Governo do Equador acusa manifestantes indígenas pelo desaparecimento de 18 policiais

O ministro do Interior do Equador afirmou nesta quarta-feira que 18 policiais estão "desaparecidos" após um ataque de indígenas contra instalações policiais na terça-feira em Puyo, na Amazônia equatoriana. O ataque também deixou um manifestante morto, elevando a dois o número de vítimas fatais nos protestos que já duram dez dias. Outros seis policiais ficaram "feridos com traumas severos" e mais três estão sendo mantidos retidos pelos indígenas, segundo o ministro Patricio Carrillo.

Análise: Presidente do Equador dá sinais contraditórios e inviabiliza negociação com indígenas

Entenda: O que é a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador, que lidera os protestos no país

Nesta quarta, o governo do Equador se negou a revogar o estado de exceção em vigor em seis das 24 províncias do país. A exigência foi feita pela poderosa Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie) como condição para o fim dos protestos.

Na terça, o presidente conservador Guillermo Lasso propôs a criação de um "comitê promotor integrado" com cerca de 300 entidades civis do país, como resposta da Presidência para a lista de dez exigências apresentadas pela Conaie.

— Não podemos suspender o estado de exceção porque isso significa deixar a capital indefesa, já sabemos o que aconteceu em outubro de 2019 e não iremos permitir — declarou Francisco Jiménez, ministro do Governo, em entrevista ao canal Teleamazonas. — É o momento de sentar e conversar. Lamentavelmente vidas humanas foram perdidas em situações acidentais, segundo a informação que temos, e não podemos continuar esperando.

Um dia antes, o presidente da Conaie, Leonidas Iza, condicionou qualquer diálogo com o governo à revogação e a "desmilitarização" da Casa de Cultura e da Praça Arbolitos, em Quito, locais históricos de alojamento e reuniões dos povos indígenas equatorianos, atualmente sob controle dos militares. Nesta quarta, uma juíza determinou que Iza, que foi preso e libertado na semana passada, deve comparecer todas as quartas e sextas-feiras durante o horário comercial perante um juiz.

Contexto: Movimento indígena do Equador reemerge com força e enfrenta conflitos com esquerda tradicional

A Conaie mobilizou ao menos 10 mil indígenas em Quito, onde ocorreram vários embates violentos com a polícia nos últimos dias. Lasso, que assumiu o poder em maio de 2021, denunciou que o movimento indígena quer "derrubá-lo". Nos últimos dias, o presidente tem dados sinais contraditórios, que, segundo analistas, inviabilizam o diálogo.

A morte do líder indígena da etnia quíchua, Byron Guatatoca, travou as negociações. De acordo com a Aliança de Organizações pelos Direitos Humanos, ele morreu em "confronto" com a força pública, registrado na cidade amazônica de Puyo. A Conaie afirma que Guatatoca foi atingido no rosto por uma bomba de gás lançada pelos agentes e morreu no local.

A polícia, no entanto, diz que "um manifestante morreu em consequência da manipulação de um artefato explosivo". Após a morte, Iza afirmou que "a política repressiva do governo" Lasso continua e questionou qual é o tipo de diálogo que se quer "quando se militariza as cidades e se impõe o terror da repressão".

Na segunda, outro manifestante também morreu depois de cair em um barranco nos arredores de uma manifestação em Quito, morte que foi notificada como acidente pela polícia. No entanto, a Promotoria decidiu abrir uma investigação por suposto homicídio.

Relembre: Perspectiva de candidato indígena no segundo turno muda cenário da eleição no Equador

E mais: Ex-candidato deixa partido indígena do Equador após aliança da legenda com presidente eleito

A AFP reporta dois mortos, ao menos 90 feridos e 87 detidos desde o início dos protestos, em 13 de junho. Por sua vez, a polícia informou haver 101 policiais e militares feridos, 27 detidos temporariamente pelos manifestantes e 80 civis presos.

Fundada ainda na década de 1980, a Conaie é a maior organização indígena do país, e uma das mais antigas e importantes do continente. Ao longo da década e no início dos anos 2000, quando o país sofreu o retrocesso econômico mais severo da América Latina, ajudou a derrubar diversos presidentes, como Abdalá Bucaram, em 1997; Jamil Mahuad, em 2000; e Lucio Gutiérrez, em 2005.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos