Governo Bolsonaro tem ao menos uma crise a cada 50 dias

GUILHERME MAGALHÃES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governo Jair Bolsonaro chegou ao seu 500º dia nesta sexta-feira (15) em um ritmo que já lhe é familiar, isto é, com uma crise em mãos para contornar.

Desta vez, a saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde -o oncologista que há menos de um mês era anunciado pelo presidente como alguém mais alinhado ao discurso do Palácio do Planalto no enfrentamento da pandemia do coronavírus do que seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta.

O terremoto na Saúde jogou para escanteio a crise que até o dia anterior ocupava manchetes de portais e a cabeça dos brasileiros em quarentena: a repercussão do vídeo de uma reunião ministerial em que Bolsonaro teria pressionado o então ministro da Justiça, Sergio Moro, a trocar o comando da Polícia Federal.

Os dias de abril em que o país acompanhou, em suspenso, a novela da permanência de Mandetta, parecem um passado distante.

O que dizer então das turbulências de 2019? As queimadas na Amazônia, que derreteram o capital ambiental do Brasil na comunidade internacional, alçaram o Brasil a tema de uma reunião do G7 e provocaram um embate entre Bolsonaro e o presidente da França, Emmanuel Macron.

Ou o escândalo das candidaturas de laranjas do PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu em outubro de 2018 e com o qual já estava rompido um ano depois para criar a Aliança pelo Brasil.

O governo Bolsonaro e seus personagens forneceram matéria-prima para um rol de crises que se sucedem quase que semanalmente desde a posse, em 1º de janeiro de 2019.

Pode-se dizer que o presidente já começou o mandato envolto em uma: os relatórios do Coaf, órgão de inteligência financeira, revelados em dezembro de 2018 e que apontavam movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, filho do presidente, na Assembleia Legislativa do Rio.

Os 500 dias renderam ao menos uma crise a cada 50 dias. Relembre dez desses episódios a seguir.

Escândalo dos laranjas e demissão de Bebianno - fev.19

A primeira grande crise do governo estourou em 4.fev.19, quando a Folha de S.Paulo revelou que o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, patrocinou um esquema de candidaturas de laranjas em Minas Gerais, abastecidas com verba pública do PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu.

O presidente da sigla durante as eleições de 2018, Gustavo Bebianno, foi demitido da Secretaria-Geral da Presidência após entrar em rota de colisão com um dos filhos do presidente, o vereador carioca Carlos Bolsonaro.

E o escândalo dos laranjas não terminou por aí. Em 4.out.19, a Polícia Federal indiciou Álvaro Antônio sob suspeita de envolvimento no esquema. A investigação concluiu que o ministro comandou o desvio de recursos. Ele nega.

Tensão com a Polícia Federal - ago.19

Em um prólogo da crise que viria a explodir com Sergio Moro e a Polícia Federal neste ano, Bolsonaro atropelou a chefia da PF em agosto de 2019 e anunciou a troca do superintendente do Rio de Janeiro, Ricardo Saadi, por questões de gestão e produtividade.

O anúncio pegou de surpresa a PF, que reagiu e divulgou nota negando que a mudança tivesse a ver com a conduta do superintendente. Bolsonaro também ameaçou trocar o diretor-geral, à época Maurício Valeixo.

"Sugiro o cara de um estado para ir para lá: 'Está interferindo'. Espera aí. Se eu não posso trocar o superintendente, eu vou trocar o diretor-geral", disse o presidente.

Bolsonaro chegou a citar um delegado que assumiria a chefia do Rio, onde dois de seus filhos são alvo de investigações, mas foi rebatido pela PF, que emplacou um nome da confiança de Valeixo.

Queimadas na Amazônia - ago.19

Numa crise ambiental que ganhou proporções internacionais, Bolsonaro trocou farpas com o presidente francês, Emmanuel Macron, além de ofender sua esposa, Brigitte, em meio ao período com mais focos de incêndios desde 2010.

O governo vinha embalado na turbulência da exoneração do diretor do Inpe, Ricardo Galvão, após Bolsonaro criticar a divulgação de dados que indicavam aumento no desmatamento.

Sem provas, Bolsonaro acusou ONGs de estarem por trás dos incêndios e o ator Leonardo DiCaprio de financiá-las: "O pessoal da ONG, o que eles fizeram? O que é mais fácil? Botar fogo no mato. [...] DiCaprio tá colaborando aí com a queimada, assim não dá". Em resposta, o ator disse que não financiava as organizações que estavam "sob ataque".

Porteiro e investigação do caso Marielle - out./nov.19

A citação ao nome de Bolsonaro por um porteiro do condomínio onde o presidente tem casa, no Rio de Janeiro, na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes levou a uma reação explosiva do presidente, que fez uma live da Arábia Saudita, onde estava em viagem, para negar envolvimento no crime e atacar a TV Globo -que revelou a menção.

