Governo coloca Palácio Capanema à venda e revolta filha de arquiteto: "Atestado de ignorância"

Palácio Capanema, no Rio de Janeiro (Reprodução)
Palácio Capanema, no Rio de Janeiro (Reprodução)
  • O governo Bolsonaro colocará à venda mais de 2 mil imóveis públicos, entre eles o Palácio Capanema

  • O edifício é considerado um dos símbolos da arquitetura brasileira

  • Filha de Lucio Costa, arquiteto responsável pelo palácio, chamou venda de "atestado de ignorância"

O governo de Jair Bolsonaro (sem partido) colocou à venda mais de 2 mil imóveis públicos, entre eles o Palácio Capanema, um dos símbolos da arquitetura brasileira. O edifício, localizado no Rio de Janeiro, foi projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012) e Lucio Costa (1902-1998), dupla que também planejou Brasília.

Filha de Lucio Costa, Maria Elisa Costa, de 86 anos, se revoltou com o anúncio da venda do Palácio Capanema e publicou em sua rede social uma carta em que critica a intenção do governo Bolsonaro de se livrar do edifício. Para a arquiteta, a gestão federal trata como "terreno baldio" uma de suas principais riquezas.

Leia também:

O edifício [...] foi um marco definitivo na consolidação da arquitetura moderna não apenas no Brasil, mas no mundo. Ignorar este fato é um atestado de ignorância que o Brasil não merece. Como afirma Lucio Costa num vídeo: 'Nós não somos medíocres, não temos vocação para a mediocridade'", escreveu Maria Elisa.

A construção foi projetada por uma equipe composta por Lucio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos e Jorge Machado Moreira, com a consultoria do arquiteto franco-suíço Le Corbusier. A fachada é revestida com azulejos de Cândido Portinari e envolvida por jardim de Burle Marx.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Assine agora a newsletter Yahoo em 3 Minutos

O edifício foi eleito em 1943 o mais avançado do mundo, em construção, pelo Museu de Arte Moderna de Nova York. Após sua inauguração, em 1945, chegou a ser sede de dois ministérios: da Educação e da Saúde Pública. Anos depois, em 1948, tornou-se um bem tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Segundo o jornal Valor Econômico, o palácio de 16 andares integra o pacote de imóveis que o governo planeja apresentar, no fim deste mês, a potenciais investidores. O feirão programado pelo Ministério da Economia inclui outros 2.263 imóveis situados no Rio de Janeiro.

O programa já identificou 3,8 mil imóveis com valor estimado em R$ 30 bilhões em todo o país.

A comunidade arquitetônica lançou um manifesto em que se diz assombrada com a ameaça de venda do palácio, construído durante a 2ª Guerra Mundial e inaugurado pelo presidente Getúlio Vargas em 3 de outubro de 1945. O presidente foi deposto três semanas depois, dando fim à era Vargas.

Sob o título "o MEC não pode ser vendido", o documento endossado por arquitetos e urbanistas relata que, "em 1935, Lucio Costa foi encarregado por Gustavo Capanema, então ministro da Educação e Saúde Pública, para elaborar o projeto do edifício com a colaboração de Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira, Affonso Eduardo Reidy e Ernani Vasconcellos. A equipe de arquitetos contou com a consultoria Le Corbusier, apontado como mestre da arquitetura moderna."

Encabeçado pelo CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil), o abaixo-assinado lembra que o MEC, como o prédio é conhecido, foi tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 1948. Na justificativa, foi descrito como "a primeira edificação monumental, destinada a sede de serviços públicos, planejada e executada no mundo, em estrita obediência aos princípios da moderna arquitetura”.

Assinado pela Abea (Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo), pela Abap (Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas) e pelo Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Brasileiro, o manifesto diz que o valor do palácio é incalculável.

"Quanto vale um prédio concebido, projetado e construído para ser um símbolo da cultura nacional? O edifício sobre pilotis pousa elegantemente na esplanada com jardins de Roberto Burle Marx e a escultura Juventude de Bruno Giorgio. No térreo, revestido com painéis de azulejos de Candido Portinari, encontram-se as obras de Prometeu e o Abutre de Jacques Lipchitz. Por tudo isso, a sede do ministério passou a ser denominada, na década de 1970, Palácio Cultura", diz.

O abaixo-assinado descreve detalhes do palácio, cuja construção foi iniciada em 1937, com afrescos de Cândido Portinari e móveis projetados por Oscar Niemeyer. E ressalta que, desde 1996, o prédio integra a lista Indicativa do Brasil ao reconhecimento como Patrimônio Mundial.

Políticos de oposição ao governo Bolsonaro reagiram à intenção de venda do Palácio Capanema: