Governo brasileiro diz ter tratado de 'promoção à democracia' em encontro com diretor da CIA

BRASÍLIA — Integrantes do governo brasileiro, incluindo o presidente Jair Bolsonaro, discutiram com o diretor-geral da Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), Williams Burns, em julho do ano passado, assuntos relativos "à promoção da democracia, da segurança e da estabilidade no Hemisfério". A informação está em um ofício encaminhado à Câmara dos Deputados pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI), Augusto Heleno.

Burns desembarcou em Brasília no dia 1º daquele mês, sem que o encontro constasse previamente nas agendas das autoridades, e os temas tratados durante a visita jamais haviam sido esclarecidos. Segundo a agência de notícias Reuters informou nesta quinta-feira, o dirigente da CIA veio ao Brasil para pedir que o governo brasileiro parasse de questionar a integridade das eleições no país.

A visita de Burns coincidiu com um momento em que Bolsonaro fazia ataques ao sistema eleitoral brasileiro, sem apresentar provas. De acordo com a agência de notícias, o americano teria dito ao presidente, ao general Heleno e ao então diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, que o processo democrático é sagrado e que o sistema de votação no Brasil não poderia ser subestimado.

O ofício, encaminhado por Heleno em 2 de setembro de 2021, dois meses após os encontros, informa que houve reuniões no Palácio do Planalto e um jantar oferecido no mesmo dia pela Embaixada dos EUA em Brasília. Heleno destacou que William Burns se mostrou interessado, em relação à Abin, “na permanência da cooperação em matéria de inteligência, fundamental para responder a ameaças de caráter transnacional, como o terrorismo, a criminalidade organizada e a criminalidade cibernética”. Burns — um diplomata veterano que em 2015 foi um dos negociadores do acordo nuclear entre Irã, EUA e outras grandes potências.

Heleno também ressaltou, no documento, que o jantar foi apenas um evento de cortesia “e, naturalmente, transcorreu com conversas informais a respeito de temas de interesse mútuo do Brasil e dos Estados Unidos da América”. Ou seja, não havia, no convite, pauta ou tópicos de conversação pré-estabelecidos.

Na época da visita, Bolsonaro chegou a falar a apoiadores sobre reunião com o diretor da CIA, mas também sem entrar em detalhes. Na ocasião, atacou países vizinhos.

— Não vou dizer que isso foi tratado com ele (Burns), mas a gente analisa na América do Sul como estão as coisas. A Venezuela a gente não aguenta falar mais, mas olha a Argentina. Para onde está indo o Chile? O que aconteceu na Bolívia? Voltou a turma do Evo Morales e, mais ainda, a presidente que estava lá no mandato tampão (Jeanine Añez) está presa, acusada de atos antidemocráticos. Estão sentindo alguma semelhança com o Brasil? — afirmou o presidente.

Questionados, nesta quinta-feira, a Secretaria de Comunicações da Presidência e o GSI não se manifestaram sobre o pedido do diretor da CIA relatado pela Reuters. Também procurada, a embaixada do EUA no Brasil não comentou.

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