No dia da morte de Marielle, em março de 2018, Bolsonaro estava em Brasília. Além disso, o porteiro afirmou depois à Polícia Federal ter cometido um erro ao citar o nome de Bolsonaro ("seu Jair").

Em fevereiro deste ano, um laudo da Polícia Civil do Rio confirmou que o porteiro que interfonou para um dos acusados do crime naquele dia de março de 2018 não é o mesmo que prestou depoimento e citou o nome do presidente.

O retorno do AI-5 - out./nov.19

Em duas ocasiões em menos de um mês, o AI-5, ato que inaugurou o período mais repressor da ditadura militar, fechou o Congresso e cassou direitos, voltou ao debate político.

Primeiro pela boca do deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, que ameaçou "um novo AI-5" caso "a esquerda radicalizasse", citando atos que tomaram as ruas do Chile à época.

Depois foi a vez de o ministro da Economia, Paulo Guedes, dizer "não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5" ao comentar convocações de protestos pela oposição -que não evoluíram para grandes protestos.

As duas menções ao AI-5 foram rechaçadas por opositores, aliados, chefes de Poderes e intelectuais. No caso do comentário do filho, Bolsonaro disse: "Quem quer que seja que fale em AI-5 está sonhando".

Rompimento com o PSL - nov.19

Pouco mais de um ano após se eleger presidente, Bolsonaro rompeu o casamento de conveniência com o PSL em meio a uma guerra por recursos dos fundos partidário e eleitoral. A fritura começou quando Bolsonaro disse que Luciano Bivar, presidente da sigla, estava "queimado pra caramba".

Como o PSL elegeu a segunda maior bancada da Câmara em 2018, passou a ter direito a R$ 110 milhões de fundo partidário em 2019. Bolsonaro passou a criticar a legenda por falta de transparência e anunciou a criação da Aliança pelo Brasil.

A nova legenda, porém, fracassou no esforço de reunir assinaturas para formalizar sua criação no TSE a tempo de disputar as eleições de 2020. Bolsonaro segue sem partido.

O discurso nazista na cultura - jan.20

A queda do secretário da Cultura, Roberto Alvim, se deu em meio a uma onda generalizada de repúdio a um discurso em que ele parafraseou o ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels.

Em um vídeo de divulgação de editais de cultura, Alvim usou frases muito próximas das utilizadas pelo nazista em um discurso sobre a arte alemã proferido em 1933. "A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional", disse o secretário de Bolsonaro.

As críticas e a repercussão internacional do pronunciamento de Alvim tornaram insustentável sua permanência no governo, e ele foi exonerado um dia após a publicação do vídeo. Bolsonaro não se manifestou sobre o episódio.

Ascensão e queda de Mandetta - abr.20

Alçado a protagonista com a pandemia do coronavírus, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, entrou na mira de Bolsonaro ao desaprovar a conduta do presidente, que criticava o isolamento social e promovia aglomerações.

Enquanto o presidente tinha aprovação de 33% da população na gestão da pandemia, o trabalho da Saúde era aprovado por 76%, segundo o Datafolha. Após ter a permanência no governo ameaçada, Mandetta foi mantido graças à pressão da ala militar.

O apoio, porém, evaporou depois de o ministro afirmar, à TV Globo, que o brasileiro "não sabe se escuta o ministro da Saúde, se escuta o presidente". Quatro dias depois da entrevista, Bolsonaro demitiu Mandetta.

Moro pede demissão - abr.20

A mais recente crise do governo ainda não terminou, haja vista os novos desdobramentos da investigação que apura se Bolsonaro tentou interferir na PF, como o ex-ministro da Justiça Sergio Moro afirmou ao anunciar sua demissão.

Moro acusa Bolsonaro de ingerência na corporação por causa das pressões que sofreu para trocar o diretor-geral Maurício Valeixo. O presidente rebateu e acusou Moro de barganhar uma vaga no STF.

Após uma disputa judicial envolvendo a nomeação de Alexandre Ramagem, amigo da família Bolsonaro, para a PF, a guerra agora é travada em torno do vídeo de uma reunião em 22 de abril. Moro afirma que o presidente o intimidou na reunião, vinculando trocas na PF à proteção de sua família. Bolsonaro nega.

Saúde perde segundo ministro na pandemia - mai.20

Ao assumir o Ministério da Saúde no lugar de Luiz Henrique Mandetta, o oncologista Nelson Teich defendeu alinhamento com Bolsonaro, ecoando o discurso do presidente de que saúde e economia não competem entre si no combate à pandemia do novo coronavírus.

Além disso, também em linha com o que o presidente esperava para a pasta, Teich adotou um perfil discreto, deixando as entrevistas coletivas diárias para os secretários do ministério.

O alinhamento, porém, não durou um mês. A dois dias de completar a marca, Teich pediu demissão nesta sexta-feira (15), após ser pressionado por Bolsonaro a ampliar o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. "A vida é feita de escolhas, e hoje escolhi sair", disse Teich em um breve discurso de despedida.