Governo conseguiu transformar anúncio do Auxílio Brasil em tiro no pé

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A man walks past posters depicting Brazil's Economy Minister Paulo Guedes with the phrases
Cartazes em protesto contra Paulo Guedes na avenida Faria Lima, em São Paulo. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Um dos grandes problemas de vender soluções supostamente fáceis para problemas notadamente complexos é lidar com eles caso o embrulho se converta em vitória eleitoral. Jair Bolsonaro, neste quesito, é um roteiro do insucesso. Latiu tanto para os carros da rua que quando um automóvel parou, abriu a porta e estendeu a chave, não soube o que fazer. A história do Auxílio Brasil vale um estudo de caso.

Com uma nova eleição às voltas, ele fez sua equipe econômica abrir a mão para dar tchau e tirou de lá uma proposta para turbinar o Bolsa Família, rebatizado agora como Auxílio Brasil. Baita sacada.

O valor do benefício, que passaria a atender 14,7 milhões de famílias, seria de R$ 400 — uma conta que inclui R$ 189 da parcela atual do programa, um aumento temporário de R$ 111 a ser dado até dezembro de 2022 e um extra, também temporário, de R$ 100 para o mesmo período. O cálculo levou em conta o impacto da pandemia na renda das famílias mais vulneráveis.

Deste colunista não partirão contrariedades em relação a benefícios para famílias de baixa renda em um país marcadamente injusto. A crítica, se houver, será que o auxílio poderia passar dos R$ 500 ou R$ 600 e contando.

Só que, para pingar, é necessário dizer de onde virá o dinheiro. Este é o problema do gestor, eleito justamente para lidar com cobertores curtos e dilemas do tipo.

O cobertor do governo, já compromissado com outros gastos e investimentos —como auxílio a moradia de policiais, sua base eleitoral, perdão tributário de igrejas, outra perna, e manejo de orçamentos paralelos, com direito a compra de tratores com sobrepreço, além de vistas grossas para quem detém dinheiro em paraísos fiscais, caso de Paulo Guedes, seu ministro da Economia— daria para pagar R$ 300.

Mais do que isso seria preciso vender o teto para ficar com o cobertor. Teto, no caso, não é (só) alegoria, mas um mecanismo que limita os gastos do governo, que desde 2016 (feat. Michel Temer) devem crescer de acordo com a inflação de um ano para outro.

O teto é, como o nome diz, um fórmula limitante para voos mais altos no orçamento —e também para quem vê no Estado o papel de indutor do investimento e do crescimento econômico.

Este mecanismo, que cerceou na base o neodesenvolvimentismo à brasileira, defendido pelos partidos e esquerda, antes mais populares, virou dilema para o ultraconservador Jair Bolsonaro, que elegeu Paulo Guedes seu Posto Ipiranga para assuntos econômicos. Há rumores de que a equipe do ministro já prepara o boné diante da derrota na discussão.

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Bolsonaro tem perdido moral entre os eleitores mais pobres desde que começou a minguar o auxílio emergencial. Ele chegou a ostentar 37% de apoio no ano passado e hoje tem apenas 17%. Ele não se elege sem olhar com um mínimo de sensibilidade, que não tem, para esta base corroída pela escalada dos preços e dos soluços da retomada econômica, agravadas pela hesitação do governo em comprar vacinas e tomar medidas duras diante de uma pandemia que demorou a admitir a gravidade. Para isso, precisa agora abrir a carteira e turbinar o que ele e seus asseclas chamavam até outro dia, com os dedos tampando o nariz, de Bolsa Esmola.

Marcado para terça-feira 19, o anúncio do novo Auxílio Brasil tinha tudo para posicionar Bolsonaro na corrida até 2022. Mas virou tiro no pé.

Sua equipe achou que daria um grande pulo do gato ao inserir a palavra “temporário” na solução. O novo benefício com seus extras com hora para acabar passaria a valer “apenas” durante 14 meses. O suficiente para atravessar o perigo eleitoral com um...ativo eleitoral. O trabalho de desmontar a bomba ficaria com o sucessor. Por sua conta e risco. Quem vai topar?

O mercado percebeu a jogada, classificada por alguns de “desastrosa”, e berrou. O berro veio em forma de queda na Bolsa e nova disparada do dólar, que bateu em R$ 5,60, e dos juros futuros, retrato da percepção de risco dos investidores.

“O maior problema que eu vejo é o filme e não o retrato”, resumiu, em entrevista ao jornal O Globo, o economista-chefe da XP, Caio Megale. Ele resumiu a bronca da turma que apostou as fichas no cavalo bolsonarista em 2018. A sinalização, segundo o economista, é que o governo está rompendo as regras fiscais num momento em que elas deveriam estar voltando ao normal.

Megale ecoa o raciocínio de que o dólar alto reflete o risco agudo da economia.

Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, também em O Globo, classificou a decisão de deixar parte do gasto fora do teto de “barbeiragem” com “trapalhada administrativa”.

Para piorar, ficou nítido que a deterioração dos índices, sobretudo com a alavanca inflacionária da alta do dólar, corre agora o risco de comer, no orçamento das famílias, justamente a parte do auxílio que o governo quer vitaminar.

Resultado: o anúncio precisou ser adiado.

O vaivém reforçou o amadorismo do governo ao sinalizar o que quer, como quer e o que fazer.

E, sem a agenda positiva na ordem do dia, deixou Bolsonaro sozinho com a bomba armada pela CPI da Pandemia, que tirou do relatório alguns bodes da sala, mas não livrou o presidente de um pedido de responsabilização por crimes contra a humanidade. Deu até no New York Times.

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