Governo e manifestantes sem acordoo para sair da violenta crise na Colômbia

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O governo e a principal frente de protesto na Colômbia completaram um novo dia de negociações sem chegar a um acordo para apaziguar a convulsão social que deixa quase 60 mortos em um mês de manifestações contra o presidente Iván Duque.

"O partido do governo está dedicado a bloquear, a impedir que se chegue a acordos (...) e o governo nacional segue ao pé da letra suas instruções", criticou a Comitê Nacional de Paralisação em um comunicado publicado ao final das conversações de terça-feira.

Durante a manhã, o Comitê, que não reúne todos os setores que protestam contra o governo, anunciou "ações para suspender" os bloqueios de estradas que afetam especialmente o sudoeste do país.

Mas no fim do dia, o assessor presidencial Emilio Archila respondeu que "sem pedir o impossível, esses bloqueios devem desaparecer" para avançar em uma eventual negociação.

Os delegados de Duque e do Comitê de Paralisação mantiveram várias rodadas de negociações desde 7 de maio, sem chegar a um acordo para iniciar as negociações. Os manifestantes convocaram novos protestos.

Ao mesmo tempo, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) anunciou uma visita ao país de 8 a 10 de junho para avaliar as denúncias de excessos das autoridades durante os protestos.

"Os jovens de Cali disseram que as pessoas do Comitê de Desemprego não nos representam. Não nos rendemos e não paramos até que o incêndio apague", disse à W Radio Andrés Velásquez, líder do bloqueio na cidade de Cali, epicentro dos protestos, após ouvir o apelo de um dos porta-vozes da comissão.

O governo atribui aos bloqueios a morte de dois bebês que ficaram presos em ambulâncias e perdas econômicas milionárias. “Na primeira semana (de protestos) tínhamos 800 bloqueios, hoje restam 36”, disse o ministro da Defesa, Diego Molano.

- Civis armados -

As partes dialogam em uma sede neutra em Bogotá, quando o país ainda processa o dia mais violento da crise, desencadeada pela já descartada ideia do governo de cobrar mais impostos de uma classe média empobrecida pela pandemia.

Na sexta-feira, 28, enquanto milhares de pessoas comemoravam nas ruas o primeiro mês do levante popular, 13 pessoas morreram em Cali, a terceira cidade da Colômbia e uma das mais afetadas pelas mobilizações e bloqueios nas estradas.

Naquele dia houve confrontos que envolveram manifestantes, agentes uniformizados e civis armados, o que levantou a preocupação de que as forças paraestatais estejam ganhando destaque na volátil conjuntura.

Em um mês de protestos, 59 pessoas morreram, segundo relatos da Defensoria e autoridades civis. O Ministério Público afirma que 20 desses casos "estão diretamente relacionados às manifestações".

A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, pediu uma investigação "independente" sobre os ataques que ceifaram vidas em Cali.

Como resultado do que houve na sexta-feira, Duque ordenou o envio de tropas para Cali e outras partes do país sob a figura de "assistência militar", que capacita o exército a apoiar as tarefas de vigilância da polícia, o que é fortemente questionado local e internacionalmente por causa do uso de força contra os manifestantes.

- Garantias para protestar-

Os jovens que estão nas ruas defendem um Estado mais solidário no enfrentamento ao desemprego, à evasão escolar e outros problemas causados pela pandemia, que avança de forma implacável, quebrando recordes diários de mortes e casos.

O governo e manifestantes entraram em confronto desde o início por causa da violência em torno do primeiro grande levante popular desde o acordo de paz de 2016, que levou ao desarmamento da extinta guerrilha das Farc, hoje partido político.

Os manifestantes exigem uma condenação explícita da repressão policial e "garantias para o protesto", enquanto o presidente Duque quer que os bloqueios de estradas que causam escassez e afetaram atendimentos médicos sejam levantados.

As forças sociais, que se opõem à militarização, também clamam por uma rejeição explícita dos excessos da polícia.

“Não se pode continuar a assistir a vídeos nos quais a força pública atira nos manifestantes, nos quais civis atiram nos manifestantes”, disse Francisco Maltés, líder sindical e porta-voz do comitê.

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