Governo federal lança vídeo para incentivar volta à normalidade na pandemia

Daniel Gullino, Fábio Morakawa e Naira Trindade

Após o presidente Jair Bolsonaro defender o “isolamento vertical” para combater o novo coronavírus, sugerindo a reabertura do comércio e de escolas, o governo federal prepara uma campanha publicitária com o slogan “O Brasil Não Pode Parar”. Uma das agências que atendem o governo elaborou um vídeo para campanha.

Em uma versão preliminar, ainda não finalizada, um narrador cita diversas categorias profissionais, como autônomos e prestadores de serviços, e repete diversas vezes que o país não pode parar por eles. O vídeo também afirma que a retomada das atividades é importante para o próprio combate ao coronavírus e de outras doenças.

“Para os pacientes das mais diversas doenças e os heroicos profissionais de saúde que deles cuidam, para os brasileiros contaminados pelo coronavírus, para todos que dependem de atendimento e da chegada de remédios e equipamentos, o Brasil não pode parar. Para quem defende a vida dos brasileiros e as condições para que todos vivam com qualidade, saúde e dignidade, o Brasil definitivamente não pode parar”, diz o narrador.

A campanha já recebeu um pontapé inicial na conta no Instagram do governo. Uma publicação com a hasgtag #OBrasilNãoPodeParar diz que são raros os casos de vítimas fatais do coronavírus entre jovens e que, por isso, somente idosos e integrantes de grupos de risco devem ficar em casa. Esta orientação contraria as recomendações de médicos e da Organização Mundial de Saúde e as medidas adotadas por governos e líderes mundiais.

“Para todos os demais, distanciamento, atenção redobrada e muita responsabilidade. Vamos, com cuidado e consciência, voltar à normalidade”, afirma a postagem.

A hashtag também já foi utilizada nas redes sociais nos últimos dias por deputados federais aliados ao governo.

O presidente Jair Bolsonaro manteve ontem o discurso de questionar o isolamento para o combate à pandemia. Ao chegar ao Palácio da Alvorada, ele disse não acreditar que o coronavírus causará no Brasil danos na mesma magnitude que nos EUA. E atribuiu isso a uma suposta resistência da população aos micro-organismos, dizendo que o brasileiro mergulha “no esgoto” e “não acontece nada com ele”. Os EUA passaram ontem a China em número de casos.

— Eu acho que não vai chegar a esse ponto — respondeu. — Até porque o brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele.

Para Ligia Bahia, sanitarista e professora da UFRJ, Bolsonaro tenta sustentar uma opinião “anticientífica”.

— Não faz sentido comparar a infecção por coronavírus à falta de saneamento básico. O esgoto a céu aberto prejudica o meio ambiente e transmite doenças, como hepatite e verminoses. — explicou. — Bolsonaro resiste ao máximo à ideia de que precisamos enfrentar um novo vírus, contra o qual não há remédio.

Na chegada ao palácio, o presidente repetiu o gesto que havia mais cedo, durante a reunião virtual de membros do G-20. Ele exibiu um frasco de um remédio feito com hidroxicloroquina, a substância que ele defende ser eficaz contra o novo coronavírus, apesar de não haver resultados de pesquisas científicas que comprovem a tese.