'Governo Bolsonaro demonstrou ter muitas semelhanças com regime castrista', diz ativista cubana

Um dos nomes dos protestos que tomaram Cuba em 2021, a curadora de arte e ativista Carolina Barrero, de 35 anos, explica como a internet serviu para unir a sociedade civil do país e defende que a oposição não pode ser resumida ao conservadorismo político e ideológico, “uma ficção do regime” para dividi-la. Exilada em Madri, na Espanha, Barrero está no Brasil a convite da Fundação FHC e criticou, em entrevista ao GLOBO, como o presidente brasileiro instrumentaliza a ditadura cubana: “Bolsonaro esquece que seu mandato e o legado que está deixando é muito parecido”.

Quais as diferenças dessa nova dissidência para as anteriores?

Eu apontaria três diferenças. A primeira é a internet, que propiciou um espaço de encontro, de debate, de crítica de exposição e denúncia, como um fórum virtual, com todas as limitações que as redes sociais têm como o tema das fake news. Os cubanos conseguiram fazer um bom uso dessas ferramentas para se conectar. Estamos conectados, que é o contrário do que o autoritarismo e o totalitarismo buscam, que é precisamente separar e dividir os cidadãos, isolá-los, para evitar que eles se associem, que as ideias se tornem um bem comum. A tática sempre foi o isolamento e o silêncio. A internet serviu para mitigar os efeitos dessa tática repressora. Serviu para unir a sociedade civil e inspirar outras pessoas. Serviu de educação cívica.

A segunda diferença seria que essa geração não deve diretamente nada à revolução. Não que as outras devessem, mas havia uma sensação geral na consciência social de que a Revolução os havia alfabetizado, o que é verdade. Essa sensação de dever à educação e à saúde. No entanto, os mais jovens agora não nos sentimos associados de nenhuma maneira a esse processo inicial. Queremos ter o poder de decisão sobre que tipo de país queremos ter e queremos sobretudo construir esse país, porque Cuba é um país devastado, isso é visualmente muito evidente, mas também estruturalmente, moralmente, em todos os sentidos, como se tivesse passado por uma guerra. É uma juventude que sente que não deve nada a ninguém, só a ela mesma.

E a terceira diferença é que o ditador [Miguel] Díaz-Canel, que foi designado por Raúl Castro, não votado, e não era uma referência para ninguém, não tomou nenhuma decisão administrativa que tenha algum mérito. Em termos objetivos, foi um desastre atrás do outro em todos os âmbitos, isso sem falar na repressão: na gestão da pandemia, que não sabemos quantos foram os milhares de mortos; na tarefa de ordenamento econômico, na falta de medicamentos e alimentos, em como ele priorizou a construção de hotéis, em um momento que não havia infraestrutura médica e hospitalar... Uma desconexão total com a realidade que beira a falta de respeito. Nunca tivemos tantos cartazes na rua que ofendem diretamente o presidente. Sem querer fazer apologia a Fidel Castro, pelo menos ele tinha o mito de haver lutado contra um ditador e de tê-lo expulsado. Díaz-Cañel não tem nada disso, não tem nenhum prestígio e é um problema para a própria junta militar e a casta burocrática que dirige Cuba.

O que querem as pessoas que foram às ruas?

Se vemos e ouvimos os vídeos dos protestos de julho de 2021, a palavra mais dita é liberdade. A segunda coisa que mais se escutou foi: “não temos medo”, “unidos somos mais fortes”. Tudo isso mostra a vontade de acabar com o regime autoritário, com a ditadura, e poder ter um país inclusivo, plural, não um poder monolítico e centralizado. Se algo ficou claro é que Cuba é um país plural, vibrante, com um ecossistema próprio, que politicamente abarca todos os espectros políticos, desde os mais conservadores até os mais progressistas, liberais, sociais-democratas, incluindo grupos de jovens anarquistas e comunistas que querem reformar o regime. Falamos de uma oposição plural e madura, que tem preocupações cidadãs, que reivindicam os direitos das minorias. A comunidade LGBTQ em Cuba é fortíssima. Assim como ativistas feministas, antirracistas. O Movimento San Isidro, por exemplo, surgiu em um bairro popular e é liderado por negros.

Aqui no Brasil se associa muito a oposição cubana à direita, seja por algumas lideranças que repetem slogans trumpistas, seja pela comunidade cubana em Miami, mais conservadora. Como você se definiria politicamente?

Antes de responder queria deixar claro que essa luta é contra o autoritarismo, e a democracia implica o respeito por qualquer posicionamento político. Seja de direita ou de esquerda. E colocar todos como conservadores de direita é uma ficção, é parte da estratégia do castrismo para nos dividir. O que eles fazem é discriminar qualquer posição política que não seja o comunismo. Qualquer que seja seu posicionamento, todo cubano, no exílio ou não, tem o direito de pensar o destino de Cuba. O que mais atormenta o regime é que o oposição também abarca a própria esquerda. Um dos manifestantes era o estudante de física Leonardo Romero Negrín, que foi preso e torturado por levar um cartaz escrito: Socialismo sim, repressão não.

Mas e a senhora, como se identificaria politicamente?

Considero que o posicionamento político importa menos e reforça a extrema polarização. Mas minhas ideias políticas são de uma liberal progressista. Uma liberal do século XIX, ou seja, que defende as liberdades e os direitos das minorias, das mulheres, antirracista. E progressista, próxima às ideias social-democratas, do Estado como garantidor e regulador das desigualdades, que defende educação e saúde públicas. Respeito a opinião política de todos, desde que não seja um genocida e ditador, que quer impor sua ideologia acima dos outros.

Quem gostaria que fosse o próximo presidente cubano?

Eu gostaria, antes de escolher quem seria o novo presidente, de ter instituições democráticas sólidas, que garantissem o exercício da democracia plena e que nunca mais um tirano possa chegar ao poder ou se manter lá. Isso me importa mais. O conteúdo da Constituição, as competências da Procuradoria-Geral, do Tribunal Supremo, a conformação do Parlamento, que tipo de sistema iremos implantar, presidencialista ou parlamenta. A solidez de tudo isso é muito mais importante do que qual partido ou ideologia. E além de tudo, criar um país com cultura democrática, de respeito aos direitos humanos, que isso esteja em nosso tecido social. Com isso teremos governos que sejam sempre transitórios e que sirvam ao povo, e não o contrário.

Entendo isso, mas creio que nunca é totalmente seguro que a democracia esteja garantida...

Não, e aqui no Brasil, de fato, vemos como é atualmente a situação dos direitos humanos e ambientais. Mataram um jornalista e um defensor dos direitos dos povos originários, e é completamente inaceitável as declarações do presidente, que não assume nenhuma responsabilidade, são declarações quase infantis. É claramente desrespeitoso com as minorias. O que o presidente Bolsonaro esquece é que seu mandato e o legado que está deixando é muito parecido. Seu próprio governo demonstrou ter muitas semelhanças com o regime castrista. Falamos ainda há pouco de como o regime cubano era machista, racista, elitista, classista, fascista, igual aqui em muitos aspectos, de desprezo pelas minorias. E isso é algo que os une. Porque os extremos ideológicos, de direita ou de esquerda, quando chegam aos extremos se tocam. A polarização extrema que o Brasil vive, assim como a Colômbia, é um problema que atenta contra a democracia.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos