu governo

Luiz Henrique Mandetta, alvo da caneta de Bolsonaro. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters
Luiz Henrique Mandetta, alvo da caneta de Bolsonaro. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

No fim das eleições em 2018, lembro de ter travado uma longa discussão com um motorista de aplicativo sobre as expectativas em torno do governo Jair Bolsonaro. Nossos prognósticos estavam em campos opostos, mas ao fim da corrida um elogiou o outro pela paciência e os argumentos, que não descambaram para ofensas nem estereótipos relacionados a minions e coisas do tipo.

Em um ponto concordávamos: conversas tete-a-tete tendiam a transcorrer de forma adulta, sem coices, diferentemente do que nos acostumamos nas redes sociais, que nublavam nossos julgamentos à distância e transformavam interlocutores em sombras desfiguradas, ora assustadoras, ora idealizadas.

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Dito isso, ele me provocou. Disse que meu julgamento sobre seu candidato recém-eleito também foi embasado à distância.

O tempo, apostava ele, mostraria que minha imagem do futuro presidente era uma sombra fantasmagórica. E que bastaria vestir a faixa presidencial para que Jair Bolsonaro deixasse de fazer ou falar as bobagens que marcaram suas passagens pelo Exército e pela Câmara dos Deputados -- recursos usados pelo candidato vencedor apenas para chamar a atenção. Tudo da boca para fora. Agora, dizia ele, a conversa era séria, e Bolsonaro sabia disso.

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Faz quase um ano e quase quatro meses que Bolsonaro tomou posse. Eu nunca mais encontrei aquele motorista educado, interessado e esperançoso, mas adoraria saber como ele avalia a postura do agora presidente diante do maior desafio de sua vida adulta: liderar um país em uma pandemia.

Diferentemente de alguns colegas, que conviveram de perto com o mandatário desde os tempos de deputado até sua campanha vitoriosa à Presidência, sigo sem saber quem é Bolsonaro além das palavras que profere ao microfone e em suas contas oficiais no Twitter e Facebook. Meu julgamento antes da posse estava equivocado: eu não imaginava que ele seria capaz de me surpreender negativamente. Mas surpreendeu. Sobretudo na crise do coronavírus. Está de parabéns.

Lembrando daquela conversa pós-eleição, me fio agora não no que dizem os anti-bolsonaristas à distância para ajustar expectativa e realidade, e sim no que testemunham seus antigos colaboradores.

Um deles quebrou todos os pedregulhos do caminho até o Palácio do Planalto. Gustavo Bebianno morreu de infarto há exato um mês, e até hoje sua família não recebeu uma mísera palavra de condolências por parte do presidente.

Sobre o ex-aliado, o ex-secretário-geral da Presidência deixou registrado em carta: “o senhor cultiva e alimenta teorias de conspiração, intrigas e ódio, e ensinou seus filhos a fazerem o mesmo. O melhor discípulo foi o Carlos, pois é o que tem maior conexão espiritual com você. O problema é que ele é muito forte, muito intenso, e o senhor perdeu o controle sobre o 'pitbull'. Hoje, ele morde aleatoriamente as pessoas, sem que o senhor consiga segurá-lo. Pior do que isso, quando o senhor tenta segurá-lo, ele se vira e morde o senhor mesmo.”

Demitido da Secretaria de Governo no início da gestão, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz também saiu pelas portas dos fundos, dizendo que o presidente “tem valores que não coincidem com os meus, ele tem atitudes que eu acho que não têm cabimento”. Em uma entrevista, afirmou ainda que se alguém fizer uma análise das bobagens que se têm vivido, é um negócio impressionante. “Um show de besteiras. Isso tira o foco daquilo que é importante.”

Outro ex-auxiliar, general Maynardi Santa Rosa, que trabalhou na Secretaria de Assuntos Estratégicos, deixou o cargo após perceber que o presidente “se cercou de um grupo de garotos que têm entre 25 e 32 anos que fazem uma espécie de cordão magnético em torno e filtram o acesso”. Para ele, Bolsonaro é até honesto e idealista, mas falta a ele “um pouco de consistência”. Falta também perceber que “governar é muito mais que uma ação entre amigos”.

A lista de testemunhos está prestes a aumentar.

Na crise do coronavírus, Bolsonaro fritou em público seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a quem disse faltar humildade.

Mandetta não diz em público tudo o que pensa do capitão, mas já admitiu que sua postura à frente da pandemia confunde a população, que não sabe se obedece às recomendações do ministro ou do presidente, que já chamou o coronavírus de gripezinha.

Depois da entrevista ao Fantástico, em que indiretamente pediu que o presidente dê o exemplo e tenha disciplina e respeito pela ciência, a situação de Mandetta no governo ficou insustentável. Ele mesmo já avisou os auxiliares que Bolsonaro procura um substituto. Resta saber quem vai topar o desafio quando as experiências internacionais já mostraram que o receituário bolsonarista de combate à doença produziu uma carnificina.

Nesta quarta-feira (15), o primeiro a sair foi o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, que em carta escancarou: a gestão Mandetta acabou, só falta agora saber se o anúncio do presidente virá de forma respeitosa ou pelo Twitter. A demissão, porém, não foi aceita pelo ministro.

Novela à parte, caso as saídas sejas confirmadas, Mandetta será mais um que pode prestar um favor ao país contando detalhes de sua passagem pelo governo e seu convívio com Bolsonaro. Médico filiado ao DEM, será mais um a sair pela porta dos fundos sem poder ser “acusado” de inclinações comunistas.

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