Suspeita de propina em vacina derruba aliado. Quem mais cai?

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Jacira Casemiro mourns her mother Maria Jose Casemiro, 79, who died from the coronavirus disease (COVID-19), during her funeral at Inhauma cemetery, in Rio de Janeiro, Brazil March 31, 2021. REUTERS/Pilar Olivares
Mulher vela sua mãe, morta por covid-19, no cemitério Inhauma, no Rio de Janeiro. Foto: Pilar Olivares/Reuters

Não perca as contas.

Em uma semana, o deputado Luis Miranda (DEM-DF), da base de apoio de Jair Bolsonaro na Câmara, contou em entrevistas e também à CPI da Pandemia que avisou o presidente sobre um suposto esquema de desvios no Ministério da Saúde.

O imbróglio envolveria a compra das vacinas Covaxin, mas não só.

Entre as irregularidades apontadas nesta compra estava a diferença em valores e quantidades a serem entregues e também de endereços de empresas que receberiam os recursos, além de uma pressão incomum para que o imunizante indiano, diferentemente de outros fornecedores, fosse logo adquirido, com ou sem aprovação da Anvisa.

Irmão de um funcionário de carreira no ministério, Miranda disse que o capitão nada fez diante do alerta, embora demonstrasse resignação: a encrenca era coisa do líder de seu governo na Câmara e mexer ali seria arrumar encrencas.

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Nada muito diferente do que já tinha dado a entender o general Eduardo Pazuello ao deixar o Ministério da Saúde. Pode estar ali a explicação para, mesmo enxotado, ter sido tratado a pão-de-ló em passeios e promessas de outros cargos.

Quem duvidava do potencial explosivo do relato dos homens-bomba do ministério, que prometiam abalar as estruturas da República, não duvida mais.

Bolsonaro, no começo da semana, se saiu dizendo que não tem como saber tudo o que acontece em cada ministério e negou ter sido alertado sobre qualquer falcatrua. Uma mudança de 180 graus na postura do líder onipotente que falava até outro dia sobre os poderes de sua caneta e do seu pendor anti-corrupção. Um pendor que precisou abandonar na estrada da boiada um ex-ministro encrencado para não ter peso sobre a estrutura mambembe que o fixou no poder.

Só que a casa já tinha começa a ruir.

A bomba fez efeito.

Numa estratégia clássica segundo a qual se não há corpo não há crime, o governo anunciou o cancelamento da compra da vacina que tinha como contra-indicação uma imensa dor de cabeça aos compradores.

O deputado Luis Miranda contou à revista Crusoé que um lobista ligado ao diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, ofereceu a ele propina de seis centavos de dólar por cada dose da Covaxin. Tudo para que o deputado falastrão não atrapalhasse o negócio —como atrapalhou.

Dias, que caiu logo após a revelação, era uma indicação do deputado Ricardo Barros, citado nominalmente por Miranda em seu depoimento à CPI. Barros é o ponto de conexão entre o governo e o centrão, o atual guarda-metas de Bolsonaro no Congresso. Hoje é também o ponto de conexão de um vórtice que promete levar meio mundo para o ralo.

No mesmo dia, em entrevista à Folha de S.Paulo, o representante de uma empresa que vende vacinas (não a Covaxin, neste caso) afirmou ter recebido do governo pedido de propina para fechar o negócio. De acordo com o relato de Luiz Paulo Dominguetti Pereira, da Davati Medical Supply, Ferreira Dias, o indicadod e Barros, prometeu bater o martelo da compra se ganhasse US$ 1 por dose de imunizante.

A Davati Medical Supply oferecia 400 milhões de doses da AstraZeneca por US$ 3,50 a unidade. Faça as contas, torcedor brasileiro que saiu de verde e amarelo nas ruas pelo fim da corrução.

Neste ponto a história tem um buraco. A AstraZeneca negociou diretamente a venda da vacina com o ministério —sem o atravessador que se apresentou como negociante para a Folha.

Uma das hipóteses é que o ministério possa ter sido vítima de um golpe. Ou seja, alguém se passou por vendedor sem ter o que vender.

Se foi assim, e caso tenha mesmo recebido pedido de propina, virou caso de polícia o meme de dois homens-aranha idênticos apontado o dedo um para o outro.

Outra hipótese é que o atravessador, com quem o governo negociou por e-mail, foi colocado a fórceps na história para que a compra andasse. Como não andou, outras vacinas viraram alvo dos possíveis corruptores. É aí que todos os caminhos chegam à Índia.

A ver.

A pergunta já não é se os acusadores têm pólvora para abalar a República. Abalada a República já está. A pergunta agora é quem cai com quem conforme a história avança.

O abalo ganha potencial conforme se torna plausível a possibilidade de algum dos delatores ter gravado gente grande no governo.

Nas redes, os pilares do bolsonarismo demonstram desorientação e pedem orações.

Precisam mesmo rezar. Para que a história não avance mais do que já avançou. E para que o destino descrito para quem caiu em tentação não exista fora da Bíblia.

Inferno é pouco para quem aproveitou a pandemia para ganhar dinheiro, seja com vacina superfaturada ou com emplastros sabidamente sem eficácia.

Já são mais de 510 mil mortos pelo coronavírus no país.

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