Governo britânico forçou 'The Guardian' a destruir documentos de Snowden

Por Béatrice DEBUT
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O editor-chefe do 'The Guardian', Alan Rusbridger

O jornal britânico The Guardian respondeu à prisão do companheiro brasileiro do jornalista que publicou informações sobre os programas de vigilância americanos afirmando que precisou destruir, sob pressão de Londres, os documentos confidenciais utilizados para a matéria que revelou a espionagem.

Em um artigo publicado nesta terça-feira no Guardian, o editor do jornal, Alan Rusbridger, conta ter sido contatado por um importante funcionário do governo britânico, e depois por "personagens misteriosos de Whitehall", o bairro dos ministérios em Londres.

"O pedido era o mesmo: entregue o material Snowden ou o destrua", em referência a Edward Snowden, ex-consultor da Agência de Segurança Nacional (NSA) americana e responsável pelo vazamento dos documentos secretos sobre os programas de vigilância dos Estados Unidos e Reino Unido.

O Guardian, ligado à oposição trabalhista, acabava de iniciar a publicação dessas informações, que provocaram mal-estar e a ira de Washington e Londres.

"Há um mês, recebi um telefonema do coração do governo (britânico) me dizendo: 'Você já se divertiu muito. Agora queremos que você nos entregue a coisa", indicou o editor do jornal. E após vários encontros com membros de Whitehall que ameaçaram o jornal de ações judiciais, segundo Alan Rusbridger, "aconteceu um dos momentos mais bizarros da longa história do Guardian", contou.

"Dois especialistas em segurança do GCHQ (serviço de escutas britânico) assistiram a destruição dos discos rígidos no sub-solo do Guardian", assegurou. "Whitehall ficou satisfeito, mas isso parecia mais um gesto simbólico particularmente maldoso" decidido por pessoas que "não entendem nada da era digital", conclui em desafio.

Contatado pela AFP nesta terça-feira, o governo não quis comentar essas afirmações.

Alan Rusbridger revelou essas pressões sofridas dois dias após a detenção do brasileiro companheiro do jornalista do Guardian, Glenn Greenwald, contato-chave de Edward Snowden no jornal.

David Miranda foi detido domingo quando transitava por Londres em seu retorno ao Rio de Janeiro, onde o casal reside. Ele permaneceu detido por nove horas no aeroporto londrino de Heathrow sob a lei britânica anti-terrorista provocando uma onda de indignação das organizações de defesa dos direitos humanos e autoridades brasileiras.

Segundo ainda Alan Rusbridger, "David Miranda entrou com uma ação judicial a respeito do material" que lhe foi confiscado durante o interrogatório e sobre o modo como ele foi tratado".

Segunda-feira à noite, a Scotland Yard se defendeu. O recurso, neste caso específico, a lei antiterrorista "foi legal e de acordo com o procedimento", assegurou a polícia, sem indicar as razões para a detenção do jovem.

O governo se escondeu atrás da Scotland Yard, ressaltando nesta terça-feira que era responsabilidade da polícia "decidir quando é necessário e proporcional usar (os) poderes" previstos pela lei anti-terrorista.

Em seu editorial desta terça, o jornal The Times, próximo ao governo, no entanto, pediu à polícia para "esclarecer o uso" da lei no caso de David Miranda. Já o Independent declarou estar "indignado" pelo uso desta lei em um caso que "obviamente não está relacionados com o terrorismo".

Os Estados Unidos, que acusam de espionagem Edward Snowden, agora refugiado na Rússia, negou na segunda-feira qualquer envolvimento na detenção de David Miranda. Mas reconheceu estarem cientes de seu interrogatório.

"David Miranda não é jornalista, mas desempenha um papel importante ao ajudar seu companheiro em seu trabalho jornalístico", segundo o Guardian.

Em seu retorno ao Brasil, David Miranda afirmou que teve seu notebook e cartões de memória confiscados durante o interrogatório.

Em seu editorial, o Guardian diz que a pressão do governo britânico não vai impedi-lo de "continuar" a "cobrir meticulosamente os documentos Snowden". "Apenas não o faremos em Londres", disse, advertindo, no entanto, que será "quase impossível para os jornalistas ter fontes confidenciais".