Governo do Equador alerta para ameaça à democracia após confrontos entre indígenas e policiais

Portando grandes pedaços de madeira e protegidos por escudos artesanais, cerca de 10 mil indígenas protestaram nesta terça-feira em vários pontos de Quito contra o governo do conservador Guillermo Lasso, que considerou as manifestações "um grave risco" para a democracia.

Em Quito, bem próximo à Universidade Salesiana, que abriga os manifestantes, ocorreram os maiores confrontos com o batalhão de choque no nono dia de protestos indígenas para exigir a redução dos preços dos combustíveis. Os agentes, vários deles em motocicletas e a cavalo, tentaram dispersar os manifestantes com gás lacrimogêneo e jatos d'água lançados por blindados.

A presença policial era forte no setor, onde fica a Casa da Cultura Equatoriana (CCE), tradicional ponto de encontro dos manifestantes, convocados pela Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie).

Também houve focos de protesto no sul de Quito e perto da Universidade Central (norte), segundo a polícia. A Aliança de Organizações pelos Direitos Humanos reportou 79 civis detidos e 55 feridos desde o começo dos protestos. A polícia, por sua vez, relatou 79 policiais feridos e outros 27 capturados por manifestantes e depois libertados.

Em quase um ano, o diesel subiu 90% (a 1,90 dólar) e a gasolina, 46% (a 2,55 dólares). Desde outubro do ano passado, os preços estão congelados pela pressão social. A Conaie, liderada por Leonidas Iza, exige que os preços sejam reduzidos para 1,50 e 2,10 dólares, respectivamente.

- Dez mil manifestantes -

Após nove dias de protestos em vários pontos do país, que bloquearam vias com barricadas e afetaram a produção de petróleo, o ministro da Defesa, Luis Lara, expressou que "a democracia do Equador corre sério risco diante da ação coordenada de pessoas exaltadas, que impedem a livre circulação da maioria dos equatorianos", afirmou, ao lado dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

"As Forças Armadas não permitirão tentativas de romper a ordem constitucional ou qualquer ação contra a democracia e as leis da república", afirmou Lara, que falou também em representação das três forças.

O Serviço de Segurança ECU911 estimou que cerca de 10.000 manifestantes encontravam-se em Quito, cidade de 3 milhões de habitantes. Seis províncias equatorianas estão sob estado de exceção, por meio do qual o Executivo mobilizou militares e implementou um toque de recolher noturno de sete horas.

O prefeito de Quito, Santiago Guarderas, alertou no Twitter que as manifestações "seguem escalando e comprometendo seriamente a paz", e que os mercados da capital "estão ficando desabastecidos".

- Prejuízo -

O Equador, cuja economia dolarizada tenta se recuperar do golpe da pandemia, perde cerca de 50 milhões de dólares por dia com os protestos, estima o governo, sem levar em conta o setor petrolífero, principal produto de exportação.

O gerente da estatal Petroecuador, Ítalo Cedeño, indicou que a produção de petróleo bruto caiu cerca de 100.000 barris por dia, 21% do total, devido a protestos na Floresta Amazônica, onde estão localizados os poços.

- Dialogo à vista? -

Os indígenas pedem também ao Executivo um controle de preços dos produtos agrícolas, para melhorar a economia das famílias, emprego e um orçamento maior para a saúde e educação, além de uma moratória de um ano para o pagamento de créditos junto aos bancos, e a suspensão das concessões de mineração em seus territórios.

Em um novo gesto para buscar uma solução, o presidente Lasso publicou no Twitter uma carta na qual concorda em participar de "um processo de diálogo franco e respeitoso com a Conaie e mais organizações civis". "É nosso dever obter consensos, para o bem do país", ressaltou Lasso.

O presidente, que assumiu o cargo em maio de 2021, denunciou que o movimento indígena quer "derrubá-lo".

A Conaie participou de revoltas que derrubaram três presidentes entre 1997 e 2005. Em 2019, protagonizou protestos violentos que deixaram 11 mortos, mais de 1.000 feridos e e obrigaram o então presidente Lenín Moreno a recuar no corte de subsídios aos combustíveis.

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