Governo da Itália fica à beira do colapso após ultimato de partido populista

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MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - A gestão do primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, pode estar com as horas contadas. O ex-premiê Giuseppe Conte, líder do Movimento 5 Estrelas (M5S), anunciou que o partido não votará, nesta quinta (14), um decreto no Senado que tem validade de um voto de confiança ao governo.

Como o partido faz parte da ampla coalizão parlamentar que sustenta Draghi, um desfecho possível é o fim do governo, depois de 17 meses, o que pode levar à convocação antecipada de novas eleições.

A decisão se dá depois de semanas de tensão nos bastidores, ameaças e rompimentos. O decreto em votação é chamado de Ajuda, um pacote de EUR 17 bilhões com medidas para aliviar o impacto do aumento dos preços de matérias-primas e da energia sobre os custos de famílias e empresas. O texto, de iniciativa do governo, foi aprovado na Câmara na segunda (11), sem a participação dos deputados do M5S, que se retiraram do plenário --ação que será repetida no Senado.

"O país está à beira do abismo, a situação mudou. Somos o único partido que pressiona o governo. Precisamos de uma fase diferente, e as declarações de Draghi não são suficientes", afirmou Conte após um dia intenso de reuniões partidárias e um telefonema com o premiê.

Ele diz não concordar com alguns pontos do decreto, como detalhes da gestão de uma usina de resíduos em Roma, mas as desavenças já vêm aumentando por outras razões. No fim de junho, o envio de armas à Ucrânia e a participação do Parlamento nesse tipo de decisão, tema de uma resolução aprovada no Senado, ampliaram a divisão e culminaram na saída do ministro Luigi Di Maio (Relações Exteriores), que montou um grupo parlamentar com cerca de 60 ex-M5S.

Na semana passada, em um encontro com Draghi, Conte entregou uma lista de nove pontos que o partido considera fundamentais para continuar como parte da coalizão, incluindo a criação de um salário mínimo para trabalhadores. Em resposta, o premiê afirmou que muitos dos tópicos já fazem parte das prioridades do governo, mas disse não trabalhar com ultimatos.

"Se os ultimatos continuam, não se pode trabalhar, e o governo perde o seu sentido", afirmou, nesta terça (12).

Apesar de o governo tecnicamente ter números suficientes para aprovar o Ajuda, a ausência do voto de confiança de um partido da coalizão é considerada um sinal de perda da parte do apoio parlamentar. A uma iminente queda de Draghi podem se seguir três cenários. No primeiro, Draghi aceita formar um novo Executivo, com uma maioria menor e sem o M5S --algo que o premiê diz não estar disposto a fazer.

"Outra possibilidade é a definição de um novo primeiro-ministro, em um governo-ponte", segundo Alfonso Celotto, professor de direito constitucional da Universidade Roma Tre. O pleito parlamentar italiano está previsto para o primeiro semestre do ano que vem, possivelmente em maio.

Por fim, caso não haja acordo, o presidente da República, Sergio Mattarella, pode decidir por dissolver o Parlamento e convocar novas eleições --a Itália, porém, nunca realizou eleições em meses de verão.

Um dos defensores do voto antecipado é a única força de oposição. O partido de ultradireita Irmãos da Itália é hoje o mais bem colocado nas pesquisas, com 22,5% das intenções de voto. "Guerra, pandemia, inflação, pobreza crescente, contas altas, aumento do custo das matérias-primas, riscos no fornecimento de energia, crise alimentar. E o governo 'dos melhores' está imóvel, às voltas com os jogos palacianos", escreveu a líder Giorgia Meloni no Twitter.

A linha também tem o apoio de Matteo Salvini, da Liga, também de ultradireita: "Se o M5S não votar o decreto, acabou. Vamos às urnas". Em segundo na preferência dos eleitores, o Partido Democrático, de centro-esquerda, era favorável à continuidade do governo, mas, antes do anúncio de Conte, seu líder, Enrico Letta, havia dito que, em caso de queda, a eleição antecipada é o caminho.

Eleito em 2018 como o maior partido, o M5S participou de todas as formações do Executivo desde o início da atual legislatura. Sob o primeiro governo Conte, dividiu a coalizão com a Liga. Quando Salvini provocou a queda do governo, em setembro de 2019, o premiê refez a maioria com o PD. Em fevereiro de 2021, após outra crise em plena pandemia, Draghi assumiu o chamado governo de união nacional, com todas as forças políticas exceto os Irmãos da Itália.

Em crise de identidade e com disputas de poder interna, o M5S tem 10% das intenções de voto nas pesquisas, em quarto lugar, após ter sido a preferência de 34% dos eleitores há quatro anos.

"O objetivo dos partidos é a eleição de 2023. É preciso decidir estar no governo ou na oposição, para ter um discurso para os eleitores. E aí se pega um pretexto qualquer para sair do governo", diz Celotto.

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