Governo britânico tenta encerrar ações judiciais sobre o conflito na Irlanda do Norte

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Boris Johnson visita base militar britânica com ministro para a Irlanda do Norte, Brandon Lewis

O governo britânico apresentou um polêmico projeto de lei ao Parlamento nesta quarta-feira(14) para encerrar todos os procedimentos legais relacionados ao conflito na Irlanda do Norte, denunciado como uma "anistia" pelas famílias das vítimas.

Num contexto de crescente tensão na região britânica devido ao descontentamento causado pelas disposições alfandegárias estabelecidas após o Brexit para preservar a frágil paz de 1998, o Executivo agora acrescenta a oposição a esta medida por parte das vítimas e líderes políticos irlandeses.

A polícia da Irlanda do Norte está investigando "cerca de 1.200 casos, o que é apenas uma fração das 3.500 mortes" registradas durante três décadas de conflito, argumentou no Parlamento o ministro da Irlanda do Norte, Brandon Lewis, especificando que o Executivo pretende apresentar esta legislação durante as férias de verão.

“É cada vez mais difícil para os tribunais dar às famílias as respostas que elas procuram”, considerou, e “se não agirmos agora” estaremos “condenando as gerações atuais e futuras a novas divisões, impedindo a reconciliação”.

"Sabemos que será difícil para alguns aceitar o fim dos processos", disse ele, mas é "a melhor solução para ajudar a Irlanda do Norte a avançar na reconciliação".

Por 30 anos, o conflito da Irlanda do Norte opôs republicanos católicos, partidários da reunificação da Irlanda, e unionistas protestantes, apegados à coroa britânica.

Deixou cerca de 3.500 mortos e acabou com o acordo de paz da Sexta-feira Santa de 1998.

- "Anistia geral" -

Enviado para a região em uma missão de manutenção da paz em 1969, o Exército britânico teve um papel polêmico no conflito e é responsável, de acordo com o índice Sutton elaborado pela Universidade de Ulster, por cerca de 300 mortes durante as operações que terminaram oficialmente em 2007.

O projeto britânico, que afetará ex-veteranos e ex-membros de grupos paramilitares, levanta forte oposição na vizinha República da Irlanda.

"Não acredito em uma anistia geral para aqueles que cometeram assassinato, sejam eles atores estatais ou envolvidos em organizações terroristas ou ilegais", disse o primeiro-ministro irlandês, Michael Martin, nesta quarta-feira em Dublin.

A apresentação desse texto ocorre duas semanas depois que a justiça britânica retirou as acusações contra dois ex-soldados acusados de três assassinatos em 1972 na Irlanda do Norte, em particular durante o massacre do "Domingo Sangrento".

A decisão, que irritou as famílias das vítimas, foi tomada após uma revisão das provas após a absolvição em maio, por um tribunal de Belfast, de dois outros veteranos em julgamento pelo assassinato de um membro do extinto grupo armado republicano IRA em 1972.

Mary Lou McDonald, presidente do Partido Republicano Sinn Fein, ex-braço político do IRA, denunciou o projeto do Executivo de Johnson como um "insulto às vítimas e suas famílias" e "uma ação unilateral do governo britânico".

O deputado unionista norte-irlandês Jim Shannon denunciou perante o Parlamento britânico uma "anistia para terroristas assassinos".

spe-acc/mar/jc

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